A Ptala Vermelha


Autor: Octvio Augusto
Pginas: 288



Agradeo a Deus a inspirao e vivncia que me permitiram escrever este romance. A Ana, minha esposa, e ao Francisco, meu filho, a minha gratido pelo amor e sorrisos
que alegram o meu dia. Aos meus pais, por tudo que me ensinaram, e aos irmos, cunhadas, sobrinhos, sogros e amigos, pelas constantes demonstraes de amizades,
o meu profundo agradecimento. Por fim, agradeo  Editora Lachtre a confiana em meu trabalho, possibilitando a concretizao de um sonho.


Sinopse:
E se os acontecimentos aparentemente banais da vida revelassem suas conexes mais profundas? E se oportunidades inesperadas trouxessem de volta os laos de vidas
anteriores, onde vnculos de amor e afeto pudessem ser reatados? Nesse livro encontraremos Denise, Rosemeire, Maria, Jos Antonio e outros personagens e momentos
como este. Os fatos desencadeados e encontros que se sucedem vo convencer o leitor de que o acaso no existe ou, como dizem alguns, de que o acaso seria o verdadeiro
nome de Deus.





CAPTULO
I


Rosemeire chegou a sua casa cansada do trabalho. Artur, o filho, estava na cozinha preparando um cappuccino. Agitada e ofegante, ela se aproximou dele, beijando-lhe
a face.
- Quer que eu prepare um cappuccino para a senhora?
- Obrigada, meu filho. Estou atrasada para a minha ltima consulta com a doutora Cludia. Passei em casa apenas para pegar o talo de cheques e j estou de sada.
Artur, misturando o p do caf na gua da xcara, lamentava, em seu ntimo, a deciso da me de interromper as sesses de terapia. 
Receoso de que sua me pensasse que ele estava se intrometendo demasiadamente em sua vida, mas ao mesmo tempo preocupado com aquela deciso, Artur resolveu manifestar, 
de forma sutil, o seu ponto de vista.
- Mame, s vezes, leva-se um longo tempo at que esse tipo de terapia surta efeito. Pense com mais calma na hiptese de reconsiderar sua deciso. No interrompa 
as sesses com a doutora Cludia. Ela  uma psicloga muito conceituada. Tenha um pouco mais de pacincia.
Rosemeire olhou com ternura para o filho, agradecida pelo carinho, ateno e zelo com que Artur a tratava, sobretudo aps a separao do marido.
- Obrigada pela sua preocupao. Voc tem sido um anjo, mas, sinto muito, eu j tomei a deciso de interromper a terapia. De fato, a doutora Cludia  muito competente 
e tem me ajudado bastante nesses seis meses de tratamento, mas eu penso que devo caminhar com minhas prprias pernas a partir de agora. Sei o que preciso fazer para 
resgatar a alegria de viver. No posso ficar lamentando o fato de ter me separado do seu pai pelo resto da minha vida. Tem me faltado coragem para tomar certas atitudes, 
mas sei que vou conseguir. Fique tranqilo.
Em seguida, Rosemeire abraou carinhosamente o filho, pegou o talo de cheques sobre o mvel da sala e saiu.
O trnsito at o consultrio da doutora Cludia estava terrvel. Rosemeire comeava a achar que no chegaria a tempo e foi ficando impaciente, imaginando que a psicloga 
poderia achar que era por descaso de sua parte que chegaria atrasada justamente naquele que seria o ltimo de seus encontros.
Rosemeire, inquieta com a lentido do trfego, pegou o celular e discou para o consultrio da doutora, avisando  sua secretria, Magda, sobre o possvel atraso.
No demorou muito e os veculos passaram a fluir com mais velocidade, fazendo com que, para seu alvio, chegasse ao consultrio com apenas dez minutos de atraso.
- Boa tarde! Entre, a doutora est  sua espera.
- Obrigada, Magda. Esse trnsito est de deixar qualquer um estressado. Rosemeire abriu a porta e deparou-se com a psicloga a ler um livro. Assim que viu sua cliente, 
Cludia fechou o livro e, serenamente, levantou-se para cumpriment-la.
- Desculpe-me pelo atraso. Acabei saindo tarde do servio e, como tive de passar em casa, primeiro, para pegar o talo de cheques, acabei pegando um trnsito terrvel 
para chegar aqui.
- No se preocupe, sente-se e relaxe um pouco, enquanto sirvo-lhe uma gua, pois voc est at ofegante. Como foi sua semana?
- A mesma rotina de sempre, sem novidades.
- Que tal colocarmos uma msica bem suave?
- Boa idia. Voc est pensando em fazermos mais uma sesso de terapia de regresso?
- Estou sim. O que acha?
- Tudo bem, mas pode ser que eu no consiga relaxar o suficiente; estou agitada - completou Rosemeire.
- Feche os olhos - disse Cludia, enquanto se levantava para colocar o CD. - Farei a leitura de um texto muito bonito, que auxiliar voc a entrar em estado de relaxamento 
profundo. Procure ficar bem concentrada em minhas palavras, esquea todos os seus problemas. A partir de agora, voc entrar provisoriamente em outro mundo, retornando 
ao passado. Traga  tona os fatos relevantes. Tudo de importante que voc viveu, nesta e em outras vidas, est armazenado, de alguma forma, em seu inconsciente. 
Fatos pretritos que causaram algum tipo de impacto ruim em sua vida podem estar refletindo no seu momento presente. Concentre-se em sua respirao e relaxe.
Cludia fez uma pequena pausa, deixando que a msica auxiliasse a paciente a relaxar. Quando sentiu que era o momento oportuno, comeou a fazer a leitura de um texto, 
na tentativa de induzir Rosemeire a entrar em transe.
Lentamente, a respirao de Rosemeire ficou mais intensa.
- O que voc est sentindo? - perguntou  psicloga.
- Medo.
- De qu?
- Estou grvida do Artur. Namoro o Alexandre h apenas dois meses. Ele veio passar frias em Trancoso e ficou hospedado na pousada da minha me. Estou com medo de 
que ele retorne para Belo Horizonte e me abandone. Temo criar um filho sem a presena do pai, assim como ocorreu com a minha me.
Cludia fez uma pequena pausa. Ela sabia que os maiores traumas vivenciados por sua paciente ocorreram durante a vida intra-uterina. O seu desafio era fazer com 
que Rosemeire mergulhasse naqueles fatos, de forma a traz-los  tona, identificando as conseqncias danosas que refletiam em seu comportamento no momento presente.
- Por que sua me criou voc sem a presena do seu pai?
- Por que ele morreu.
Cludia comeou a induzir sua paciente a uma viagem mental mais distante no tempo. Usando tcnicas apropriadas, levou Rosemeire  adolescncia, depois  infncia, 
at chegar ao momento do parto. A partir dali, o desafio tornava-se mais difcil. As emoes vivenciadas pelo nenm durante a gestao eram importantssimas para 
a formao da personalidade do mesmo. Da, a insistncia da psicloga, sobretudo porque ela sabia das dificuldades enfrentadas pela me de Rosemeire para traz-la 
ao mundo.
- Voc agora  um feto. Retorne aos primeiros dias da gestao de sua me. O seu pai ainda  vivo. - O que ele sente por voc?
Rosemeire tinha a respirao longa. Uma gota de suor escorreu pela sua testa. Aps alguns segundos, ela respondeu:
- Ele no sente nada por mim, no sabe que a minha me est grvida.
- A sua me sabe que est grvida?
- Tambm no. Ningum sabe.
- Os seus pais so felizes?
- So. Sinto que eles se amam e que eu sou fruto desse amor. Eles planejam ter muitos filhos.
- O seu pai se relaciona bem com a famlia da sua me?
- Apenas com o tio Slvio, irmo da mame. Somente ele aprovou a unio dos dois.
- Por qual razo os demais no aprovaram?
- Disputa poltica. Eles vivem em Pedra Rosada, uma pequena cidade do interior de Minas. O meu pai  do Partido Branco e a famlia da minha me  do Partido Vermelho. 
H uma rivalidade terrvel entre esses dois partidos. O pai da minha me  o coronel Teodoro, chefe do Partido Vermelho. Ele no suporta o meu pai. O tio Fausto, 
outro filho dele, tambm odeia o papai. Como eu disse apenas o tio Slvio  amigo do papai. Foi ele quem intercedeu para que o casamento dos meus pais se consumasse.
- A famlia do seu pai se d bem com a sua me?
- O meu pai no tem famlia. Foi criado em um orfanato.
Cludia sentiu que estava alcanando seu objetivo. Rosemeire estava completamente em transe.
- H alguma disputa poltica envolvendo o seu pai e algum da famlia de sua me?
- H sim e o clima est muito tenso. Mame mostra-se extremamente preocupada. O papai ser candidato a prefeito de Pedra Rosada, pelo Partido Branco, e o tio Fausto, 
irmo da mame, ser o candidato do Partido Vermelho. Sou capaz de sentir a angstia da mame. Ela est muito triste com o prprio pai, o coronel Teodoro, porque 
ele disse que, se ela no convencer o papai a abandonar a disputa pela prefeitura, ela dever se separar, sob pena de que ele no mais a reconhea como filha.
- Como voc est se sentindo?
- Eu estou triste com a tristeza da mame. Ela ter de escolher entre o papai e a famlia dela. Caso o papai no desista da candidatura, ela votar contra o prprio 
irmo.
- V um pouco mais adiante. Veja se o seu pai levou a candidatura para frente ou se ocorreu algum fato que o impediu de ser candidato. Rosemeire ficou em silncio 
por alguns segundos. De repente, a sua expresso mudou, tornando-se mais tensa.
- O que voc est vendo?
- O papai chegou a casa; ele est apavorado, chorando muito. Mame levantou-se da cadeira de balano e foi ao encontro dele. Algo de grave aconteceu. Meu Deus! Ele 
est falando que matou o tio Slvio. Ele est explicando que foi um acidente. Ele discutiu em um bar com um vereador do Partido Vermelho e achou que esse vereador 
iria atirar nele. Por isso, ele sacou a arma e atirou no vereador. O tio Slvio estava prximo. Ele havia entrado no bar para separar a briga. Um dos tiros acertou 
no corao dele, matando-o. O papai est desesperado. Ele matou a nica pessoa da famlia da mame que gostava dele. Eles s se casaram porque o tio Slvio intercedeu 
junto ao prprio pai para que este no tentasse impedir.
- Como a sua me recebeu a notcia?
- Ela est em estado de choque. Posso sentir a dor que se instalou no corao dela. Ela amava o tio Slvio. Era com ele que ela se aconselhava. O papai entrou no 
quarto para pegar umas roupas. Ele est na companhia de dois amigos. Eles o esto apressando a fim de sarem rapidamente dali, antes que o vov Teodoro chegue.
- Como voc est se sentindo?
- Estou com medo de ficar rf. Temo que o vov Teodoro mate o meu pai. No sei o que ele  capaz de fazer com a minha me. O que ser de mim? No sei se quero nascer 
nesse ambiente de guerra. Espere, h um esprito de luz que veio me consolar. Ele est dizendo para eu ficar confiante, que a situao se resolver da melhor forma 
possvel. Ele diz que eu terei um papel muito importante quando nascer e que no posso desistir. Ele est emanando uma espcie de fluido em minha direo. Estou 
ficando mais tranqila. Agora ele est agindo diretamente em minha me, passando os fluidos para ela.
- O seu pai ainda est na casa?
- Est sim. Eles esto se despedindo. Ele disse que vai se esconder em algum lugar e que voltar para busc-la quando a situao estiver mais calma, a fim de que 
eles possam fugir dali.
Pela primeira vez, Rosemeire estava conseguindo externar informaes detalhadas sobre o drama vivido por ela durante o perodo de sua vida intra-uterina. Isso deixava 
a psicloga entusiasmada com a possibilidade de cura de alguns de seus traumas.
- Tente relembrar o momento em que o coronel Teodoro encontrou-se com a sua me aps esses fatos.
Novo momento de silncio se fez.
- Ele est furioso. Ele est dizendo que a mame  responsvel pela tragdia que aconteceu com o tio Slvio, porque o papai s aceitou ser candidato a prefeito por 
ser casado com ela, o que lhe conferia uma chance maior de ganhar a eleio. Agora, ele est falando que no sossegar enquanto no matar o papai. Ela tenta argumentar 
que o papai no teve a inteno de matar o tio Slvio, mas o vov vai embora, ignorando os apelos dela.
- Onde est escondido o seu pai?
Aps longa pausa, Rosemeire respondeu:
- No sei. A mame est angustiada. Ela reza sem parar. Deixou as malas prontas, esperando que o papai venha busc-la para fugirem. Ela est revoltada com o meu 
av, porque ele contratou jagunos para matar o meu pai.
- V at o momento em que sua me recebeu notcias de seu pai - ordenou  psicloga.
Outra vez, Rosemeire fez uma pausa antes de responder:
- O vov est entrando na casa. O corao da mame est disparado. Ela pressente uma notcia ruim. Ele diz que o papai est morto. Ela fica desesperada e quer ver 
o corpo. O vov explica que o papai estava escondido em uma fazenda e que ele foi at l com os seus capangas. Houve troca de tiros, com alguns mortos de cada lado. 
O papai fugiu em uma caminhonete, em companhia de um amigo, mas foi perseguido. A caminhonete desgovernou-se e caiu no rio Bonito quando atravessava uma ponte. O 
corpo foi levado pelas guas do rio e no foi localizado, por causa da enchente.  um perodo de muita chuva. Chove sem parar, h vrios dias. A mame ficou revoltada.
- Como voc recebeu a notcia da morte de seu pai?
- Com muita dor. Antes mesmo de nascer j tive uma perda dessa magnitude. O meu pai morreu sem saber que teria uma filha. Eu no tive, em momento algum, o amor de 
um pai. O primeiro amor de um homem, que toda filha recebe, eu no tive. Sinto carncia por esse fato. Parece um pressgio de que terei perdas ligadas aos homens 
que cruzarem no meu caminho. Eles no ficaro ao meu lado. Cheguei a pensar em recuar e desistir de nascer, mas mudei de idia para no deixar a minha me completamente 
desamparada.
Novamente, a psicloga interrompeu a narrativa de sua cliente para dar uma nova explicao:
- O fato de voc ter perdido o seu pai nessas circunstncias indica apenas uma perda; a ausncia do amor paterno nada tem a ver com o amor dos homens que aparecerem 
em sua vida. Voc nasceu para amar e ser amada. A energia do amor jamais se apaga de nosso mago.
Quanto mais amamos, ficamos mais prximos de nosso centro. No falo do amor ligado ao sexo, mas do amor por toda e qualquer criao da obra de Deus. A troca de energias 
ligadas ao amor deve ser constante. Dor alguma tem a capacidade de impedir essa troca. Libere o amor que est reprimido dentro de voc. Em nossa essncia, somos 
amor e atramos amor. Esta  a energia que torna a vida perene. Deus  amor e ns somos feitos  sua imagem e semelhana.
Cludia deu alguns segundos para que as suas afirmaes fossem assimiladas por Rosemeire e depois prosseguiu:
- O que aconteceu nos dias que se seguiram?
- Mame tem esperana de que o papai no tenha morrido e que voltar para busc-la. O corpo dele no apareceu.
- Sua me j descobriu que est grvida?
- Ainda no.
- O que ela sentiu quando soube da gravidez?
Mais uma vez, a resposta de Rosemeire demorou certo tempo.
- Ela est nervosa, sem saber como far para me criar, pois acredita que no receber qualquer ajuda do prprio pai. Acha que no conseguir me dar uma boa educao 
e me enxerga como um problema sem soluo.
Novamente, a psicloga tentou desativar os pensamentos ruins da mente de sua paciente.
- Voc deve relevar esses sentimentos, pois foram frutos de momentos de desespero. Mesmo as grandes relaes de amor passam por momentos difceis, onde  preciso 
muita pacincia para compreender as razes do outro. Depois dessa fase difcil, a sua me deu demonstraes de um amor puro e ilimitado por voc. Agora, quero que 
me fale sobre a reao do seu av, quando soube da gravidez.
Logo veio  mente de Rosemeire o sentimento que o av tinha por ela.
- Ele quer me matar. No aceita um herdeiro com o sangue do papai. Diz que sujar o nome da famlia para sempre. A mame ficou sabendo que ele est tramando com 
o tio Fausto para lev-la a um mdico que faa o aborto. Estou com medo. No sou benquista, principalmente para os homens. Tenho apenas o amor da minha me.
Cludia voltou a interromper sua paciente.
- Os motivos que os levam a no querer o seu nascimento so egostas. Eles foram injustos e o seu pai no teve a oportunidade de exercer amor por voc. O seu tio 
e o seu av materno so exemplos de sentimentos ruins. Esses sentimentos ruins deles eram direcionados a vrias pessoas, sem exclusividade para quem quer que seja. 
Desconsidere-os. Qual a reao da sua me?
- Ela decidiu que no aceitar interromper a gravidez. Aquele mesmo esprito de luz que a consolou na ocasio da morte do tio Slvio, veio durante o sono, aconselhando-a 
a fugir para Trancoso, onde est morando uma amiga dela. Ela ficou insegura, porque ainda tem esperanas de que o papai volte, mas, mesmo assim, escreveu uma carta 
para essa amiga e est aguardando a resposta. O meu av est tentando convenc-la a abortar. Ela pediu um prazo para pensar no assunto, apenas para ganhar tempo. 
No fundo, ela sabe que no ter alternativa. Ele a forar a fazer o aborto, caso ela no fuja.
Levou mais um curto espao de tempo, e Rosemeire prosseguiu:
- A carta chegou. A amiga da mame a convidou para ficar na casa dela. A minha me est decidida a partir, mas est sentindo um aperto no corao, pois alimenta 
esperana de que o papai volte para busc-la. Ela insiste em crer que ele conseguiu escapar depois que a caminhonete caiu no rio, pois o corpo ainda no foi encontrado.
"Vamos partir de madrugada, s escondidas. Minha me contratou um motorista de txi que nos levar at Vitria, no Esprito Santo. De l, ns seguiremos para Porto 
Seguro e, depois, Trancoso. Mame est com muita raiva do pai dela. Ela atribui a ele todo o sofrimento por que est passando. Ela acha que jamais ser feliz novamente 
com outro homem. Est profundamente decepcionada com a experincia do casamento, descrente da existncia da felicidade a dois. Eu absorvo todos esses pensamentos."
- Esses pensamentos so falsos - afirmou Cludia. - So fruto de um momento difcil que a sua me viveu. A felicidade a dois  possvel.
Vrios casais so felizes por dcadas, at serem separados pela morte. Outros casais encontram a felicidade em um segundo casamento, com novos parceiros. Por fim, 
outros so felizes juntos, depois de um perodo de separao. As experincias traumticas no campo afetivo preparam-nos para uma felicidade a dois, desde que aproveitemos 
as lies aprendidas com os nossos erros. Essas dificuldades jamais podero nos desacreditar da existncia da felicidade conjugal. Agora, responda-me: vocs chegaram 
ss e salvas a Trancoso?
- Chegamos, sim. Fomos bem recebidas pela amiga da mame. Ela tem uma venda e a mame trabalhar l.
Cludia decidiu passar para a etapa seguinte de suas perguntas.
- Conte-me agora sobre o seu nascimento. O que voc sentia, s vsperas de vir ao mundo?
- Os laos que prendem meu esprito ao meu corpo esto muito fortes. No incio da gestao, eles eram frgeis e poderiam ser rompidos facilmente. Tenho a sensao 
de que, nas primeiras semanas, eu tinha alguma liberdade de ao no mundo espiritual. Agora, o meu esprito est completamente preso ao corpo fsico que me abrigar. 
Recebo uma visita de um esprito de muita luz, que veio me desejar boa sorte. Eu sinto um amor imenso por ele. No consigo ver a sua fisionomia, mas sei que se trata 
de algum muito prximo a mim. Pergunto se  o meu pai e ele diz que no, mas que cuidar de mim e da minha me e que um dia ns cuidaremos dele, porque o amor que 
nos une  indestrutvel, fruto de vidas passadas, e que voltaremos a nos reunir em uma mesma famlia.
 medida que narrava os fatos que se passavam em sua mente, as lagrimas rolavam pela face de Rosemeire. A psicloga ficou impressionada com aquela narrativa.
H algum outro fato relevante durante sua vida intra-uterina? Rosemeire pensou por alguns segundos e respondeu: No estou me lembrando de mais nada. Acredito que 
esses sejam os principais fatos.
Em seguida, Cludia comeou a induzir Rosemeire a sair do transe.
- Abra os olhos. Est tudo bem com voc? Rosemeire balanou a cabea, fazendo gesto afirmativo. - - Lembra-se do que voc falou durante o transe?
- Sim. Foi fruto da minha imaginao?
- No. Voc narrou fatos com riqueza de detalhes. Acho importante repensar sua deciso de interromper a terapia. Podemos tentar fazer regresses a vidas passadas.
Rosemeire no gostou da idia e, de imediato, disse o que pensava a respeito do assunto:
- No quero viver essas experincias, doutora. Com todo respeito aos que pensam de forma diferente, eu no acredito em vidas passadas.
Sinceramente, no estou segura de que os fatos que narrei aconteceram realmente. Eu j sabia dos fatos que marcaram a gravidez da minha me. Talvez, esse conhecimento 
tenha influenciado na minha narrativa. A nossa mente  muito poderosa. A minha mente pode ter criado fatos para encontrar respostas para os meus bloqueios emocionais. 
A terapia foi muito til, mas agora preciso caminhar sozinha. Caso mude de idia, recorrerei ao seu auxlio novamente.
Cludia ficou desapontada, pois sentiu que a continuidade da terapia de regresso poderia ser valiosssima para a sua cliente. Todavia, decidiu no insistir.
A despedida foi marcada por um abrao afetuoso. Rosemeire voltou para casa pensando nos fatos que vieram  sua mente durante a sesso.
 

CAPTULO 
II


Artur acordou com sua me batendo na porta de seu quarto. De segunda a sexta-feira, impreterivelmente s sete e trinta da manh, ela acordava o filho.
Ele espreguiou-se demoradamente sobre a cama, buscando coragem para se levantar. Fechou os olhos e ficou pensando no sonho que tivera h pouco.
Estava em uma cidade pequena, cortada por um rio. Havia uma linda ponte, em forma de arco, que ligava as duas partes da cidade. Artur estava apreciando o pr-do-sol, 
quando um homem louro, com uma mancha vermelha no lado direito da face, aproximou-se dele, sentando-se no parapeito da ponte. Em seguida, o estranho perguntou:
- Bonito o rio, voc no acha?
Artur olhou para ele, sentindo uma estranha familiaridade naquela fisionomia. De certa forma, ficou hipnotizado pelo olhar meigo daquele desconhecido. Aps alguns 
segundos, Artur respondeu:
- Sem dvida, o rio  lindo. Por acaso, ns j nos conhecemos?
- Talvez. Acredito que temos alguns amigos em comum.
- Voc mora aqui?
- No, mas j morei.
- Onde voc est morando atualmente?
- Em um lugar muito bonito, onde as pessoas so livres, porque exercitam o perdo, sabendo que no podemos julgar o prximo. O ressentimento aprisiona a alma, o 
perdo liberta.
Artur deu um leve sorriso, estranhando o comentrio feito; afinal, tinha acabado de conhecer aquele cidado. Em seguida, perguntou:
- Por que est falando isso?
- Consulte o seu corao. Voc est carregando mgoa de uma pessoa muito importante em sua vida.
Artur surpreendeu-se com a resposta. Franziu a testa, demonstrando certa tenso. O estranho prosseguiu:
- V mais fundo ainda no seu corao e verifique como a mesma mgoa est fazendo mal a outra pessoa que voc ama.
- Quem  voc? - perguntou Artur, no escondendo a irritao que aqueles comentrios provocaram.
O homem deu um sorriso meigo, antes de responder:
- No momento certo voc saber quem eu sou. Posso lhe adiantar apenas que ns temos laos mais fortes do que voc imagina. Por ora, peo-lhe que oua o que tenho 
a dizer.  importante para voc.
- Est bem - respondeu Artur, sentindo-se hipnotizado pelo olhar daquele homem.
- Esta ponte sobre a qual pisamos liga o norte ao sul da cidade. Atravs dela, a pessoa de um lado comunica-se com as pessoas do outro lado. A construo da ponte 
facilitou o relacionamento entre elas. Antigamente, noventa por cento das pessoas que moravam no norte casavam-se entre si. Da mesma forma, as pessoas que moravam 
no sul. No comrcio, dava-se o mesmo. Os moradores do norte no se davam com os do sul. Com a construo desta ponte, eles puderam se conhecer melhor. Hoje, so 
todos amigos e alguns so parentes, pois o morador do norte casou-se com os do sul. Voc  um bom engenheiro e tem colaborado muito na construo de obras belssimas. 
No plano pessoal, entretanto, voc est erguendo muralhas, impedindo a aproximao de pessoas importantes em sua vida. Deixe as muralhas de lado e construa pontes, 
aproximando as pessoas umas das outras, bem como de voc.
Em seguida, o homem sorriu para Artur e comeou a andar pela ponte. Artur quis segui-lo, mas os seus ps deslizaram no cho e ele no conseguiu sair do lugar.
Com a imagem daquele homem gravada em sua mente, Artur ouviu Rosemeire, sua me, bater na porta do quarto.
Depois de curtir uma preguia por dois minutos, ele tomou o banho, colocou a roupa e dirigiu-se  mesa de caf, onde sua me j o aguardava.
- Voc est um pouco areo nos ltimos dias, meu filho. Aconteceu alguma coisa?
- No. Est tudo bem. Acho que estou apenas um pouco estressado com o trabalho. Todo dia aparece um pepino para resolver.
- Por que voc no tira uns dias de frias e faz uma viagem?
- Bem que eu gostaria, mas agora no d. Nos prximos meses, ser impossvel tirar frias.
Rosemeire balanou a cabea, reprovando o ponto de vista do filho. Tinha receio de que a dedicao exagerada ao trabalho pudesse lhe prejudicar a sade. Aproveitou 
a ocasio para aconselh-lo.
- Viva a vida enquanto voc  jovem, bonito e solteiro. A responsabilidade de uma vida a dois no  brincadeira. Depois que vm os filhos, ento, a  que voc no 
ter mais vida prpria mesmo! Voc est trabalhando muito e se divertindo pouco. O trabalho sempre  pretexto para voc no se cuidar. Se continuar nesse ritmo frentico, 
em breve a qualidade do seu trabalho ir cair.
Em seu ntimo, Artur sabia que sua me estava com a razo, mas no quis dar o brao a torcer.
- Eu estou curtindo a vida dentro das minhas possibilidades. No tenho nada a reclamar.
Rosemeire no se deu por vencida.
- Acho que voc est precisando de uma namorada. J tem um tempinho que eu no vejo voc se envolver mais seriamente com uma garota.
Artur tomou um gole de caf, enquanto os seus pensamentos iam de encontro da colega de trabalho.
- Pode ficar tranqila. Na hora certa aparecer uma pessoa muito especial em minha vida. Para ser franco, acho que essa pessoa j apareceu.
A fisionomia de Rosemeire mudou aps ouvir a confisso do filho. Um largo sorriso precedeu a pergunta que veio a seguir:
-  mesmo? Como voc no me disse nada?
-  uma arquiteta que comeou a trabalhar na construtora, h pouco mais de um ms - respondeu Artur, sem esconder a timidez.
- Que notcia boa! Ela j sabe que voc est interessado nela?
- Ainda, no. Fiquei sabendo que ela tem namorado.
- Isso no quer dizer nada - ponderou Rosemeire. - Hoje em dia, as pessoas trocam de namorado com a mesma facilidade com que trocam de roupa. Qual  o nome dela?
- Renata - respondeu ele, com um brilho no olhar. - O papo est bom, mas eu preciso ir.
- Gostei do nome. Boa sorte.
- Obrigado.
Artur beijou a face de sua me e saiu.
 medida que dirigia o carro pelas ruas engarrafadas da cidade, ele olhava pela janela do carro, percebendo que no havia sequer uma nuvem. O cu estava com um azul 
maravilhoso. O sol deixava o dia bem claro, tornando indispensvel o uso dos culos escuros. A brisa fresca da manh trazia uma agradvel sensao de frescor. Era 
outono e as caladas estavam cobertas pelas folhas das rvores.
Artur ficou feliz por conseguir apreciar novamente uma manh ensolarada de outono. Desde a separao dos pais, no conseguia acordar de bom humor. Decidiu ligar 
o rdio. Para sua surpresa, estava tocando a cano Epitfio, do grupo Tits, cuja letra, entre outras coisas, aconselhava a apreciar mais o nascer e o pr-do-sol, 
bem como a trabalhar menos e a aceitar as pessoas como elas so. Era exatamente o oposto do que ele estava fazendo em sua vida. Estava trabalhando muito, sem apreciar 
as belezas da vida, e no perdoava o pai por haver se separado da sua me.
Quando chegou  construtora, a reunio j havia comeado. O doutor Alfredo falava da necessidade da reduo de custos para a sobrevivncia da empresa. Pedia a colaborao 
de todos na fiscalizao do desvio e do desperdcio de material de construo.
No decorrer da reunio, Renata fez observaes bastante pertinentes, aumentando ainda mais a admirao de Artur. Ao final, ambos permaneceram trocando idias sobre 
o projeto da construo do edifcio de luxo que deveria ser lanado em breve. Quando deram por si, j passava do meio-dia. Entusiasmado pela perspectiva de continuar 
a conversa, Artur convidou-a para almoar em uma cantina que ficava perto dali. O convite foi aceito prontamente.
Caminharam lentamente os trs quarteires que separavam a construtora do restaurante. Ao chegarem  cantina, foram atendidos por um simptico garom, o qual sugeriu 
que pedissem o prato do dia: canelone de ricota ao molho de amndoas. A sugesto foi aceita por ambos.
Aps o garom se afastar, Artur deu seqncia  conversa:
- Voc est gostando de trabalhar na construtora?
- Estou sim. Depois de desfazer a sociedade no escritrio de arquitetura, este emprego caiu do cu. Eu moro com a minha irm e no gosto de ficar pedindo dinheiro 
aos meus pais.
- Eles moram em outra cidade?
- Moram em uma fazenda, no sul de Minas, a trinta e trs quilmetros da cidade de Trs Pontas. Eles mexem com plantao de caf, mas vm aqui pelo menos uma vez 
por ms.
- A sua irm  mais velha que voc?
- No. A Denise tem vinte e trs anos. Est se formando em arquitetura tambm.
- Interessante que vocs duas no tenham escolhido alguma profisso para trabalhar no campo. Eu acho a vida na cidade grande muito estressante. Caso eu fosse nascido 
no interior, acho que no ficaria na capital.
- Eu tambm acho a vida aqui estressante, sobretudo por causa da violncia. Sinto saudades da fazenda e de Trs Pontas. A qualidade de vida por l  bem melhor. 
O difcil ser convencer a minha irm a voltar Comigo. Ela  muito urbana e eu no tenho coragem de larg-la aqui. Acho que ela no tem responsabilidade suficiente 
para morar sozinha.
Artur sorriu, antes de perguntar:
- Voc  do tipo que fica tomando conta da irm mais nova?
- Eu me sinto responsvel por ela. A Denise  boa pessoa, mas um pouco imatura para a idade que tem.
A conversa foi interrompida pelo garom, que chegou com os pratos. Durante o almoo, conversaram pouco. Aps olhar no relgio, Renata viu que j passava da hora 
de retornar ao trabalho.
- Vamos pedir a conta. Tenho muito servio  minha espera.
Artur assentiu com um movimento de cabea. Estava feliz por ter conseguido se aproximar mais de Renata. Em sua mente, havia dado um importante passo para estreitar 
ainda mais o relacionamento com ela.
 

 
CAPTULO 
III


A semana de trabalho chegou ao fim e o relacionamento entre Artur e Renata tornou-se mais estreito depois do almoo na cantina italiana.
Aps o habitual lanche na sala de caf, aproveitando que somente os dois estavam no recinto, Renata decidiu convid-lo para sair.
- Voc tem algum programa para hoje?
A pergunta pegou Artur de surpresa. Ele estava tentando encontrar um meio de convid-la para algum programa, mas estava receoso pelo fato dela ter namorado. No 
escondendo o espanto com a pergunta, ele respondeu:
- No. Eu estava at pensando em qual programa poderia fazer hoje. Por que voc perguntou?
- Gostaria de apresent-lo  minha irm. Poderamos ir a algum bar.
A resposta veio como uma ducha de gua fria. O simples fato de Renata querer apresent-lo  irm j era sinal de que no tinha o menor interesse por ele. Um tanto 
quanto sem graa, Artur respondeu:
- Desculpe-me, mas no acredito que esses encontros arrumados vo para frente. No me leve a mal.
Renata lamentou a resposta do colega de trabalho. Apesar do pouco tempo de convvio, teve uma boa impresso de Artur, vendo nele a pessoa ideal para namorar a irm, 
a qual estava levando uma intensa vida de solteira, deixando-a preocupada.
- Tudo bem, mas acho que voc est perdendo. A Denise  linda e est precisando tanto arrumar um namorado!... Sempre que chega a sexta-feira, eu j acordo preocupada. 
Sei que ela vai para a balada e no consigo dormir direito enquanto ela no chega. Eu achei voc uma pessoa to bacana e pensei em armar um encontro. Atualmente, 
no est fcil encontrar um cara solteiro que queira levar um relacionamento a srio. O elogio de Renata deixou Artur envaidecido.
- Obrigado pela parte que me toca. A verdade  que vrios homens e mulheres interessantes esto livres. A maioria deles, por opo. No sei por qual razo h tanta 
cobrana da sociedade para as pessoas namorarem e casarem. Acho que a nossa gerao est numa fase de transio.
Antigamente, as pessoas procuravam um par a todo custo. Eram muito cobradas, se no tivessem sequer um companheiro ou uma companheira. Em funo disso, elas sujeitavam-se 
a relacionamentos deteriorados, apenas para no serem includas no rol das 'titias' ou 'titios'. Hoje, esse quadro est mudando. As pessoas j no namoram apenas 
por namorar.
O namoro tem que valer a pena. Do contrrio,  melhor ficar solteiro, pois, enquanto algum mantm um namoro que nada acrescenta, perde oportunidades de conhecer 
pessoas interessantes.
Renata balanou a cabea, concordando com Artur.
- Voc est certo. As pessoas esto mais seletivas. Acho que a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres ajudou nessa mudana.
A independncia financeira fez com que as mulheres no aceitassem mais qualquer tipo de relacionamento. Elas j no precisam de um homem para sustent-las.
Aps uma pequena pausa, Renata acrescentou:
- No  porque a Denise  minha irm, mas hoje voc est perdendo a oportunidade de conhecer uma dessas pessoas interessantes.
Artur deu um sorriso tmido, olhou nos olhos de Renata e disse:
- Vamos deixar para sair em uma prxima ocasio. Tenho certeza de que no faltaro outras oportunidades.
- Est bem. Tenho que ir. J acabei o meu servio. Vou aproveitar e passar na academia para malhar um pouco. Caso mude de idia em relao  minha irm, pode me 
avisar que eu dou um jeito para vocs se conhecerem hoje, ainda.
Artur balanou a cabea, fazendo sinal afirmativo, e ficou observando Renata sair pela porta e caminhar pelo corredor.
Naquela sexta-feira, ele decidiu passar em uma locadora de vdeo. Havia trabalhado muito durante a semana e estava cansado. O seu maior desejo era fazer pipoca, 
tomar guaran e deitar no sof para assistir a um bom filme.
O filme escolhido mostrava os motivos e as conseqncias da invaso americana ao Iraque. Era baseado no relato de um coronel que havia participado das operaes 
blicas.
Ao final, Artur temeu por uma invaso americana em solos brasileiros, a pretexto de salvar a Amaznia. O filme deixou-o chocado com a poltica imperialista do governo 
Bush. Ficou pensando sobre o sofrimento de milhes de pessoas, em todas as partes do mundo, vtimas das diversas guerras. Que mal teriam cometido para sofrer tanto? 
Onde estaria  justia de Deus para com os inocentes que perderam toda a famlia e para com aqueles que tiveram membros decepados? Muitos no haviam praticado tantas 
maldades nesta vida para merecerem aquela dor, pensava Artur.
Algumas questes comearam a borbulhar em sua mente: quem  Deus? Como Ele surgiu? Por que Ele decidiu criar o mundo? Por que permite tanta dor e fica impassvel 
diante de tanta maldade? At quando o mal vai suplantar o bem?
Pensando nessas questes, Artur lembrou-se do homem que apareceu em seu sonho, dando-lhe conselhos sobre o perdo.
O sonho parecia muito real. Desde ento, Artur comeou a pensar seriamente na possibilidade de estreitar o relacionamento com o seu pai, afetada deciso dele em 
separar-se de sua me, fato ocorrido h seis meses, com o argumento de incompatibilidade de gnio.
Artur pensava em seu pai quando o telefone celular tocou. O relgio j marcava meia-noite e meia. Ele no costumava receber ligaes naquele horrio. O que teria 
acontecido?
Ao atender, ouviu a voz de Renata do outro lado da linha: Artur desculpe-me estar telefonando a esta hora. Eu sei que  tarde, mas preciso muito da sua ajuda - dizia 
ela, entre soluos.
O desespero demonstrado acusava que algo de muito grave tinha acontecido. Artur sentiu o corao disparar.
- Tudo bem. O que houve?
Ela soluava e no conseguia conversar. 
- Procure manter a calma. Desesperar no vai ajudar em nada.
Com dificuldade, ela comeou a explicar o ocorrido: 
- Denise me telefonou agora. Ela e mais dois amigos esto presos em uma delegacia. Eles estavam fumando maconha dentro do carro, quando a polcia chegou e deu uma 
batida. Parece que encontraram cocana tambm. Esto sendo acusados de trfico de droga. Por favor, v  delegacia comigo. Eu estou com medo, sem condies de dirigir.
A notcia deixou Artur com as pernas bambas. Jamais havia entrado em uma delegacia, mas sabia que o ambiente era pssimo, haja vista que o pai era advogado e fazia 
comentrios sobre as causas mais importantes que atuava. Sem alternativa, Artur respondeu:
- Eu irei com voc. Fique calma. Vou apenas colocar uma roupa. Qual  o seu endereo? - perguntou Artur, enquanto caminhava em direo ao mvel onde havia uma caneta.
Aps escrever o endereo, Artur comeou a pensar em uma forma de ajudar a irm de Renata. Queria fazer algo mais do que apenas estar presente fisicamente naquele 
momento difcil. Certamente, Denise precisaria de um bom advogado. Artur j tinha ouvido falar que o crime de trfico de drogas era inafianvel, o que significava 
que o autor ficava preso durante a tramitao do processo. Pensou em telefonar para o seu pai. Ele era o nico criminalista que Artur conhecia e confiava. J havia 
visto o seu pai conseguir ganhar causas tidas como perdidas.
Artur chegou a pegar o telefone. Entretanto, seus dedos no conseguiram discar o nmero do pai. Depois de evit-lo por seis meses, seria muito abuso telefonar para 
ele naquela circunstncia.
Aps colocar a roupa, Artur saiu apressado de casa. No caminho, voltou a pensar na hiptese de telefonar para o pai. Pensou, ainda, na razo que levou Renata a telefonar 
para ele e no para o namorado.
Ao chegar, ela j o esperava na portaria do prdio. Assim que Renata entrou no veculo, Artur percebeu que ela estava trmula e com os olhos muito inchados. Ela 
o abraou, sem conseguir conter os soluos.
- Voc foi  nica pessoa que me veio  mente, neste momento difcil. Desculpe-me incomod-lo.
- Est tudo bem. No se preocupe em pensar que est me incomodando.  bom saber que voc confia em mim. Os seus pais j esto sabendo?
- No avisei nada ao meu pai, por enquanto. No sei como ele reagir, pois ainda est abalado com a morte da minha me, no final do ano passado. Primeiro, eu vou 
tentar resolver tudo. Se no conseguir tirar a Denise da cadeia, ento eu ligarei para ele. Estou com medo de que ele tenha um ataque de nervos. Isso no podia acontecer, 
logo agora que ele est entusiasmado, em razo da formatura dela.
Artur segurou firmemente as mos de Renata, tentando encoraj-la. A expresso de medo estava visvel na face dela. Em seguida, disse algumas palavras de consolo:
- Procure ficar calma. Tudo vai dar certo. Vamos l verificar o que est acontecendo.
Enquanto Artur dirigia, Renata desabafava: 
- Eu sabia que a Denise estava fazendo uso de maconha. J havia falado para ela sair dessa vida, mas ela falou que no era viciada e que fumava raramente. Jamais 
poderia imaginar que ela estava usando cocana e, muito menos, que estivesse traficando.
Artur ouvia as lamentaes de Renata, mas no encontrava palavras para confort-la. Imaginava que a situao de Denise poderia ser mais grave do que Renata estava 
imaginando e no quis passar falsas esperanas.
Assim que chegaram  delegacia, eles viram uma senhora chorando, enquanto ouvia o que o advogado lhe dizia.
Renata identificou-se como irm de Denise para o homem que estava atrs do balco. Ele era gordo, baixinho, bem moreno e com uma calvcie acentuada.
- A sua irm est muito nervosa. Ela est na rea da carceragem, mas fora da cela, por enquanto. Daqui a pouco, irei busc-la para a senhora conversar com ela.
Virando-se para Artur, ele perguntou: 
- O senhor  o advogado? 
- No. Eu sou apenas um amigo. Ela precisar de advogado?
O homem franziu a testa, diante da pergunta ingnua. 
- Precisar, sim. A situao dela no  simples. Eu j li o boletim de ocorrncia e o doutor delegado, tambm.  provvel que ela seja indiciada por trfico ilcito 
de entorpecentes, que  considerado crime hediondo.
Renata sentiu as pernas bambearem. Achou que fosse desmaiar. Virou-se para Artur, abriu a boca para falar algo, mas sentiu falta de ar. Artur abraou-a, apertando-a 
em seu peito, enquanto alisava os seus cabelos. Nesse momento, sentindo as lgrimas dela molharem a sua camisa, Artur esqueceu as desavenas com o pai. Seria menos 
mal uma reao indesejvel dele do que ver a mulher pela qual estava interessado naquela situao desesperadora.
- Eu vou telefonar para o meu pai. Ele  um excelente advogado criminalista.
A afirmao de Artur trouxe nimo novo para Renata, pois ela no conhecia nenhum advogado que fosse da sua confiana. Com os olhos marejados, ela disse:
- Faa isso por mim. Eu no vejo a hora de tirar a minha irm deste lugar.
Artur tirou o celular do bolso, suspirou fundo e discou para o seu pai. O telefone tocou at dar sinal de ocupado. Ningum atendeu.
- Ele no atendeu? - perguntou Renata.
- No. Acho que ele no ir me atender. Eu fui muito duro com ele, depois que se separou da minha me. Eu me afastei e recusei as suas tentativas de aproximao. 
Acho que vou ter de pensar em outro advogado.
Nesse momento, o telefone tocou. Era o seu pai. 
- Artur, voc me telefonou?
- Telefonei, sim. Eu estou na delegacia de txicos e entorpecentes.
O corao de Alexandre veio  boca. Tinha plena convico de que Artur no fazia uso de drogas.
- O que aconteceu, meu filho? Voc foi preso?
- No. Eu estou acompanhando uma amiga que teve a irm presa. Parece-me que ela foi pega com maconha e cocana. O policial est falando que ela deve ser enquadrada 
em trfico de droga.  uma amiga muito especial para mim. O senhor  o nico criminalista que eu conheo. Eu no queria incomod-lo, mas eu no conheo mais ningum.
 medida que Artur falava, as lgrimas brotavam nos olhos de Alexandre. A rejeio do filho doa-lhe no fundo da alma, deixando-o sufocado. Era uma dor para a qual 
ele no estava encontrando alvio.
Um silncio breve se fez, mas aquele momento pareceu uma eternidade para Artur. O orgulho que habitava em seu esprito era semelhante a uma imensa rocha, dificlima 
de ser removida.
Artur quis falar, mas uma fora poderosa travou o som das palavras. Seria preciso muito esforo para vencer esse orgulho e pedir ajuda ao seu pai. Fechou os olhos 
e viu a imagem do homem com o qual sonhou. De repente, teve a sensao de que esse homem tocou levemente em sua garganta. Como num passe de mgica, as palavras saram:
- Por favor, papai, venha  delegacia. A irm da minha amiga ir prestar depoimento. Eu gostaria que o senhor acompanhasse o caso dela, se possvel.
Alexandre sentiu uma exploso de alegria. Estava em p, de olhos fechados, ao lado do sof da sala quando ouviu o pedido do filho.
- Claro! Eu j vou colocar o terno. Diga ao policial que a moa tem advogado e que est a caminho. - Obrigado.
Aps desligar o telefone, aos poucos, os batimentos do corao de Alexandre foram voltando ao normal. Sentiu uma sensao de liberdade, como se tivesse tirado um 
peso imenso das suas costas.
- Ele vem? - perguntou Renata, enquanto estalava os dedos, tamanho o nervosismo. 
- Est vindo.
Artur viu a fisionomia de Renata externar certo alvio e tambm ficou aliviado por v-la mais tranqila.
Depois de colocar o terno, Alexandre mentalizou a imagem de Jesus, fechou os olhos e orou em silncio:

"Senhor: obrigado pela oportunidade de poder reatar o relacionamento com o meu filho amado. Com a Sua graa, tenho tido sucesso em praticamente todas as causas. 
O dinheiro que ganho no meu trabalho tem proporcionado conforto a mim e  minha famlia. Esta ser a causa mais importante da minha vida, porque poder reaproximar 
o meu filho de mim. Ento, ilumine os meus passos neste caso, a fim de que eu consiga ajudar essa moa. Obrigado por tudo. Amm".

Alexandre pegou sua pasta e saiu apressado de casa, pensando nas possveis teses de defesa. Chegando  delegacia, viu o filho sentado em um banco de madeira, ao 
lado de uma mulher bonita, e foi direto ao encontro dele.
- Obrigado por ter vindo, papai. Esta  a Renata, minha colega de trabalho. A Denise, irm dela, est presa.
- Muito prazer. Fique tranqila, porque a sua irm ter toda a assistncia que for necessria. Eu vou me inteirar dos fatos.
Aps limpar as lgrimas com um leno branco, Renata agradeceu.
- Obrigado por ter vindo, doutor. Faa o que for preciso para tirar a minha irm daqui.
Alexandre assentiu com a cabea e caminhou em direo ao policial.
- O senhor  o pai do garoto, doutor Alexandre?
- Exatamente, inspetor lvaro. Como est a situao da minha cliente?
O inspetor franziu a testa e balanou a cabea antes de responder, indicando que o advogado teria dificuldade em conseguir a liberdade de Denise.
- Um pouco complicada. Ela estava no carro com dois rapazes, em um local ermo, em atitude suspeita. Os policiais fizeram a abordagem e pegaram os trs fumando maconha. 
Eles ainda tentaram se livrar da droga quando viram os policiais, mas no conseguiram. Depois de apreender a maconha que eles estavam fumando, os policiais revistaram 
o veculo e encontraram quinze papelotes de cocana, embaixo do tapete do banco de trs. Todos negam a propriedade da droga. Os rapazes so primos e j foram orientados 
pelo advogado deles.  o doutor Magela, aquele homem de terno que est conversando com aquela senhora, a me de um deles.
Alexandre olhou para o seu colega de profisso, preocupado com a verso que ele orientaria seus clientes a falar em juzo. Magela era um advogado de pssima reputao 
no meio jurdico. Voltando-se para o inspetor, perguntou:
- Quem  o proprietrio do veculo?
- A proprietria do veculo  a sua cliente. Por isso, a situao dela  a mais complicada.
- Eu gostaria de ter uma entrevista com ela antes do depoimento
- Perfeitamente, doutor.
lvaro encaminhou o advogado para uma sala reservada e foi  carceragem buscar a presa.
Alexandre comeou a pensar no caso concreto. A falta de escrpulos do doutor Magela poderia lev-lo a bolar a defesa de seus clientes inventando uma falsa histria 
que viesse a incriminar Denise.
Quando a porta da sala se abriu, Denise entrou e o inspetor retirou-se, deixando-os sozinhos. A beleza dela era de impressionar, mesmo na situao em que se encontrava. 
Denise estava bastante assustada, o seu queixo tremia sem parar e os olhos verdes estavam inchados de tanto chorar. Os cabelos dourados estavam molhados de suor. 
O desespero estava estampado nos traos finos de seu rosto. No usava uma nica maquiagem. Vestia uma camiseta branca e uma cala jeans. Jamais havia entrado em 
uma delegacia de polcia. Agora, estava em um corredor da carceragem, prximo s celas, vendo presas de alta periculosidade dividindo cada centmetro daquela masmorra. 
Estava  beira de ter um ataque de pnico s de imaginar que, em poucos minutos, poderia ser posta dentro de uma daquelas celas ftidas. Ao ver o advogado, ela voltou 
a chorar.
- Meu nome  Alexandre, sou advogado e fui contratado pela Renata, sua irm, para fazer a sua defesa.
Os lbios de Denise comearam a tremer de forma descontrolada. Comeou a chorar compulsivamente, chegando a perder o flego entre um soluo e outro.
Alexandre abriu a porta e foi ao bebedouro buscar um copo de gua. Em seguida, retirou um leno do bolso, entregando-o  cliente. Aos poucos, Denise foi recuperando 
o controle.
- Procure ficar calma. Eu preciso saber de toda a verdade, mesmo que seja culpada. No esconda nada de mim. Terei melhores possibilidades de fazer a defesa se souber 
dos fatos como realmente eles aconteceram.
Denise acenou positivamente com a cabea. Ainda soluando, comeou a explicar o ocorrido:
- Eu fui para a faculdade pegar o resultado das provas. A minha formatura ser daqui a duas semanas. Como todos os alunos passaram, resolvemos ir a um bar para comemorar. 
Depois de algum tempo, Leandro e o Carlos me chamaram para fumar maconha. O Leandro ligou para uma pessoa e combinou o local de pegarmos a droga. Ns samos no meu 
carro e fomos at l. Era uma rua escura, prxima  entrada de uma favela. Quando estacionei o carro, dois homens que estavam sentados no meio fio vieram at ns. 
Um deles entregou a maconha para o Leandro, que estava no banco da frente, enquanto o outro ficou conversando com o Carlos, que estava no banco de trs. Ns pagamos 
e fomos embora. Foi tudo muito rpido. Depois disso, nos fomos para uma rua deserta. Ficamos assustados, quando os policiais mandaram que descssemos do carro. Ns 
estvamos comeando a fumar. Eles pegaram o baseado e depois revistaram o carro. Acharam quinze papelotes de cocana embaixo do banco traseiro.
- De quem era a cocana?
- Eu no sei! - gritou Denise, completamente desesperada. - Eu fumo maconha, mas nunca cheirei cocana. Algum a colocou no meu carro, mas eu no sei quem foi. Eu 
no tenho culpa!
A experincia de vrios anos atuando como advogado criminalista deu a Alexandre a certeza de que sua cliente estava falando a verdade, deixando-o ainda mais animado 
para fazer a sua defesa.
- Voc no viu se os traficantes entregaram os papelotes de cocana para um dos dois?
- Estava escuro. Como eu disse, foi tudo muito rpido. O Leandro estava no banco da frente. Eu prestei mais ateno na conversa dele com o traficante. Tenho certeza 
de que ele no recebeu nada, alm da maconha. Se algum recebeu, s pode ter sido o Carlos, mesmo porque o Leandro no saiu do banco da frente depois que pegou a 
maconha, e a cocana foi encontrada embaixo do tapete do banco de trs.
- Qual  o seu nvel de amizade com eles?
- Ns somos amigos, mas no muito. O nosso contato se resume aos encontros na faculdade e em algumas festas, mas no temos muita intimidade.
- Foi a primeira vez que voc fumou maconha em companhia deles?
- Foi sim. O meu pai j est sabendo?
- A sua irm est l fora, com o meu filho. Acredito que j deve t-lo avisado.
Os lbios de Denise tremiam  medida que as lgrimas ficaram mais intensas, receosa da reao de seu pai. Tudo o que desejava, naquele momento, era que estivesse 
tendo um pesadelo. Jamais imaginou que o uso de maconha pudesse lhe acarretar conseqncias to danosas, afinal no se considerava uma criminosa. A sua esperana 
estava depositada naquele senhor  sua frente, o qual ela via pela primeira vez. Com a vista embaada, tentou olhar dentro dos olhos dele, na tentativa de obter 
uma resposta positiva para a sua pergunta.
- O senhor vai me tirar daqui?
- Ns estamos na madrugada do sbado. Quando amanhecer, farei o requerimento de liberdade provisria. No h a menor possibilidade de voc sair daqui esta noite. 
Vou conversar com o delegado, para que deixe voc permanecer fora da carceragem, mas no prometo.
De imaginar que passaria a noite naquela masmorra, Denise enfiou a cabea entre as mos e chorou mais alto ainda.
- Voc prestar o depoimento agora e ir dizer exatamente o que me disse. No precisa esconder nada. Negue a propriedade da droga.
- Eu vou ser solta?
- Farei o que estiver ao meu alcance para isso.
Alexandre saiu do recinto  procura de lvaro, a fim de que Denise pudesse ser encaminhada  sala do delegado para prestar depoimento.
Decorridos cinco minutos, o inspetor veio busc-la para ser ouvida. Quando ela entrou no gabinete, o delegado estava em p, tomando um copo de gua. Era magro, mulato 
e possua uma fisionomia tranqila, o que trouxe certo alvio a Denise. Sobre a sua mesa, uma placa preta com inscrio dourada, indicava o nome e o cargo que ocupava: 
Walmir Ramos Neto - Delegado de Polcia.
- Por favor, sente-se - disse o delegado, educadamente. 
Artur e Renata aguardavam ansiosos no recinto da recepo. Acatando a sugesto de Alexandre, eles deixaram para ter contato com Denise aps o depoimento. Renata 
ficou um pouco mais tranqila aps a chegada do advogado. 
O depoimento teve incio e Denise seguiu  risca as orientaes do doutor Alexandre. As perguntas do delegado eram respondidas sem vacilar. Denise relatou a sua 
verso dos fatos sem entrar em uma nica contradio.
Quando o depoimento terminou, ela foi encaminhada para ter o primeiro contato com a sua irm. Assim que a viu, Renata correu para abra-la. O choro recproco das 
irms comoveu o experiente Alexandre e seu jovem filho.
- Tudo vai dar certo. Eu estarei ao seu lado o tempo que for necessrio. O meu corao est doendo tanto! Se pudesse, ficaria presa no seu lugar. 
- O papai j est sabendo?
- No. Eu ainda no contei nada a ele. Vou conversar primeiro com o doutor Alexandre para me inteirar da situao jurdica do seu caso.
- Eu estou com muita vergonha. No queria trazer essa preocupao para vocs. Desculpe-me! Quero apenas que voc acredite que a droga encontrada no carro no era 
minha. Voc sabe que eu s fao uso de maconha e nunca curti outra droga.
Renata suspirou e limpou a lgrima que escorria pela sua face. Encarou a irm, segurou o choro e acariciou os cabelos dela, antes de reforar o apoio moral.
- Est bem. Eu acredito em voc. A verdade vir  tona e voc sair desta encrenca.
Denise sentiu-se um pouco aliviada pelo simples fato de a irm ter acreditado que ela no estava envolvida com a cocana achada no carro. Contando com o apoio de 
Renata, seria mais fcil convencer o pai. Em seguida, ela deu seqncia ao dilogo.
- Tenha muito cuidado quando for dar a notcia ao papai. Ele pode ter um ataque do corao. Se isso acontecer, eu nunca vou me perdoar. Pea a ele para vir a Belo 
Horizonte, mas no diga toda a verdade sobre a gravidade da situao.
- Confie em mim - disse Renata, enquanto acariciava a face da irm.
Um longo e apertado abrao marcou a despedida. Denise retornou  cela, deixando a irm com uma dor aguda no peito quando a porta que dava acesso ao interior da delegacia 
se fechou. Em seguida, Renata voltou a sentar-se no banco de madeira, de onde observou o advogado conversar com o inspetor.
- Por favor, lvaro, permita que a minha cliente fique dez minutos na sala de entrevistas, enquanto eu converso com o doutor Walmir.
- Est bem. Eu no a colocarei na carceragem, enquanto o doutor Walmir no der a ordem.
Enquanto Alexandre caminhava para o gabinete do delegado, Denise lembrou-se de Deus e comeou a rezar o que no acontecia a muito, implorando para no ser colocada 
em uma das celas. Sentia nusea ao lembrar-se do cheiro. Durante os minutos em que permaneceu no corredor da carceragem, algumas presas a observaram com interesse 
suspeitssimo, deixando-a bastante amedrontada.
Alexandre bateu na porta e entrou no gabinete do delegado.
- Qual  a concluso que voc est chegando neste caso, doutor Walmir?
- Para ser sincero, acho que a sua cliente no  traficante. Pela minha experincia, acredito que ela  apenas usuria de maconha. A cocana deve ser de um dos 
dois. O problema  que o carro pertence a ela e no h prova de que eles tenham colocado a droga embaixo do tapete. A situao dela  muito ruim.
O fato de o delegado acreditar que Denise no era a proprietria da cocana, apesar dos indcios, era um timo sinal, pois indicava que ele no se deixaria levar 
pelas aparncias e aprofundaria ao mximo as investigaes. Animado com a resposta do doutor Walmir, Alexandre entrou na parte da conversa que lhe interessava.
- Amanh eu farei o pedido de liberdade provisria ao juiz. Gostaria de ponderar com o senhor, todavia, a respeito da importncia de no colocar a minha cliente 
na cela com as demais presas. O senhor viu que ela  uma moa muito bonita, com um padro scio-cultural diferenciado de todas as outras presas. Alm disso,  extremamente 
frgil, chegando a ser ingnua. Temo pela segurana dela, se ficar em companhia das outras sentenciadas. Devemos observar, ainda, que daqui a duas semanas ela estar 
colando grau em curso superior e ter direito a uma cela especial. Eu invoco o bom senso do senhor para que ela seja colocada em uma sala fora da carceragem.
Walmir concordou com a ponderao do advogado.
- Perfeitamente. Eu tenho um quarto neste andar exatamente para colocar as presas que tm curso superior. Os rapazes que foram presos com ela ficaro na rea da 
carceragem, mas em uma cela especial, separada das celas dos demais presos por uma grade. Para legitimar a minha deciso, peo ao senhor que traga os documentos 
da faculdade que comprovem a formatura da sua cliente daqui a quinze dias.
- Pode ficar tranqilo. Segunda feira, eu os trarei para o senhor. Sabia que poderia contar com o seu senso de justia.
Despediram-se com um aperto de mo e Alexandre saiu em direo ao banco de madeira onde estavam Artur e Renata.
- Alguma novidade, doutor? - perguntou Renata.
- Conseguimos uma primeira vitria. A Denise ficar em um quarto fora da carceragem. No ter contato com as demais presas. Ela no tem direito a esse benefcio, 
porque ainda no colou grau, mas o doutor Walmir foi compreensivo e agiu com bom senso. Preciso apenas que voc providencie um atestado de freqncia ao curso e 
uma declarao do reitor sobre a data da colao de grau. Segunda feira, eu virei  delegacia trazer esses documentos.
- Graas a Deus, ela no ficar em uma cela! E a situao jurdica dela?
- Bem... O grande problema  que os rapazes negam a propriedade da cocana. Em minha opinio, o rapaz que estava no banco de trs pegou a droga do traficante, sem 
que ela visse, escondendo-a embaixo do tapete, exatamente para se livrar de um possvel flagrante. Ele pegaria a cocana quando sasse do carro. Ns vamos trabalhar 
com duas teses: a primeira ser a de negativa de autoria e a segunda ser a de desclassificao do trfico para o crime de uso. Eu somente farei uso da segunda tese, 
caso no consiga fazer uma prova concreta de negativa de autoria.
Renata j estava mais calma nesse momento. Teve uma tima impresso do doutor Alexandre e ficou confiante em que sua irm sairia em breve da cadeia. Aproveitou a 
ocasio para se inteirar sobre o preo do servio.
- No sei como agradec-lo. Agora eu gostaria de saber o valor dos honorrios do senhor.
O advogado sinalizou negativamente com o dedo.
- Eu no vou cobrar.
- No  justo.  o seu trabalho e o senhor vive disso.
- Eu sei, mas esta  uma situao especial. Por favor, no insista.
Em seu ntimo, Renata ficou aliviada com a informao, pois ouvira dizer que o servio de um bom advogado era carssimo.
- Est bem.
Artur, que at ento estava calado, falou pela primeira vez:
- Eu tambm no sei como agradec-lo.
- No precisa agradecer. Tenho certeza de que voc faria o mesmo. Nessas horas, ns precisamos contar com as pessoas de que gostamos e em que confiamos.
- Obrigado, papai - tornou Artur, um pouco constrangido, enquanto apertava a mo de Alexandre.
O advogado sorriu feliz com a reaproximao do filho. Despediram-se com um abrao apertado. Artur ficou observando o seu pai caminhar em direo ao carro, sem perceber 
que uma lgrima rolava pela sua face. Em seguida, em companhia de Renata, seguiu at o seu veculo.
 

CAPITULO 
IV

 
No trajeto da delegacia para casa, coube a Renata interromper o silncio.
- Parece que eu estava adivinhando que algo de ruim aconteceria com a Denise esta noite. Senti uma vontade grande de sair com ela, evitando, assim, que se encontrasse 
com as ms companhias. Queria at apresent-la a voc, lembra-se? Infelizmente, vocs acabaram se conhecendo em uma situao indesejvel.
Novo momento de silncio se fez. Renata lembrou-se de Adriano, o namorado, e sentiu-se aliviada por no ter necessitado pedir auxlio a ele. Imaginou que Artur poderia 
estar curioso pelo fato dela no ter se socorrido com o namorado e ento explicou o que havia acontecido.
- Sei que voc deve estar estranhando o fato de eu no ter pedido ajuda ao meu namorado. Ns tivemos uma briga feia esta noite, e eu no tinha a menor condio de 
cham-lo para vir comigo  delegacia. Por outro lado, a sua imagem surgiu muito forte em minha mente.
- Lamento a briga que tiveram, mas  bom saber que voc confia em mim.
Enfim, Artur compreendeu a atitude de Renata. A briga com o namorado abria uma nova perspectiva para ele, sobretudo pelo fato dela ter-lhe pedido ajuda.
- No sei como dar a notcia ao meu pai. Estou insegura, sem coragem para telefonar.
- Voc est querendo telefonar a esta hora?
- Eu no posso deixar para depois. Ele ficaria revoltado comigo, se eu deixar para ligar pela manh. Alm do mais, eu preciso dividir esta responsabilidade com ele.
Artur viu na angstia de Renata a possibilidade de conseguir uma aproximao ainda maior. Imediatamente, ofereceu novo apoio.
- Caso ache que a minha presena ajude, eu posso subir com voc at o apartamento.
Renata sentiu-se mais aliviada. A presena de Artur estava sendo importantssima para encoraj-la a fazer o que fosse necessrio.
- Eu gostaria muito, mas no quero explorar a sua boa vontade.
- No se preocupe.  um prazer poder ajud-la.
Artur estacionou o veculo em frente  portaria do prdio. Do outro lado da rua, um pouco mais adiante, estava estacionado o carro de Adriano, o qual havia decidido 
procurar por Renata aps a briga que tiveram.
Depois de ser informado pelo porteiro que ela havia sado, Adriano decidiu esperar. Em sua mente, tentava adivinhar se ela estaria sozinha ou acompanhada. J estava 
quase desistindo de esperar, quando a viu sair do carro de Artur. Em um primeiro momento, ficou esttico, sem reao. A seguir, sentiu a face ficar corada. Mordeu 
os lbios de raiva. Teve o mpeto de descer do automvel e ir ao encontro dela para tirar satisfao. Viu Artur descer do carro e desistiu de seu intento. Adriano 
parecia no acreditar no que via. Ao v-los entrando pela portaria do prdio, pensou que se tratasse de um pesadelo.
Jamais suspeitou que sua namorada estivesse de caso com outro homem. Aquela era a primeira vez que ele experimentava a sensao de estar sendo trado. Pensou em 
tocar o interfone e fazer um escndalo. Intil, raciocinou, pois a traio j deveria estar acontecendo h mais tempo.
O dio de Adriano aumentou quando viu as luzes do apartamento sendo acesas. Sentiu um n em sua garganta. Mais uma vez pensou em tocar o interfone. Novamente desistiu, 
reconhecendo que estava em situao de fragilidade. Um escndalo ali iria afund-lo ainda mais no atoleiro que se encontrava. Decidiu ir embora, a fim de planejar 
a vingana quando chegasse a casa.
Dentro do apartamento, encorajada pela presena de Artur, Renata telefonou para o pai. A notcia caiu como uma bomba, conforme j era esperado.
O senhor Lenidas levou um choque. Denise era uma garota rebelde e ele no gostava das companhias em que ela andava. Entretanto, nunca imaginou que a filha pudesse 
ser presa sob a suspeita de ter praticado o crime de trfico de entorpecentes.
Imediatamente, Lenidas telefonou para Laerte, taxista em Trs Pontas, contratando-o para lev-lo at Belo Horizonte. 
Rapidamente, fez as malas e partiu da fazenda. Em menos de meia chegou  casa de Laerte. Dali seguiu no prprio carro de Lenidas, ficando combinado que Laerte voltaria 
de nibus.
Aps desligar o telefone, Renata ficou mais aliviada. A presena de Artur ao seu lado, naquele momento difcil, estava sendo essencial para fortalec-la.
- Voc est sendo incrvel - disse ela. - No queria chamar uma mulher para ir comigo  delegacia. No sabia como seria tratada. Nesses momentos,  sempre bom contar 
com a companhia de um homem. Apesar de sermos amigos h pouco tempo, voc no mediu esforos para me ajudar. No sei como lhe agradecer.
Artur deu um leve sorriso. Por alguns segundos, ficaram em silncio, apenas olhando um para o outro. Ele baixou o olhar, segurou nas mos de Renata e voltou a olhar 
fixamente em seus olhos, dando seqncia ao dilogo:
- Nessas horas a gente precisa contar com os amigos. Eu no fiz nada demais.
- Engano seu. Voc me deu fora, ficando ao meu lado em uma situao muito desagradvel, alm de arrumar um advogado para a minha irm. Ainda pediu ajuda ao seu 
pai, mesmo no tendo bom relacionamento com ele. Sei que fez isso por mim. Obrigada, do fundo do meu corao.
O olhar de Renata externava toda a gratido que ela estava sentindo pelo seu colega de trabalho. Ela havia percebido o esforo hercleo de Artur para vencer o orgulho 
e telefonar para o pai, pedindo-lhe ajuda.
- De fato, tenho mgoas do papai.
- Pela separao?
- Sim.
Artur no gostava de tocar no assunto da separao dos pais, mas, diante do olhar curioso de Renata, decidiu desabafar.
- Nunca imaginei que os meus pais pudessem se separar um dia.
Eles tinham alguns problemas, como todos os casais tm, mas nada de muito grave. De repente, as brigas comearam a ficar mais freqentes, at o dia em que ele arrumou 
as malas, aps mais uma briga, e disse para a minha me que no dava mais. Foi um choque terrvel para ela e para mim. Tivemos uma forte suspeita de que ele estava 
de caso com outra mulher, mas at agora no descobrimos nada.
Artur sentiu um n na garganta ao comentar sobre o assunto que tanto o incomodava. Sentir-se-ia melhor se descobrisse que o seu pai tinha uma amante. Assim, encontraria 
uma justificativa para ser to duro com ele. Mas, at aquele momento, tudo o que sabia era que seu pai estava sozinho. A sensao de remorso foi reforada pelo carinho 
demonstrado por Alexandre atravs do servio prestado naquela madrugada. Artur, percebendo que iria chorar se continuasse falando da separao dos pais, tratou de 
mudar de assunto:
- Voc no se parece nem um pouco com a sua irm.
Renata havia percebido que ele ficou incomodado e voltou a falar sobre Denise.
- Ela  minha irm adotiva.
A afirmao de Renata despertou a curiosidade em Artur, fazendo com que esquecesse momentaneamente de seu pai.
- Que legal! Eu acho o ato da adoo uma demonstrao de amor ao prximo. Eu pretendo ter filhos, mas tambm tenho vontade de adotar uma criana, quando me casar. 
Por que os seus pais decidiram adotar a Denise? No  comum entre casais que j tm filhos.
- Na verdade, os meus pais nunca pensaram em adotar uma criana. A adoo da Denise foi um compromisso da minha me com a me biolgica dela, a fim de evitar que 
ela fizesse o aborto.
- Como assim? - perguntou Artur, curioso para saber os detalhes.
- A me da Denise era muito bonita e se chamava Imelda. Ela e o marido, de nome Alan, trabalharam juntos na fazenda por um tempo. Depois que ela engravidou, eles 
se desentenderam e o Alan foi embora. Ela pediu ajuda  minha me para pagar o aborto. Esta foi  sorte da Denise, pois, se minha me no tivesse ficado sabendo 
das intenes da Imelda, provavelmente a Denise no teria nascido. A minha me s conseguiu convenc-la a no abortar, depois que assumiu o compromisso de adotar 
a filha dela.
- Denise chegou a conhecer a me biolgica?
- No. Depois da adoo, Imelda nunca mais deu notcias. Alm disso, Denise nunca teve vontade de conhec-la, mesmo porque soube que ela somente no fez o aborto 
porque minha me impediu. Denise entra em pnico, s de pensar que algum dia poder encontrar Imelda.
Na verdade, meus pais tiveram que contar a histria real para minha irm, porque ela carregava um complexo de rejeio muito grande, sendo necessrio submeter-se 
 terapia por longo tempo. Particularmente, acredito que a rebeldia dela tem alguma ligao com as emoes negativas sentidas durante a gestao.
Renata interrompeu a fala ao perceber que Artur estava com o pensamento distante.
- Desculpe-me, estou falando muito, no ?
- De forma alguma. Eu  que lhe peo desculpas. Voc disse que a Denise tem pnico s em pensar que algum dia pode encontrar a me biolgica. Pelo menos, ela tem 
um motivo para ter dio dela. Eu tenho nutrido raiva do meu pai, talvez sem um motivo justo. Eu no estou me sentindo bem por agir assim.
Renata percebeu que, desta feita, era a sua vez de retribuir a ajuda recebida e decidiu aconselhar o colega de trabalho.
- Pelo que voc me disse, j faz um tempo que voc no mantm um relacionamento saudvel com o seu pai. Ns no sabemos como ser o dia de amanh. A qualquer hora, 
podemos partir para o outro mundo. Eu digo isso de carteirinha, porque no esperava perder a minha me to cedo. Voc no imagina como eu queria ter mais tempo ao 
lado dela, um minuto que fosse. Certa feita, eu tive um sonho em que o morto tinha a autorizao de Deus para ficar mais alguns dias com os familiares e amigos, 
todos cientes de que ele j estava morto e partiria em breve. Essa autorizao tinha algumas finalidades, como, por exemplo, permitir aos seus parentes e amigos 
que dissessem a ele certas coisas que gostariam de dizer, mas no haviam dito, ou promover a reconciliao, ou, ainda, apenas dar-lhes uma oportunidade de despedida. 
S que as coisas no so assim. s vezes, o ente querido morre e quem fica no tem a oportunidade de se despedir, de dizer que ama ou mesmo de promover a reconciliao 
com o falecido. Sabe por qu?
Artur deu de ombros, indicando que no sabia a resposta.
- Isso acontece porque temos, em nosso dia-a-dia, a oportunidade de fazer todas essas coisas. No devemos esperar o amanh para pedir desculpas ou dizer do amor 
que sentimos por algum. Amanh  um tempo que pode ser tarde demais para determinadas atitudes. Alm disso, a vida passa rapidamente e o tempo perdido  irrecupervel. 
Certamente, um dia voc ir perdoar o seu pai. O seu arrependimento ser menor quanto mais rpido voc fizer isso.
Artur ficou pensativo. Em seu ntimo, sabia que Renata estava certa em seu ponto de vista.
- Est bem. Vou pensar a respeito desse assunto. Acho que j  hora de ir.
Levantou-se para se despedir, sendo seguido por Renata, que reforou o agradecimento.
- Voc foi um anjo que apareceu na hora certa. Conte comigo sempre que precisar.
Despediram-se com um abrao longo e apertado. Dali, ele seguiu direto para a sua casa. No caminho, alternava pensamentos que envolviam o seu pai com outros que envolviam 
um possvel relacionamento com Renata.
Ela, por sua vez, voltou-se para Deus e comeou a orar pela liberdade da irm.


 
CAPTULO 
V


Renata preparou o caf da manh e ficou esperando o pai chegar. Estava ansiosa. Como teria sido a noite de Denise na delegacia? Teria ela conseguido dormir? Estaria 
confiante em obter a liberdade provisria? E se o pedido fosse negado pelo juiz? Como reagiriam ela prpria, a irm e o pai?
Envolvida por essas indagaes, no teve apetite para tomar o caf. Ficou sentada no sof. Quando o telefone tocou, correu para atend-lo,  espera que o doutor 
Alexandre trouxesse novidades.
Para sua total surpresa, ouviu a voz de Adriano do outro lado da linha:
- Voc  a pior das pessoas que eu j tive o desprazer de conhecer! Imaginava tudo de voc, menos isso! S uma mulher muito falsa mesmo para me enganar por tanto 
tempo!
O tom de voz do namorado externava o dio que ele estava sentindo. Sem entender o motivo de tanta raiva, ela perguntou: 
- Do que voc est falando?
Adriano fechou os olhos e sentiu o sangue ferver, inconformado com o fingimento da namorada.
- Voc ainda tem a coragem de perguntar? Voc sabe sua falsa! Leva o amante para dentro do apartamento e age como se nada estivesse acontecendo?
S ento Renata percebeu que Adriano havia visto Artur subindo em sua companhia para o apartamento. A raiva que estava sentindo dele tornou-se ainda maior, seja 
pelo julgamento equivocado, seja pela atitude em vigi-la.
 - Voc est julgando sem saber nada do que est acontecendo. Eu no tenho amante e nunca tive. Quem subiu no apartamento comigo foi o Artur, meu colega de trabalho. 
Sabe por qu? Denise est presa, suspeita de praticar trfico de drogas. Ontem, voc teve aquela crise idiota de cime e disse para eu sumir da sua vida. Logo depois 
a Denise foi presa. Voc queria que eu pedisse ajuda a quem? Cansei de satisfazer os seus caprichos. Procurei o Artur, mas no tenho nada com ele, mesmo porque eu 
queria apresent-lo  minha irm.
A notcia da priso de Denise causou impacto em Adriano, que passou a considerar a possibilidade de ter cometido uma injustia com a namorada, sobretudo pela forma 
enrgica como ela reagiu  sua acusao. Mesmo assim, ele no queria dar o brao a torcer.
- Provavelmente, voc precisou de uma ajuda a domiclio. Por que ele precisou subir ao seu apartamento e ficar sozinho com voc?
Renata estava indignada com a desconfiana do namorado. Com a voz trmula, tamanha a revolta, ela respondeu:
- Eu estava completamente abalada, sem coragem para dar a notcia ao meu pai. No sabia o que dizer e pedi a ele para me fazer companhia. Precisava conversar com 
algum. Voc  muito insensvel. Falo que a minha irm est presa, suspeita de praticar trfico de drogas, e voc sequer se preocupa em saber como estou, ou como 
ela est! Quando vai deixar o seu orgulho de lado? Eu no tenho nada com o Artur. Pode ficar tranqilo, voc no foi trado. Agora, vou fazer o mesmo pedido que 
voc me fez ontem: suma da minha vida.
Em seguida, Renata desligou o telefone. Estava tremendo. No bastasse o drama na vida da sua irm, agora vinha  acusao infundada do namorado. O mundo parecia 
estar desabando sobre sua cabea.
Renata estava decidida a recusar qualquer tentativa de aproximao. Ela ainda se recuperava da discusso com Adriano, quando ouviu o barulho da chave abrindo a porta 
da sala. A fisionomia do pai estava bastante abatida. Os olhos inchados denunciavam que no havia dormido sequer um minuto. Renata correu para abra-lo.
- Oh, minha filha, que tragdia!
- Foi horrvel ver a Denise presa. Queria tir-la de l  fora! Que bom que voc chegou! Est difcil segurar essa barra sozinha...
- O advogado j deu notcias?
- Ainda no. Ele ficou de avisar assim que tivesse alguma novidade.
Eu preparei um caf para voc. Vamos comer alguma coisa, depois a gente vai  delegacia tentar conversar com ela.
Lenidas estava ansioso para se encontrar com o doutor Alexandre. Queria mostrar para ele que, se fosse por uma questo de dinheiro, sua filha no ficaria presa.
Gostaria de conversar com o advogado ainda esta manh. A minha filha ter a melhor defesa que for possvel. Se necessrio, a gente mudada de advogado.
- Acho que no ser preciso. Senti muita firmeza no doutor Alexandre. Segundo o Artur, ele est conseguindo resultados expressivos nas causas que defende. Pude observar 
que ele  muito respeitado na delegacia. 
- Como est sua irm?
- Mais ou menos. Ela estava muito preocupada com a sua reao. Procure demonstrar confiana e no deixe transparecer qualquer sinal de reprovao  atitude dela. 
Ela ficar menos mal.
Lenidas concordou com a filha. Primeiro, deveria preocupar-se em tirar Denise da cadeia. S depois teria uma conversa franca com ela. Aps guardar as malas, ele 
e Renata tomaram caf rapidamente e saram em direo  delegacia. Fazia uma linda manh de sol e uma brisa fria balanava os ramos das rvores.
Assim que chegaram, Renata percebeu que os policiais de planto eram outros. O policial que fazia o atendimento no demonstrava boa vontade com o pblico. Estavam 
esperando h mais de dez minutos e apenas uma pessoa havia sido atendida, havendo mais duas na frente deles. Lenidas j estava a ponto de perder a pacincia, quando 
o celular de Renata tocou. Era o advogado.
- Eu tenho duas notcias. A primeira  ruim. Fiquei sabendo que o promotor de justia deu o parecer contrrio  liberdade e o juiz acompanhou o seu parecer, negando 
a concesso do pedido. Alegaram que h indcios fortes de que ela seja autora do crime de trfico.
Renata sentiu as mos ficarem fria, pois confiava na libertao da irm, naquele dia. A sua fisionomia transpareceu para o pai que a notcia era ruim.
A segunda notcia  razoavelmente boa. Telefonei para a delegacia e conversei com o inspetor lvaro. Ele disse que o carcereiro, ao levar o caf para o Carlos e 
o Leandro, acabou ouvindo Carlos dizer que estava com a conscincia pesada, porque Denise no tem nada a ver com a cocana encontrada no carro. Isso significa que 
ela no tem culpa. A minha esperana  de que Carlos inocente Denise, quando for interrogado em juzo.
- At l, ela permanecer presa?
- Infelizmente, sim.
- Quando ser o interrogatrio deles, em juzo?
- Acredito que entre duas e trs semanas.
Renata colocou a mo sobre a cabea, evidenciando o desespero com a notcia. Lenidas ficou ainda mais tenso com a reao da filha.
- A situao no  to ruim - prosseguiu Alexandre. - Ela ficar isolada das demais presas nesse perodo.
- E se o Carlos no confessar que a minha irm no tem envolvimento com o trfico?
- Esta  uma possibilidade real. Neste caso, a situao de Denise continua ruim. De qualquer forma, eu vou arrolar o carcereiro como testemunha. No posso garantir 
qual ser a credibilidade que o juiz dar ao depoimento dele. Deixe o celular ligado. Qualquer novidade que aparecer, voltarei a fazer contato.
Ao desligar o telefone, Renata tinha a respirao ofegante. Lenidas percebeu a preocupao dela e seus olhos marejaram.
- O doutor Alexandre disse que o pedido de liberdade provisria foi negado, mas falou tambm que o carcereiro ouviu o Carlos dizer que a Denise  inocente.
Lenidas sentiu uma forte dor no peito, fruto da certeza de que sua filha estava presa, suspeita de praticar trfico de drogas, injustamente.
- Quem  Carlos?
-  um dos rapazes que foram presos com ela.
- Se  assim, ela tem de ser solta!
- As coisas no funcionam dessa forma, papai. O Carlos ser interrogado em juzo, daqui a duas ou trs semanas.
- A Denise ficar presa esse tempo todo?
Renata abaixou a cabea, triste pela situao da sua irm e preocupada com a reao paterna. Aps breve perodo de silncio, ainda de cabea baixa, ela respondeu:
- Provavelmente. Menos mal que ela no est na cela com as demais presas. Como ir ter diploma de curso superior em poucos dias, o delegado deixou que ela ficasse 
em um quarto isolado da carceragem.
- Graas a Deus, graas a Deus! - exclamou Lenidas.
- Prximo da fila! - gritou o policial.
Lenidas percebeu que no poderia mesmo contar com a boa vontade do policial, pois a sua fisionomia demonstrava uma profunda irritao.
- Bom dia. A minha filha foi presa ontem  noite. O nome dela  Denise. Eu gostaria de v-la.
- Hoje no  dia de visita - respondeu secamente o policial. Senhor permita-me explicar a minha situao - insistiu Lenidas. - Moro em uma fazenda, no interior. 
Viajei a noite toda para v-la. Preciso saber como ela est. Ela nunca havia entrado em uma delegacia. Deve estar desesperada. Por favor, entenda como estou me sentindo. 
Leve-nos at ela.
- No ser possvel. Somos poucos policiais de planto e eu tenho muito servio  minha espera. Preciso atender as pessoas que esto na fila. 
A vontade de Lenidas era a de avanar no policial. Conteve-se, porque sabia que qualquer grosseria de sua parte poderia ser descontada em Denise.
Afastaram-se um pouco do guich de atendimento. Decidiram esperar por ali, na expectativa de que aparecesse outro funcionrio que os ajudasse.
Mais um pouco e comearam a ouvir uma gritaria que vinha do interior da delegacia. Um detetive, que estava do lado de fora, entrou correndo, de arma em punho, para 
verificar o que estava se passando. O policial que estava no guich abandonou o atendimento e seguiu o detetive.
Renata e seu pai ficaram preocupados. O que significava toda aquela movimentao? Por que o nervosismo demonstrado pela equipe de planto? De repente, ouviram trs 
estampidos.
- Oh, meu Deus, proteja a minha filha! No permita que nada de ruim acontea - suplicou Lenidas, em total desespero, antes de desmaiar.
- Papai! Socorro, algum me ajude! Rapidamente, um senhor veio com um copo de gua, molhou as mos, esfregando-as lentamente na testa de Lenidas
Aos poucos, ele foi abrindo os olhos, recobrando os sentidos.
- O senhor trabalha aqui? - perguntou Lenidas.
- Trabalho, sim.
- O que est acontecendo l dentro? A minha filha est presa e ns estamos muito preocupados.
- Est acontecendo uma briga de presos, mas  na ala masculina. Podem ficar despreocupados.
- Eu sou filha dele. A minha irm est presa em um quarto fora da carceragem. O meu pai mora no interior e viajou a noite toda. Ela foi presa ontem e ele ainda no 
a viu. Por favor, leve-nos ao encontro dela.
O policial olhou ao redor e constatou que no havia outro colega de servio por perto. Sabia que no poderia atender aquele pedido, sob pena de sofrer uma reprimenda 
de seu superior, mas a expresso de desespero daquele pai mexeu com o seu corao.
- Voc  o pai daquela moa loura? Vou lev-los  presena dela, mas por poucos minutos, pois hoje no  dia de visita. Apenas para que vocs fiquem mais tranqilos.
Lenidas fez o sinal da cruz antes de agradecer ao policial.
- Muito obrigado por compreender o nosso drama.
O policial sorriu e encaminhou os dois para o quarto onde estava Denise.
Assim que viu o pai, Denise levantou-se do colcho, estendido no canto do quarto, e foi ao encontro dele, abraando-o com uma fora jamais utilizada antes.
- Minha filha! Fique tranqila que ns vamos tirar voc daqui.
- Desculpe-me pela preocupao que eu estou trazendo a voc. Quero apenas que acredite que eu no sou traficante. Estava usando maconha, mas os papelotes de cocana 
que encontraram no carro no me pertencem.
- Ns acreditamos. O carcereiro ouviu o Carlos confessar que voc no tem nada a ver com a cocana encontrada no carro - disse Renata, procurando consol-la.
Denise voltou a abraar o pai. Este, por sua vez, no conseguiu conter o choro.
- Sempre quis abra-lo assim, papai. Perdoe-me!
Lenidas tentou falar, mas sentiu a emoo sufocar as suas palavras. Ficou, por alguns instantes, abraado com sua filha, acariciando os seus cabelos, enquanto as 
lgrimas escorriam pela sua face, caindo nos ombros dela. Assim que conteve um pouco a emoo, ele respondeu:
- Voc no tem que pedir perdo. Estou certo de que esse fato triste nos deixar mais unidos. Ns faremos o que for preciso para tir-la daqui. Tenha f, que tudo 
dar certo.
- Este lugar  horrvel. Eu ouvi gritos dos presos a noite inteira. Alguns estavam gritando de dor, pedindo atendimento mdico, mas parece que no foram atendidos. 
Agora, essa confuso toda, barulho de tiro e gritos de pnico. Vocs sabem o que est acontecendo?
- O policial falou que  uma briga na ala masculina. No precisa ficar preocupada. Voc dormiu bem esta noite? - perguntou Renata.
- Eu no consegui dormir. Senti tanta falta do meu quarto e da minha cama! Fui dormir depois das cinco da manh. Acordei com o sol batendo no meu rosto. Eu estava 
grogue de sono e, quando abri os olhos no entendi que lugar era esse. S depois de alguns segundos fui lembrar de que estava presa. Isso parece um pesadelo.
A conversa foi interrompida pelo policial.
- No me levem a mal, mas vocs precisam sair. 
Denise abraou novamente o pai e a irm. Lenidas teve o mpeto de lev-la dali, mas apenas entregou um tero para a filha.
- Acredite no poder da orao, Denise. Voc  inocente e Deus far justia. Reze com f.
- Eu vou rezar. No vejo a hora de sair daqui e tirar uns dias de frias para me recuperar deste trauma.
Com os olhos carregados de lgrimas, despediram-se. O policial conduziu-os at a sada. Nesse nterim, ouviram novos gritos e estampidos de tiros.
- Qual o motivo dessa confuso? - perguntou Lenidas. 
A expresso do policial era tensa. Ele caminhava a passos rpidos e no parou para responder.
- Os presos de uma cela conseguiram serrar as grades e estavam fugindo quando foram interceptados. Eles resolveram pegar dois homens que estavam em uma cela fora 
da carceragem e transform-los em refns.
Imediatamente, Renata teve a intuio de que os refns eram os amigos de Denise.
- O senhor sabe informar os nomes dos refns?
- Carlos e Leandro. Os rebelados esto ameaando mat-los, se o Estado no diminuir o nmero de presos nesta cadeia. A capacidade aqui  para cinqenta presos, mas 
hoje ns estamos com duzentos e setenta e um, divididos em sete celas.  humanamente impossvel ficar em uma cela nessas condies.
O corao de Renata gelou quando o policial citou os nomes dos refns.
- Os refns so os amigos da minha irm. O senhor acha que os outros presos podero mat-los?
O policial abriu a porta de ferro, olhou nos olhos de Renata e respondeu:
- Esse risco existe, sim. Esta cadeia est um verdadeiro barril de plvora.
Eles esto prometendo iniciar a ciranda da morte h um bom tempo. Ns teremos de agir rpido para conseguir algumas transferncias, de forma a diminuir o nmero 
de presos. Do contrrio, eles mataro os amigos da sua irm. Agora, eu preciso voltar para a carceragem. Podem ficar tranquilos, porque a filha de vocs est segura 
naquele quartinho. Lenidas segurou firmemente as mos do policial e suplicou:
- No deixe nada de ruim acontecer com a minha filha. Ela  inocente. O tempo mostrar que estou certo. O senhor foi muito gentil conosco. Por favor, cuide dela.
O policial conseguiu detectar o grau de desespero de Lenidas pela fora com que ele segurava a sua mo. Comovido, respondeu:
- Enquanto ela estiver recolhida nesta cadeia, o senhor pode ter certeza de que ser bem tratada. Eu preciso retornar para a carceragem. Vo com Deus.
Lenidas estava com os olhos marejados. Em sinal de agradecimento, deu um pequeno sorriso, largou as mos do policial e caminhou em direo  sada da delegacia, 
sendo seguido por Renata.
Assim que eles se afastaram, o policial fechou a porta de ferro, retornando para o local da rebelio.
- No queria estar na pele dos pais desses garotos - disse Lenidas. - J imaginou a reao deles quando souberem que os filhos viraram refns nas mos de bandidos 
perigosssimos? E se eles forem mortos?
- Vou telefonar para o doutor Alexandre - disse Renata. - Acho importante coloc-lo a par deste acontecimento.
Renata pegou o telefone e discou o nmero do celular. Relatou o que estava acontecendo na cadeia e perguntou:
- Caso eles sejam mortos, o que isso implicar na situao da Denise?
- Ser muito difcil absolv-la. A minha esperana maior  a de que Carlos confesse o crime de trfico. Caso ele seja morto, alm da impossibilidade da confisso, 
o prprio depoimento do carcereiro perder valor. O juiz poder pensar que ns conseguimos um testemunho falso para colocar a culpa exclusiva em um morto. Portanto, 
vamos rezar para que eles sejam liberados pelos outros presos.
Renata ficou ainda mais assustada com a informao recebida. A sua reao foi captada imediatamente pelo pai. Ansioso, ele aguardava o fim da conversa com o advogado 
para se inteirar do assunto.
Aps desligar o telefone, Renata olhou fixamente para ele, sem coragem para falar das consequncias de uma possvel morte de Carlos e Leandro.

- Fale logo, minha filha. O que disse o advogado.
- Ser difcil absolver a Denise, se o pior acontecer ao Carlos e ao Leandro. O doutor Alexandre tem esperana de que eles inocentem a Denise durante o interrogatrio. 
Se eles forem mortos, obviamente no podero confessar que a Denise  inocente. Alm disso, o depoimento do carcereiro perder valor, pois o juiz poder concluir 
que a defesa obteve um testemunho falso para colocar a culpa no morto.
Lenidas esfregou as mos na face, como se no estivesse acreditando em mais um forte motivo de preocupao.
Por alguns segundos, permaneceram em silncio, abatidos com a nova informao.
- E agora? O que vamos fazer? - perguntou Lenidas.
- Rezar, papai. No nos resta alternativa. Vamos para casa. Ficar aqui no resolver o problema.
Quando saram da delegacia, presenciaram as equipes de reportagem chegando para fazer a cobertura da rebelio.
No trajeto para casa, Lenidas comeou a rezar em voz alta, enquanto a filha acompanhava a orao em pensamento. J na portaria do prdio, o porteiro entregou um 
lindo buque de flores para Renata. No carto, um manjado pedido de desculpas:

"Estou arrependido por ter brigado com voc. Sei que fui muito grosso. Voc tem razo: o meu cime est matando o nosso namoro. Prometo que vou tentar ser menos 
ciumento. Desculpe-me por ter suspeitado da sua honestidade e ter sido injusto com voc. Espero que tudo saia bem com a Denise. Amo voc, hoje e sempre".

Adriano acabara de deixar as flores com o porteiro. Renata no ficou sensibilizada com o pedido de desculpas. No sentia mais sinceridade nas palavras dele, mesmo 
porque eram as mesmas de sempre. A decepo pelas suas atitudes no poderia mais ser apagada por um buque de flores e um carto. Renata estava cansada da instabilidade 
emocional do namorado.
- Ns brigamos ontem e ele est tentando a reconciliao.
- O que aconteceu desta vez? - perguntou Lenidas.
- Cimes. No aguento mais. Ontem, ele ficou bravo porque eu falei para ns sairmos com um casal de amigos. Ele veio com um papo de que eu estava a fim do moo. 
O Adriano est louco. O cime dele  doentio.
Renata pegou o buque de flores e o entregou  faxineira do prdio, que era apaixonada por plantas. Em seguida, rasgou o bilhete, jogando-o no lixo.

- Vamos subir. No quero nada que venha do Adriano dentro daquele apartamento.
- Voc tem certeza do que est fazendo?
- Tenho sim, papai.
Lenidas fitou a filha, torcendo para ela se manter firme em sua deciso, e voltou ao assunto da priso da Denise.
- Gostaria que me apresentasse o doutor Alexandre. Esse negcio dele no cobrar honorrios no est certo. Acho que ele se esforar mais se combinarmos um preo 
pelo trabalho. Temos que encontrar uma sada para livrar a minha filha de qualquer jeito.
Mais uma vez, naquele sbado, Renata telefonou para o doutor Alexandre e marcou uma reunio no escritrio dele, explicando que seu pai gostaria de tirar algumas 
dvidas.
 medida que os minutos passavam, a angstia de Lenidas aumentava. Quando chegaram ao escritrio, o advogado j os aguardava. Sobre a mesa dele, uma foto de Artur 
chamou a ateno dela.
Lenidas estava ansioso. Mal sentou na cadeira e logo entrou no assunto.
- Doutor, inicialmente gostaria de agradecer toda a assistncia que est prestando  minha filha. A Renata disse que o senhor no cobraria nada pelo servio. Eu 
estive pensando e cheguei  concluso de que no acho isso justo. Eu vou ser franco e espero que o senhor no fique ofendido.
Aps limpar a testa com um leno, Lenidas prosseguiu:
- O dinheiro  um estmulo para o trabalho de qualquer ser humano. Fao questo que a minha filha tenha a melhor defesa possvel e estou disposto a pagar para isso. 
Acredito que o senhor se dedicar a provar a inocncia da Denise. S que eu quero dedicao total, se for necessrio, est compreendendo?
Com a experincia de quase trinta anos de advocacia, Alexandre sentiu onde Lenidas pretendia chegar. Calmamente, ele respondeu:
- Estou sim, senhor Lenidas. Apesar de j ter feito o pedido de liberdade provisria, quero que o senhor fique  vontade para entregar a causa a outro advogado. 
Da minha parte, renovo o que j falei para a Renata, ontem: eu no vou cobrar honorrios de uma pessoa que tem uma ligao estreita com o meu filho, tendo ele prprio 
pedido para eu defend-la naquele momento difcil. Dentro da minha capacidade, eu farei o que for preciso para inocentar a Denise. Posso afianar ao senhor que o 
pagamento no alteraria a minha dedicao. Todavia, volto a frisar: fique  vontade para contratar um advogado da sua confiana.
Lenidas coou a cabea. Viu que no adiantaria insistir. Por outro Indo, teve uma forte empatia com o advogado. Apesar do pouco contato, em seu ntimo tinha forte 
convico de que a defesa de Denise estava entregue em boas mos.

- Est bem. O senhor me convenceu. Eu vou aceitar a sua gentileza. No vou procurar outro advogado. Acredito que o senhor far o melhor para a minha filha. Se o 
seu melhor no for o suficiente para tir-la da cadeia, quero que saiba que estou disposto a gastar dinheiro com quem for preciso para comprar a liberdade dela.
A afirmao de Lenidas confirmou a suspeita do experiente advogado. Ele j havia recebido pedidos de clientes para tentar corromper funcionrios da justia, mas 
jamais aceitou tomar tal medida.
- Vamos fazer o seguinte: eu lhe aviso caso eu sinta que o meu melhor trabalho no ser capaz de inocentar a Denise, a fim de que o senhor possa procurar outro advogado. 
Eu tenho uma tica no trabalho que  inviolvel. Levei anos para construir uma imagem de respeito perante os representantes do Judicirio. No irei destru-la agora, 
por nada neste mundo. A minha honra no tem preo. Eu jamais tentaria subornar um funcionrio da Justia para conseguir sucesso em uma causa.
Lenidas sentiu a face corar. No sabia o que falar. A garganta ficou seca e voz saiu fraca na tentativa de justificar a sua conduta.
- Eu nunca pensei que algum dia poderia fazer uma proposta dessas, mais jamais imaginei que passaria por uma situao semelhante. Espero que o senhor me compreenda.
- Eu compreendo o seu desespero - respondeu o advogado. - Deus permita que no seja necessrio o senhor tentar se valer de meios escusos para libertar a sua filha. 
Vamos torcer para que a rebelio acabe de forma pacfica. Acredito que o Carlos poder inocentar a Denise durante o interrogtorio, caso no seja morto pelos rebelados. 
Entretanto, se tivermos sucesso em livr-la da acusao de trfico de drogas, no esquea de que no existe a menor possibilidade de sua filha escapar de uma punio, 
pois, na melhor das hipteses, ela praticou o crime previsto no artigo 28, da Lei n 11.343, j que possua maconha para consumo, o que ela no nega. Menos mal que, 
nesta hiptese, podemos fazer um acordo com o promotor para ela sofrer apenas uma punio branda, como, por exemplo, advertncia, prestao de servios  comunidade 
por um determinado tempo, ou frequncia a curso educativo, a fim de no ser processada.
As palavras do advogado fizeram com que Lenidas se sentisse mais confiante. Para ele, tirar a filha da cadeia era o objetivo principal.

- Isso no tem problema, doutor. O importante  que ela no fique presa. Agora, se no houver a colaborao do Carlos e do Leandro, ainda mais na situao difcil 
em que eles se encontram, h algum outro meio de provar que ela no  traficante?
Alexandre demonstrou estar preparado para aquela pergunta, aumentando a confiana de Lenidas na capacidade profissional dele.
- No trajeto para o escritrio, eu vim pensando em algumas alternativas. 
Acho que poderemos tentar quebrar o sigilo telefnico de Carlos. A Denise  falou que ele telefonou para o traficante, combinando a compra da droga. Se ns conseguirmos 
provar que a pessoa para a qual ele telefonou mora perto de onde pegaram a droga e que tem envolvimento com trfico, acredito que as nossas chances sero maiores. 
Por ora, s nos resta aguardar.
Percebendo que seu pai estava mais tranquilo, Renata chamou-o para irem embora. Antes de sair, agradeceu ao advogado pela dedicao  causa e compreenso por receb-los 
em seu escritrio em pleno sbado. Ao final, pediu para mant-los informados sobre qualquer novidade.
Em seguida, saram juntos do escritrio. Despediram-se quando j estavam na calada.
J no carro, o celular de Renata tocou. Era Artur, buscando notcias. Conversaram por um breve momento. Como estava dirigindo, Renata abreviou a conversa. A frieza 
demonstrada por ela foi interpretada por Artur como sinal do momento difcil por que ela estava passando.
Ao chegarem em casa, ligaram a televiso e viram a notcia da rebelio no jornal. Lenidas levou a mo  testa, quando o reprter mencionou que os rebelados haviam 
matado um preso. Os minutos seguintes foram de uma tenso ainda maior. O esclarecimento somente veio quando a rebelio chegou ao fim. O preso morto era de uma faco 
contrria  dos que promoveram a rebelio. As vidas de Carlos e Leandro foram poupadas.
O sol se ps no horizonte, em um bonito espetculo, deixando o cu avermelhado. A lua nasceu, clareando a cidade, trazendo uma nova esperana para o pai e a irm 
de Denise.





CAPTULO
V I



A ensolarada manh de domingo contrastava com a angstia que os membros daquela famlia estavam vivenciando.
Renata acordou antes mesmo de os raios de sol despontarem no horizonte. Levantou-se com cuidado para no acordar seu pai e foi para a cozinha fazer o caf que vinha 
da prpria fazenda. Depois, colocou po de queijo para assar.
Logo em seguida, Lenidas se levantou atrado pelo aroma do caf. 
- Gostaria de levar um lanche para a minha filha. Voc sabe se  permitido?
- Acredito que no. Talvez, no dia da visita, eles deixem entrar com alguma comida. Vou procurar me informar.
De repente, a conversa foi interrompida pelo barulho do telefone. Renata correu para atender. A fisionomia de ambos demonstrava uma enorme expectativa. Afinal, passavam-se 
poucos minutos das sete horas, o que indicava tratar-se de uma notcia urgente. 
- Renata?
- Sou eu mesma.  o doutor Alexandre? 
- Sim.
- Alguma novidade, doutor? 
- Preparada para ouvir uma boa notcia? 
Renata sentiu o corao disparar e seus olhos umedeceram. O entusiasmo contido na pergunta do advogado indicava que a soltura de Denise estava mais prxima do que 
ela imaginava.

- Claro! - respondeu ela.
O advogado segurava um papel na mo, tal qual um capito de uma equipe de futebol segura uma taa de campeo. De fato, a ordem contida naquele papel era um importante 
triunfo para Alexandre.
- Estou com o alvar de soltura da Denise em minhas mos - disse
Alexandre, com a natural euforia que a situao demandava.
Renata ficou muda diante da informao do advogado. A emoo da informao mexeu no ntimo de sua alma. Em sua expresso, as lgrimas demonstravam todo alvio que 
estava sentindo.
- Eu estou com o alvar de soltura da sua irm - tornou Alexandre.
- O senhor est com o alvar de soltura da Denise em mos?
Lenidas deu um pulo da cadeira quando ouviu a pergunta da filha.
A notcia era melhor do que a previso mais otimista que poderia ter.
-  isso mesmo. Durante a rebelio, o Carlos fez a promessa de falar a verdade para a polcia caso escapasse com vida. Ontem  noite, ele prestou novo depoimento, 
confirmando que a cocana foi comprada por ele e que a Denise no sabia de nada. Diante deste novo fato, eu fiz outro pedido de liberdade provisria ao juiz. A deciso 
saiu h menos de meia hora. Eu no telefonei ontem para no criar expectativa em vocs. J estou na delegacia. Em poucos minutos, sairemos daqui. Pode ficar despreocupada, 
porque eu a levarei para casa.
Renata, enfim, soltou a emoo em um choro incontido. Do outro lado da linha, o advogado ficou sensibilizado com a alegria dela.
- Eu no sei como agradec-lo, doutor Alexandre.  a melhor notcia que eu j recebi em toda minha vida. Muitssimo obrigada.
Renata desligou o telefone e abraou seu pai. Em seguida, explicou-lhe como o advogado havia conseguido a liberdade provisria. Ambos choraram um choro de alvio 
que lhes encheu de paz o corao.
Lenidas segurou firme nas mos da filha e iniciou a orao do Pai Nosso, sendo acompanhado por ela. Depois, enxugou as lgrimas, deu um sorriso e completou:
- Ontem, antes de dormir, eu fiz uma orao e pedi  sua me para interceder junto a Deus pela soltura de Denise. Ela foi uma pessoa muito boa. Tenho certeza de 
que est em bom lugar no cu e tem crdito com o Pai Celestial. Este  o meu primeiro momento de alegria, aps a morte dela. Vamos celebrar. Irei  padaria comprar 
a broinha de milho, de que Denise tanto gosta.

O sorridente pai colocou uma camisa e saiu a passos largos, com a felicidade estampada na face. Renata arrumou a mesa e tirou o po de queijo do forno.
Lenidas voltou da padaria com uma sacola cheia de guloseimas. A mesa ficou bonita, com as broas, biscoitos, roscas, iogurtes, queijo, presunto, pao francs, suco 
e as jarras de caf e leite. Com tanta comida, sobrou pouco espao para colocar as xcaras. Havia muito tempo que pai e filha no tinham tanto entusiasmo em preparar 
um caf da manh.
Quando ouviram o barulho da chave, correram para a porta de entrada do apartamento.
Denise estava com os olhos inchados. Assim que abriu a porta, ela largou a bolsa com os seus pertences e correu para abraar o pai e a irm.
Alexandre observou o reencontro da sua cliente com a famlia. A satisfao pessoal por ter proporcionado alegria quelas pessoas compensava o sacrifcio de uma noite 
sem dormir.
A gratido demonstrada por Lenidas, Denise e Renata emocionaram o experiente advogado.
Tomaram a refeio sem pressa. Denise relatou a desagradvel experincia de duas noites passadas em uma delegacia. A sensao da liberdade jamais foi to curtida 
em toda a sua vida.
Alexandre informou que Carlos assumiu a propriedade da droga, alegando, em sua defesa, que se destinava a uso prprio.
- E quais so as chances dele no ser enquadrado como traficante? perguntou Denise.
Vai depender da prova a ser feita e tambm do juiz que julgar o caso. O mesmo fato pode ter interpretaes diversas, dependendo do juiz que o analisar. Infelizmente, 
vrios jovens cumprem pena por trfico. Depois que comeam a ganhar dinheiro fcil, fica complicado procurar um trabalho honesto. No bastasse, a posio de traficante 
confere status em algumas comunidades. Quando saem da cadeia, a maior parte volta para o mundo do crime. Um bom nmero deles morre na mo de outro bandido, geralmente 
um traficante mais forte, enquanto outros morrem em confrontos com a polcia. A mdia de vida  curta. Por essa razo, eles querem aproveitar ao mximo cada momento. 
Cada farra pode ser a ltima. Obviamente, h casos de erros judicirios, em que um usurio  enquadrado como traficante. A experincia de alguns anos de priso marca 
uma pessoa para o resto da vida, sobretudo quando a condenao  injusta. A revolta pode transformar um inocente em bandido.

Denise suspirou aliviada. Por pouco no fora vtima de um erro judicirio.
Aps breve momento de silncio, Lenidas voltou a demonstrar sua gratido para com o advogado.
- Tome mais um caf, doutor Alexandre. Os gros vm da nossa fazenda. Gostaria muito de ter a honra de receber a sua visita l. Imagino que o trabalho do senhor 
seja muito estressante. Passar uns dias na roa ser muito bom para o senhor. Vou lhe ensinar tudo sobre a terra.
- Eu no vou desprezar o convite. Assim que tiver uma oportunidade, vou visit-lo em sua fazenda. Agora, com a licena de vocs, eu vou embora. Gostaria apenas de 
lembrar-lhes que o promotor de justia dever fazer uma proposta de prestao de servios  comunidade para que a Denise no seja processada. Ela ser enquadrada 
no crime previsto no artigo 28 da Lei n 11.343, que prev uma pena restritiva de direitos de no mximo cinco meses queles que trazem consigo substncia entorpecente 
para consumo pessoal. Esta lei, que foi publicada em 2006, alterou a Lei n 6.368, de 1976. A lei anterior previa a pena privativa de liberdade, a conhecida priso, 
para esta modalidade de crime. A lei atual no tem esta previso. Caso a pessoa no cumpra a pena restritiva de direito, via de regra a prestao de servios  comunidade, 
o mximo que o juiz pode fazer  convert-la em multa. Algumas pessoas fazem confuso ao imaginar que no  mais crime fumar maconha ou usar outra droga ilcita. 
Continua sendo crime, pois para usar a droga  preciso ter a posse dela, s que no  mais apenado com pena privativa de liberdade. A verdade  que o Governo Federal 
tem abrandado o rigor das leis penais, pois manter uma pessoa presa custa caro aos cofres pblicos. Para vocs terem uma ideia, o mnimo da pena de trfico, que 
era de trs anos na lei anterior, passou para um ano e oito meses. A meu ver, o abrandamento indiscriminado da lei penal, como est sendo feito, acaba estimulando 
a criminalidade, pois aumenta a sensao de impunidade.
Em seguida, Alexandre levantou-se da mesa, despediu-se de todos com um abrao terno e saiu. Ao entrar no carro, decidiu telefonar para Artur, a fim de contar a boa 
nova. O seu entusiasmo era semelhante ao de um filho que leva o boletim escolar para os pais, aps ser aprovado na escola.
Assim que recebeu a notcia, Artur no se conteve. Decidiu que teria uma conversa com seu pai naquele momento. No deixaria persistir aquela situao de afastamento, 
provocada por ele prprio, e convidou o pai para acompanh-lo  padaria, onde tinha o hbito de tomar caf da manh aos domingos.

Alexandre sentiu o corao bater mais forte. Era bvio que Artur trataria sobre a reaproximao entre eles. Com um sorriso na face, o advogado tomou o rumo da sua 
antiga casa.
Ao chegar, o filho j o esperava na calada. Assim que entrou no carro, Artur deu um abrao longo em seu pai. Com a voz sufocada pela emoo, agradeceu o empenho 
de Alexandre para atender a um pedido seu.
- Eu estou muito grato e orgulhoso do senhor. No imaginava que a Denise fosse sair to rpido da priso. O senhor  um heri para mim.
Por uma frao de segundo, Alexandre relembrou momentos da infncia de Artur, quando este o considerava uma pessoa perfeita, sem defeitos.
- Eu tive sorte. Seria muito difcil conseguir a liberdade dela, se Carlos no mudasse o depoimento.
Em seguida, j com lgrimas nos olhos, concluiu: 
- Fiquei muito feliz por voc ter confiado em mim. 
- Eu nunca deixei de confiar no senhor. Vamos conversar na padaria. Estou com fome.
Chegando l, ele pediu um misto-quente, um biscoito de queijo e um suco de laranja. Enquanto a funcionria preparava o lanche, ele iniciou a conversa.
- Sei que pegou este caso em considerao a mim.
Artur fez uma breve pausa, olhou nos olhos do pai e continuou: 
- Infelizmente, eu no tenho tido a mesma considerao em relao ao senhor. Desculpe-me. O problema est em mim. Eu preciso aceitar a sua deciso de querer a separao 
da mame. Francamente, eu imaginei que o senhor estava se separando por causa de outra mulher. Mesmo que tenha sido por este motivo, eu tenho que respeitar a sua 
deciso.
- Filho! Eu entendo a sua situao - disse Alexandre, colocando a mo carinhosamente no ombro de Artur.- Sei que causei dor a voc e a sua me, quando sa de casa. 
O casamento estava indo de mal a pior. Sua me e eu estvamos perdendo o respeito um pelo outro. Aos poucos, o desgaste causado pelas brigas acabou com a atrao 
entre ns, mas eu posso lhe afianar que no teve e no tem nenhuma mulher envolvida nesta histria.

A conversa foi interrompida pela funcionria da padaria, ao trazer o lanche. Artur tomou um gole de suco e retomou o dilogo.
- Eu estou arrependido por ter me afastado do senhor. A priso da Denise acabou tendo um lado positivo, que foi a nossa reaproximao. A partir de agora, eu quero 
voltar a ser seu amigo, como sempre fomos. Perdoe-me pela minha infantilidade.
Por uma frao de segundos, ambos ficaram em silncio.        
Em seguida, as lgrimas de Artur comearam a rolar. Em vo, Alexandre tentou segurar o choro. Assim que se refez, Artur prosseguiu.    
- Eu nunca deixei de amar o senhor. Esse amor est represado em minha alma. Pai, eu estou me afogando nesse amor que no consigo passar a voc. Tive um sonho horrvel, 
hoje. A minha boca estava cheia de comida podre. Eu estava morrendo engasgado com aquela comida, passava o dedo na boca para jog-la fora, mas logo a comida se multiplicava, 
vindo de dentro do meu organismo. Eu j no conseguia respirar e fiquei desesperado. Acordei dando um grito. Fui  cozinha pegar um copo de
gua e depois sentei no sof para ver televiso. Estava passando uma missa ao vivo e o padre estava explicando o seguinte trecho do Evangelho: "O que torna algum 
impuro no  o que entra pela boca, mas o que sai da boca, isso  o que o torna impuro". Eu entendi que o que nos torna bons ou ruins so as coisas que vm do corao. 
Comecei a me sentir impuro por carregar um sentimento ruim em relao ao meu prprio pai. Senti que o alimento podre que entupia tanto a minha boca, quanto a minha 
garganta, eram produzidos pelos maus sentimentos que estavam em meu corao. Foi nessa hora que o senhor me ligou. Eu estava fazendo um paralelo do sonho com a explicao 
do padre. Perdoe-me!
Entre lgrimas, Alexandre deu um sorriso. Sentiu o seu corao ficar leve e ser inundado por uma paz imensa, difcil de descrever.
- Eu compreendo a sua posio, meu filho. Voc j est perdoado. Vamos esquecer o que passou e ter vida nova daqui para frente.
Depois de mais alguns minutos de conversa, Artur e Alexandre se despediram com um abrao afetuoso. Artur decidiu aproveitar a bonita manh para caminhar pelo bairro. 
Enquanto caminhava, pensava em Renata. Certamente, ela telefonaria mais tarde para dar a boa nova. O triste fato acontecido com Denise serviu para aproxim-lo tambm 
dela.
Enquanto ele caminhava pelas ruas vazias da cidade, curtindo o belo domingo de sol, Renata e seu pai estavam reunidos para uma conversa com Denise.

- Eu estou preocupado com voc h muito tempo - disse Lenidas. - J desconfiava que pudesse estar fazendo uso de drogas. Gostaria de poder lhe dar maior ateno, 
mas os compromissos na fazenda no permitem que eu venha a Belo Horizonte com a frequncia que gostaria. Estou muito triste com esta situao, porque acho que voc 
no precisa usar maconha para ser feliz. Voc  uma moa bonita e dotada de inteligncia, alm de ser uma companhia agradvel. No bastasse, temos uma situao financeira 
confortvel, que me permite no deixar faltar absolultamente nada nesta casa. Em nossa famlia, no temos maiores problemas. Profissionalmente, voc est em vias 
de se formar e poder montar um escritrio em sociedade com a sua irm. Eu gostaria de entender o motivo que levou voc a buscar o caminho das drogas.
Esperaram pela resposta de Denise. Ela estava de cabea baixa, ouvindo em silncio o sermo do pai. De repente, respirou fundo, levantou a cabea, olhou dentro dos 
olhos do genitor antes de se explicar.
- O senhor tem razo quando diz que no me falta nada. Comecei a fumar maconha porque os meus amigos usavam, e eu no queria ser discriminada. Hoje, eu fumo porque 
a maconha me relaxa e, sinceramente, eu no acredito que faa mal.
- Desculpe-me, Denise - interrompeu Renata -, mas  um grande equvoco pensar que o uso da maconha no traz efeitos negativos. J li artigos de pessoas respeitadssimas 
afirmando que o uso da maconha pode levar  depresso, pensamentos suicidas, esquizofrenia e desordens psicticas.
- O uso de lcool tambm  nocivo - rebateu Denise.
-  verdade, mas no  considerado crime - retrucou Lenidas. - Voc ouviu o doutor Alexandre falando que continua sendo crime a posse de maconha, apesar de no 
ser mais punido com a pena de priso?
Denise ficou pensativa e concluiu que no adiantaria tentar convenc-los de seu posicionamento.
- Eu vou pensar sobre os argumentos de vocs - disse ela.
- Ento, pense em mais outro argumento: o risco de ser presa novamente, na hiptese de ser confundida com um traficante. Imagine se voc  pega com maconha e o juiz 
entende que no era para consumo pessoal, mas sim para vender. Desta vez voc teve sorte. J imaginou voc presa naquela delegacia, cumprindo pena por crime de trfico? 
- tornou Lenidas.

Denise sentiu um arrepio s de lembrar do ambiente dantesco da carceragem.
- Voc acha que  viciada? - perguntou Lenidas. 
Denise demonstrou irritao com a pergunta do pai.
- No sou. Eu fumo de vez em quando. Posso parar a hora que quiser.
- Este  o grande problema dos usurios - disse Renata. - Nunca se consideram viciados e acreditam que param de usar droga quando bem entenderem.        
- Eu j disse que no sou viciada - bradou Denise.        
- Se voc no  viciada, tente ficar seis meses sem fumar maconha - tornou a irm.        
Denise lanou um olhar desafiador para Renata, ficou muda por alguns instantes, depois respondeu:
- Est bem. Ficarei seis meses sem colocar um nico cigarro de maconha na boca. Vou provar que no sou viciada.
A promessa de Denise trouxe alvio para o pai e a irm. Apesar disso, Lenidas decidiu fazer uma ltima abordagem sobre o assunto.
- Alm de tudo o que falamos, outro risco do uso de maconha  o de servir como porta de entrada para as drogas mais fortes, como a cocana, herona, drogas sintticas 
e mesmo o crack.
Denise impacientou-se com a conversa sobre drogas, l havia feito a sua promessa de ficar seis meses sem usar maconha; portanto, no precisava continuar ouvindo 
as advertncias de seus familiares.
- Eu prometi que vou ficar seis meses sem fumar. Nesse perodo, eu vou pensar sobre os argumentos de vocs. Agora, caso vocs no se incomodem, eu prefiro mudar 
de assunto.        
- Est bem - concordou Lenidas. - Daqui a seis meses a gente  volta a conversar. Ns vamos almoar fora hoje?        
- Que tal experimentarem o macarro que aprendi a fazer em um programa de televiso? - sugeriu Renata. -  muito saboroso e faclimo de fazer. Vou  mercearia comprar 
os ingredientes que faltam.        
Ante a aquiescncia dos dois, Renata pegou a carteira e saiu. Ela tambm estava sentindo certa carncia, fruto da briga com Adriano. Estava decidida a no reatar 
o namoro. Aproveitaria para conviver mais tempo com a irm, a fim de tentar desvi-la das ms companhias.
Assim que virou a esquina, Renata sentiu a fora de uma mo segur-la pelo brao. Deu um grito de susto, pensando ser um assalto.

- No se assuste - disse Adriano. - Voc no recebeu as flores que mandei?
Renata estava trmula, com as pernas bambas. O corao batia descompassado.
- Voc me mata de susto! Nunca mais faa isto. 
- Estou esperando a resposta: voc no recebeu as flores com o carto? 
O olhar de Adriano faiscava de raiva. Renata percebeu que ele estava descontrolado e ficou com medo. 
- Eu recebi as flores, sim.
- E por que no telefonou para ns conversarmos? 
- Ns no temos mais nada para conversar. Est tudo resolvido entre ns.
- Voc est de caso com aquele colega de trabalho. Por isso, est querendo se ver livre de mim.
- Eu no tenho nada com ele. O cime doentio deixa voc cego. Deixe-me em paz!
Adriano sentiu o sangue ferver. Ela nunca havia demonstrado tanta convico em terminar o namoro. Em sua mente, veio a imagem da namorada nos braos de Artur.
Movido pelo cime, Adriano apertou fortemente os braos dela, empurrando-a, em seguida. Depois, entrou no carro e saiu em alta velocidadem.
O gesto estpido de Adriano deixou Renata chocada. Em um primeiro momento, ela ficou sem compreender o que ele havia feito; parecia irreal, como se fosse um pesadelo. 
Era a primeira vez que ele a agredia daquela forma. Por alguns segundos, ela ficou parada, sem ao. Assim que se refez, caminhou at a mercearia.
Enquanto pegava os ingredientes, dizia para si mesma que nunca mais voltaria a conversar com ele.
Ao voltar para casa, antes de comear a cozinhar, lembrou-se de telefonar para Artur, a fim de lhe contar sobre a soltura de Denise e agradecer por todo o apoio 
recebido. Renata teve o mpeto de desabafar com ele sobre a agresso de Adriano, mas teve receio de que o seu pai ouvisse.
Certamente, ele iria querer tirar satisfao com o ex-namorado dela.
Pouco depois, Denise e seu pai foram para a cozinha, atrados pelo cheiro agradvel. Enquanto o molho fervia no fogo baixo, Lenidas abriu uma garrafa de refrigerante. 
Por alguns momentos, todos ali esqueceram os momentos difceis que vivenciaram naquele final de semana.







CAPTULO 
VII


Renata chegou cedo ao servio e foi direto para a sua sala. A fisionomia cansada denunciava que no havia tido uma boa noite de sono. De fato, as surpresas do final 
de semana mexeram com as suas emoes. Primeiro, a preocupao com a irm, presa em uma delegacia de poicia, sob a acusao da prtica de trfico de entorpecente. 
Depois, a preocupao com a reao violenta do namorado.
Renata no estava conseguindo concentrar-se no trabalho. Ao ouvir o barulho da porta da sala de Artur, levantou-se e foi at l.
Ao entrar, percebeu que ele carregava um ar de felicidade, at ento desconhecido dela. Seu semblante estava radiante. Ela sentiu um forte desejo de abra-lo e 
assim o fez.
- Graas a Deus, tudo acabou bem - disse Renata. - Devo isso a voc. Nunca esquecerei o seu gesto de solidariedade.
Artur ficou emocionado. Sentiu que ela estava falando com o corao. Fitou-a nos olhos por um momento e respondeu:
- Eu no fiz nada demais. Tenho certeza de que voc faria o mesmo por mim. Todos samos lucrando. To importante quanto a liberdade da Denise, foi a minha reconciliao 
com o papai. Eu estou mais leve. Ns samos para conversar e selamos a paz. A partir de agora, voltaremos a conviver como pai e filho.
- Parabns pela sua atitude. Eu achei o seu pai uma pessoa tima. Est escrito nos olhos dele o amor que sente por voc.
- Graas a Deus, enxerguei a tempo a burrada que estava fazendo. Foi um erro terrvel tomar as dores da minha me e cortar relaes com ele. Os desentendimentos 
entre os pais no podem afetar o relacionamento com os filhos. Eu julguei o meu pai e fui muito rigoroso na punio que apliquei a ele. Voc no imagina o alvio 
que estou sentindo.

- Imagino, sim. Deve ser parecido com o meu alvio pela liberdade da Denise.
Renata abaixou a cabea e Artur percebeu que algo a incomodava. Ele sentiu que ela queria lhe falar algo, mas estava insegura.
- Voc no parece estar to feliz com a soltura da Denise. Aconteceu alguma coisa?        
Renata ficou quieta, em dvida sobre falar da agresso de Adriano. Aps breve reflexo, respondeu:
- Tudo estaria muito bom se no fosse uma outra briga que tive com meu ex-namorado.
- Outra briga? - perguntou Artur, sem esconder a surpresa.
- Exatamente. Ele viu voc subindo comigo para o apartamento. Na verdade, ficou arrependido de ter brigado comigo e foi  minha casa pedir desculpas. Ele decidiu 
ficar esperando eu chegar e viu quando ns subimos para o apartamento. Na manh seguinte, ele me telefonou para tirar satisfao. Eu expliquei a situao da Denise 
e disse que voc subiu ao apartamento para me encorajar a telefonar para o meu pai. Depois, ele mandou flores, com um carto pedindo desculpas. Eu dei as flores 
para a faxineira do prdio e joguei o carto fora. Ontem, quando eu estava saindo para ir  mercearia, fui pega de surpresa quando ele me puxou pelo brao, questionando 
se eu no havia recebido o buque de flores. Depois, falou em reconciliao. Eu fui clara para ele, dizendo que tudo estava acabado entre ns, mas ele no aceitou.
Artur encheu-se de esperana, sentindo a determinao de Renata em colocar um ponto final no relacionamento afetivo.
- Voc tem certeza de que no quer mais nada com ele?
- Desta vez, eu vou lutar com todas as minhas foras para no voltar. Eu gosto dele, mas ns brigamos muito. Ontem, pela primeira vez, ele me agrediu, apertando 
os meus braos com muita fora, antes de me dar um empurro. Tudo tem um limite!
Artur pareceu no acreditar. Balanou a cabea, externando a sua revolta pela covardia de Adriano. Em sua mente, no entendia como uma mulher bonita e inteligente 
aceitava tanta grosseria.

- Voc  uma mulher muito atraente. Merece uma pessoa carinhosa ao seu lado. Qual homem no gostaria de ter uma namorada como voc?... At quando aceitar os pedidos 
de desculpas dele?
- No haver outra ocasio para ele me pedir desculpas - tornou Renata. - Est tudo acabado.
Sentindo a firme determinao dela em no retomar o namoro, Artur decidiu arriscar.
- Posso lhe fazer um convite? 
- Qual?
- Vamos sair para jantar, hoje  noite. Voc est precisando se distrair um pouco.
O convite de Artur pegou Renata de surpresa. Ela ficou em dvida sobre a resposta que daria. Por um lado, poderia ter uma noite agradvel, que abrisse porta para 
um futuro relacionamento. Por outro, sair com outro homem poderia fazer com que pensasse mais ainda em Adriano, tornando a misso de esquec-lo ainda mais difcil. 
Afinal, a briga ainda estava muito recente. Depois de alguns segundos, respondeu:
- Desculpe-me. Eu ainda estou muito envolvida com o Adriano. Alm do mais, meu pai continua l em casa e preciso dar uma assistncia para ele. 
A resposta de Renata desapontou Artur. 
- Est tudo bem. Fiz o convite apenas para que voc pudesse dar uma refrescada na cabea. O final de semana foi tenso.
- Foi sim. Bom... Eu vim aqui apenas para lhe agradecer. Vou voltar para a minha sala, porque tenho muito servio  minha espera.
- Eu tambm estou atarefado. O doutor Alfredo me pediu para ir a Pampulha solucionar com um fornecedor o problema de atraso na entrega de um piso.
Artur abriu a porta gentilmente para Renata sair. Em seguida, desceu de elevador at a garagem, onde estava a caminhonete da empresa. Durante o trajeto, comeou 
a pensar que poderia ter mais dificuldade do que estava imaginando para conquistar o corao de Renata. Ela demonstrava estar muito envolvida com Adriano.
Artur tentou compensar a decepo com essa concluso fazendo o caminho mais bonito para chegar ao fornecedor, passando pela avenida que margeava a lagoa, a fim de 
apreciar o belo visual. O trnsito estava tranquilo, possibilitando que se atingisse uma velocidade maior do que a usual.

Aps fazer uma curva para a direita, uma bicicleta entrou na frente da caminhonete, obrigando-o a desviar bruscamente para evitar o acidente. A roda da caminhonete 
chocou-se no meio fio, fazendo com que o veculo capotasse, caindo de cabea para baixo na lagoa.
Rapidamente, a gua comeou a entrar no automvel. Artur ficou em estado de choque ao ver aquela cena. Apertou o boto do cinto de segurana, mas no conseguiu destrav-lo. 
Em questo de segundos, a gua cobriu toda a cabine, aumentando o desespero dele, que, lentamente, comeava a ficar sem flego. Em sua mente, veio a imagem dos pais 
e a vontade de abra-los pela ltima vez. Quando a vida parecia lhe escapar por entre os dedos, Artur sentiu uma mo puxando-o para fora do carro. Misteriosamente, 
o cinto havia sido destravado. A gua turva no permitiu que ele visse o rosto da pessoa que o ajudava.
Quando subiu para a superfcie, o ar no pulmo j estava no limite. Ao olhar para o lado, viu de relance um vulto muito parecido com o homem louro que apareceu no 
sonho para ele, dando-lhe conselhos de amor e perdo.
Artur virou-se, procurando aquele homem, mas no viu ningum ao seu redor.
Um carro que vinha no outro sentido da avenida parou. Um homem moreno desceu para socorr-lo.
- Voc est bem? Tem mais algum a dentro?
- No tem mais ningum. Eu estava sozinho. Voc viu onde est o homem que me ajudou?
- Qual homem?
- Um louro - tornou Artur, com o corpo trmulo.
- O senhor deve estar em estado de choque. Eu acompanhei todo o acidente. Sou o primeiro a chegar aqui. No tem ningum neste local, alm de ns dois. Vamos sair 
da lagoa, o senhor est com alguns ferimentos na face.
Artur abraou-se ao desconhecido e saiu da gua. Seu corao estava disparado. Pela primeira vez em sua vida, viu a morte to de perto.
Artur sentou-se  margem da lagoa. Sentiu um gosto amargo na boca. Passou a mo e viu que era sangue.
- Eu estou muito ferido?
- Tem um corte profundo na testa e alguns arranhes embaixo dos olhos.
- 
Artur tornou a olhar ao redor, em busca do homem que o retirou do veculo. Novamente, constatou que s estavam os dois por ali. 
- Voc tem certeza que ningum me ajudou a sair do carro?
O homem riu e respondeu: 
- Eu tenho certeza absoluta. Voc nasceu de novo. Mas eu o vi - insistiu Artur. - Eu no estava conseguindo tirar o cinto de segurana. Tenho certeza de que ele 
destravou o cinto. Senti que ele me puxou pelo brao. No estou delirando. Alm dos mais, eu o vi quando subi para a superfcie.
O desconhecido olhou para Artur, certo de que aquela reao era fruto do susto.
- Voc gostaria que eu avisasse a algum sobre o acidente? 
- Gostaria, sim. Deixe o recado na construtora.
O homem telefonou para o nmero indicado por Artur e falou rapidamente sobre o acidente, informando, ainda, o hospital para o qual iria lev-lo.
- Esqueci de me apresentar. Meu nome  Willian - disse o homem, aps Artur entrar em seu carro.
Aos poucos, Artur foi se tranquilizando. O sangue escorria pela sua face, mas ele no sentia dor. Em sua mente, a imagem do homem que o salvou continuava bem ntida. 
Ele estava em pleno gozo de suas faculdades mentais e sabia que no estava delirando. Foi salvo, sim, pela mesma pessoa que lhe apareceu em sonho alguns dias antes.
Durante o trajeto, Willian relatou ter sofrido acidente gravssimo no passado, sendo salvo por um milagre.
- Eu entrei com um Gol debaixo de um caminho. Preste ateno no que eu vou falar: nada nesta vida acontece por acaso. Tudo tem um sentido, ainda que oculto. Na 
poca em que tive o acidente, eu j era casado, s que estava em uma fase de muita gandaia, vivendo uma vida de homem solteiro. Trabalhava em outra empresa, como 
representante, e viajava muito para o interior, visitando os clientes em cidades diferentes. Conheci muitas mulheres, algumas foram minhas amantes. Eu dava ateno 
e carinho para elas. Como consequncia, varias ficaram apaixonadas por mim. Eu no me preocupava se iria ferir os sentimentos delas. Tambm no me preocupava com 
o que pensaria a minha mulher, caso viesse a descobrir. Em uma das viagens para o interior, quando faltavam menos de dois quilmetros para chegar ao meu destino, 
um caminho cruzou o meu caminho, em um trevo, e no consegui evitar o acidente. Estou vivo por obra e graa de Deus. Quando vi aquele gigante na minha frente, no 
quis acreditar no que estava acontecendo. Foi tudo muito rpido. Eu dei um grito: "No". Pisei no freio, mas vi que entraria debaixo dele. Tive a certeza da morte. 
A violncia da batida foi impressionante. Para minha sorte, acabei acertando o ba de combustvel. O Gol fez um giro de noventa graus para a direita e caiu em cima 
do jardim que tinha no trevo. Pensei que tivesse morrido. Quando abri os olhos, vi que estava vivo. Saa muita fumaa do motor. A dianteira do carro estava toda 
retorcida. O teto havia abaixado bastante. Fiquei com medo de que o automvel comeasse a pegar fogo. Movimentei os ps e os braos, para certificar-me de que no 
havia ficado paraltico. Havia um espao mnimo na janela do lado do motorista, por onde consegui sair. Fiquei de p, a alguns metros do carro. Um motorista que 
estava passando pelo local aproximou-se para prestar socorro e levou o maior susto quando me viu do lado de fora do veculo. Ele perguntou com espanto: "Voc est 
vivo?" Depois, levou-me para a Santa Casa de Misericrdia, onde fiz alguns exames. Tive apenas leses superficiais, sendo a mais grave um corte na testa, onde levei 
onze pontos - disse Willian, enquanto passava a mo na cicatriz.

- Durante algum tempo, fiquei me perguntando a razo daquele acidente. Se eu passasse no local cinco segundos antes, ou cinco segundos depois, o acidente no teria 
ocorrido. Por que, ento, o caminho cruzou a rodovia exatamente no momento em que o meu carro estava passando?
- Umas trs semanas depois, consegui decifrar o sentido oculto do acidente.
- E qual foi esse sentido? - perguntou Artur, envolvido pela histria narrada.
- Eu pisei no freio, talvez por uns oito metros, mas no foi o suficiente para fazer o veculo parar. Havia uma mensagem oculta naquele fato. Eu deveria pisar no 
freio dos meus impulsos. No dava para abusar do sentimento alheio e sair ileso, como se nada de errado estivesse acontecendo. Foi um aviso: ou eu mudava o meu jeito 
de ser, ou uma tragdia me esperaria na prxima esquina. Veja bem: o corte mais profundo que tive foi exatamente na testa, o lugar do chifre. Quer recado mais claro?
Artur limpou com a camisa o sangue que escorria da sua face.

- Qual  o significado deste acidente que tive? Voc sabe dizer? 
- No. Esta charada dever ser desvendada por voc. 
Quando o carro chegou ao hospital, Renata j esperava por Artur. Logo que ele desceu do automvel, ela veio abra-lo e ficou preocupada com as manchas de sangue 
na camisa e na face. 
- Que susto, Artur! Voc est bem? 
- Acho que renasci. Cheguei a pensar que no escaparia. 
Artur retirou a carteira do bolso. Todos os documentos estavam molhados. Um enfermeiro o levou para a sala de raios X.
Em menos de dois minutos, um jovem mdico, aparentando a mesma idade que a sua, abriu a porta e iniciou o procedimento com as perguntas de praxe.
O mdico limpou as feridas e aplicou anestesia para dar os pontos necessrios. Encaminhou Artur para fazer alguns exames e depois o conduziu a outra sala, onde Renata 
ainda o esperava.
- Voc no acha melhor avisar  sua me?
- Melhor, no. Prefiro conversar com ela pessoalmente.
- Mas ela levar um susto enorme quando vir voc neste estado. O seu rosto est inchado e com hematomas.
- Mesmo assim, eu prefiro contar pessoalmente. Se eu telefonar e contar como foi o acidente,  perigoso ela desmaiar. Talvez, nem acredite em mim. Poder pensar 
que eu estou escondendo a verdade e que o caso seja mais grave. Alm disso, o meu acidente foi muito parecido com o acidente que matou o meu av, pai dela. A morte 
dele deixou alguns traos de revolta nela.
- E como foi que o seu av morreu?
-  uma longa histria. Envolve briga poltica, homicdio e perseguio.
- Agora eu fiquei mais curiosa. Adoro ouvir esses casos.
Artur deu um leve sorriso. No gostava de falar sobre a tragdia que envolveu seu av materno, mas atenderia ao pedido de Renata.






CAPTULO
VIII




Aps breve pausa, Artur comeou a narrativa.
- Os meus avs moravam em Pedra Rosada, uma pequena cidade no vale do rio Bonito, interior de Minas. O vov Zez era poltico e foi o vereador eleito com o maior 
nmero de votos da histria da cidade, apesar de no ser de famlia tradicional. Ele havia sido criado no orfanato local. Sua me morreu logo depois do parto e o 
pai o entregou para o padre, o qual, por sua vez, encaminhou-o para o orfanato.
Ele era apontado como o eventual candidato do Partido Branco para a prefeitura. Na poca, existiam dois partidos fortes na cidade: o Partido Branco e o Partido Vermelho. 
A disputa poltica em Pedra Rosada era brava, mas o Partido Vermelho era um pouco mais forte. At ento, todos os prefeitos eleitos de Pedra Rosada pertenciam ao 
Partido Vermelho. O vov Zez tinha o sonho de ser o primeiro prefeito do Partido Branco a administrar Pedra Rosada. S para voc ter uma ideia de como a cidade 
era dividida, em uma das eleies municipais o candidato do Partido Branco perdeu por apenas um voto de diferena.
A disputa no se resumia ao campo poltico. Para fazer negcios ou contratar servios, as pessoas davam preferncia para algum que fosse do mesmo partido.
Nesse contexto, o vov Zez comeou a namorar a vov Maria, cujo pai era o coronel Teodoro, chefe do Partido Vermelho. Desnecessrio dizer que o namoro no foi bem 
visto pelo pai da vov. Ele no aceitaria que sua filha se casasse com uma pessoa do Partido Branco. De todas as formas, ele tentou impedir o casamento, que s se 
realizou porque o Slvio, outro filho dele, intercedeu para que ele respeitasse a deciso da prpria filha.

Depois que eles se casaram, o nome do vov continuou sendo cogitado para ser o candidato do Partido Branco, exatamente para enfrentar o Fausto, o outro irmo da 
minha av, que seria o candidato do Partido Vermelho. A vov Maria tinha dois irmos, o Slvio e o Fausto. O Slvio era muito amigo dela, mas o Fausto nunca combinou 
com ela e odiava o vov Zez. Esse dio aumentou depois que o vov Zez decidiu disputar o cargo de prefeito justamente contra ele. Seria uma disputa de cunhados 
e todos na cidade j estavam fazendo as suas apostas.
Renata estava absorvida pela histria narrada e mal piscava os olhos. Ela adorava os casos dos coronis polticos.
- Certa noite, o vov estava em um bar com mais alguns amigos traando a estratgia da campanha. Em uma outra mesa, um vereador do Partido Vermelho comeou a falar 
alto que havia suspeita de corrupo na presidncia da cmara de vereadores. Ora, o meu av era o presidente da cmara. Se ele ficasse calado, estaria consentindo 
na veracidade daquela afirmao. Ento, ele se levantou da mesa e foi tirar satisfao com esse vereador, formando-se uma confuso. O Slvio estava passando na rua 
e foi l para separar a briga. Lembre-se de que ele era o cunhado amigo e foi quem intercedeu para que o pai dele no impedisse o casamento.
Aps a turma do "deixa disso" separar a contenda, o vov retornou para a sua mesa. Naquele momento, o vereador com o qual ele discutiu falou que ele teria o que 
merecia. O vov Zez olhou para trs e viu que ele estava levando a mo  cintura. Imediatamente, o vov sacou o revlver e comeou a atirar, acertando cinco tiros 
no vereador e, acidentalmente, um tiro no Slvio, que estava ao lado. O vereador no morreu, mas o Slvio morreu na hora, pois o tiro o acertou em cheio no corao.
Renata arregalou os olhos. No imaginava que os ascendentes de Artur tivessem envolvimento com tiroteios, muito menos entre eles mesmos.
Artur percebeu o espanto da sua ouvinte, mas continuou a sua narrativa:
- Vendo que o Slvio estava morto, os amigos do vov fugiram com ele dali, pois sabiam que o coronel Teodoro, pai da vov e do Silvio, vingaria a morte do filho. 
Levaram o vov para a fazenda de um companheiro do Partido Branco. L, ele ficou escondido por dois meses, at que foi descoberto.

O coronel Teodoro chegou  fazenda em dois carros que estavam apinhados de jagunos. Houve um tiroteio horroroso, com sete mortes e outros tantos feridos. Do lado 
do vov, tirando os mortos e feridos, s restaram ele e outro companheiro. Havia uma caminhonete do dono da fazenda estacionada no terreiro, exatamente entre os 
dois grupos. O vov e o amigo dele estavam prximos ao curral. Eles soltaram os cavalos em direo ao terreiro e correram para a caminhonete, no meio dos cavalos 
para se protegerem. O amigo do vov entrou no carro, do lado do motorista e o vov pulou para dentro da carroceria, porque no conseguiu abrir a porta do outro lado. 
Eles fugiram, espalhando barro para todos os lados. Era ms de janeiro e estava chovendo sem parar em Pedra Rosada. O coronel Teodoro saiu no encalo deles.
Quando a caminhonete estava passando por uma ponte sobre o rio Bonito, o motorista perdeu o controle e o carro caiu no rio, matando o vov e o amigo dele.
Artur fez mais uma pausa e concluiu: Foi assim que o vov morreu. Pela semelhana com o acidente que eu tive, no quero falar nada com a minha me pelo telefone. 
Ela ficaria preocupadssima.
Fascinada com a histria, Renata procurou saber mais detalhes.
- Quantos anos a sua me tinha quando isso aconteceu?
- Ela no era nascida. A minha av sequer suspeitava de que pudesse estar grvida. O meu av morreu sem saber que seria pai.
- A sua av deve ter enfrentado uma barra muito difcil. Perdeu a nica pessoa da famlia que apoiou o casamento dela, morto exatatamente pelo marido. Depois, perdeu 
o marido e descobriu que estava grvida. No deve ter sido fcil para ela enfrentar o prprio pai.
- No foi mesmo. Quando ele descobriu que a filha estava grvida do assassino de seu filho dileto ficou mais irado ainda. Ela o ouviu falar com o Fausto, o outro 
filho, que iria lev-la ao mdico para abortar. No aceitaria um herdeiro com o sangue do meu av.
A minha av ficou desesperada e fugiu para Trancoso, na Bahia, para onde tinha se mudado uma amiga dela. Ela passou dois anos sem dar notcias. Quando deu, o coronel 
Teodoro no quis mais saber dela. 
Renata estava impressionada com as passagens da vida da av de Artur. Teve vontade de conhec-la pessoalmente, pois viu naquela mulher uma fora interior invejvel, 
enfrentando a tudo e a todos com altivez. Em seu ntimo, Renata desejou ter um dcimo da fora interior que enxergou na av materna de Artur, pois no se sentia 
com coragem o suficiente para enfrentar situaes infinitamente menos complicadas, como o rompimento definitivo com o namorado, por exemplo.

- Que raa teve a sua av! Ela voltou a se casar?
- Teve alguns relacionamentos, mas no se casou com ningum. Como o corpo do vov Zez nunca foi encontrado, no incio ela chegou a alimentar esperanas de que ele 
no tivesse morrido. Ele foi o grande amor da vida dela; por isso, no quis casar novamente.
- Voc conhece Pedra Rosada? - tornou Renata.
- No. A cidade traz lembranas horrveis para a vov Maria. Ela nunca mais voltou l. A mame tambm nunca quis conhecer Pedra Rosada, pois sabia o quanto aquele 
lugar significava em termos de sofrimento para a vov. Ns no temos mais nenhum parente por l.
- A sua av ainda mora em Trancoso?
- Mora, sim. Apesar de no ter encontrado outro homem pelo qual viesse a se apaixonar, ela encontrou paz naquele lugar. Ela tem uma pousada no Quadrado, prxima 
 igrejinha. Voc conhece Trancoso?
- No. J estive em Porto Seguro e Arraial D'ajuda, mas no cheguei a ir para Trancoso.
Artur lanou um olhar para Renata e sentiu-se tentado a convid-la para passar uns dias na pousada de sua av, mas lembrou-se do convite para o jantar que foi recusado 
por ela e desistiu de fazer nova investida.
Eles ouviram barulhos de passos e olharam para a direita. Era o mdico trazendo os resultados dos exames. Como era de se esperar, nenhuma leso grave foi detectada. 
Artur deveria ir para casa e repousar durante o resto do dia.
Renata se disps a lev-lo  empresa, onde ele pegaria o carro.
- Se no for incmodo, prefiro que voc me leve direto para a minha casa. No quero dirigir agora. Vou deixar o meu carro na garagem da construtora.
Durante o percurso, Artur contou para Renata sobre o misterioso homem que apareceu dentro do veculo para retir-lo, salvando a sua vida.

- Voc no o viu do lado de fora do carro, depois de ser salvo? 
- Eu o vi de relance, mas fui informado pelo Willian que no tinha ningum por perto. Ele disse que eu sa do carro sozinho, mas tenho certeza de que fui socorrido 
por esse homem. Eu no estou ficando louco. 
- Voc tem certeza de no ter desmaiado por alguns breves segundos? 
Artur olhou para Renata, com certo desapontamento. 
- Voc tambm no acredita em mim, no ? 
- No  isso. Apenas acho que no se pode descartar nenhuma hiptese para explicar o ocorrido. Procure descansar, Artur. No fique pensando sobre o que ocorreu. 
Tome um banho quente e v dormir. O acidente, por si s, j deixar um trauma.
Renata estacionou o carro em frente  portaria do prdio onde Artur morava e beijou carinhosamente a sua face. Por alguns segundos, seus olhares se cruzaram. Ambos 
permaneceram em silncio. A vontade dele era de beij-la e abra-la, mas sentia que ela ainda gostava de Adriano e que uma atitude precipitada poderia colocar tudo 
a perder. Despediram-se com um abrao afetuoso. Artur desceu do carro e ficou esperando Renata arrancar o veculo. Depois, virou-se e entrou no edifcio. 
Rosemeire levou um susto quando o viu com os curativos na face e a camisa suja de sangue. 
- O que  isso?
- Nada de mais grave. Tive um acidente de carro, mas estou bem. Fui ao hospital, fiz todos os exames necessrios e nada de srio foi constatado.
Artur teve de contar todos os detalhes do acidente, apenas omitindo a parte em que recebeu a ajuda de um homem.
Rosemeire chorou bastante ao ouvir o ocorrido. A lembrana da morte do pai foi inevitvel, ante a semelhana entre os dois acidentes. 
- S me faltava esta: perder o nico filho. Se voc morresse, eu no sei se suportaria a vida.
Artur levantou o dedo indicador, movendo-o para um lado e outro, em sinal de reprovao.
- No coloque tanta responsabilidade assim sobre mim.  preciso que a senhora encontre outros motivos para ser feliz. No me leve a mal, mas no quero que a senhora 
fique dependente de mim.
- Eu tambm no quero meu filho. Desculpe-me, mas eu s tenho voc perto de mim. A mame est a mil quilmetros de distncia e seu pai... Ah!

Esse  como se no existisse. A minha vida  marcada por tragdias.
- No jogue a culpa na vida pela sua infelicidade. Ns somos responsveis por tudo que nos acontece. Com essa mgoa que a senhora carrega do papai, ser difcil 
encontrar paz.
- Um dia a mgoa passar.
- Antecipe a chegada desse dia - tornou Artur. - Eu fiz isso. Procurei o papai e pedi desculpas por t-lo ignorado nesses meses. A partir de agora, eu quero voltar 
a conviver com ele.
Rosemeire no escondeu o cime pelo fato de o filho ter reatado o relacionamento com o pai. At ento, para se vingar do ex-marido, ela fazia chantagem emocional 
com o filho, para que ele evitasse o pai.
Artur percebeu a indignao de sua me. Sentiu que teria trabalho para convenc-la de que ele precisava reatar o relacionamento com o pai, pois o isolamento estava 
sendo prejudicial para ele prprio.
- A irm da Renata foi presa, sexta-feira  noite. Ela me telefonou, pedindo para acompanh-la  delegacia, pois no conhecia nenhum advogado e havia brigado com 
o namorado. Eu no tive alternativa.
O olhar de Rosemeire no escondeu a surpresa com a atitude do filho. Artur tentou contornar a situao.
- Foi um erro terrvel este afastamento nosso. Ele nunca deixar de ser o meu pai, independente dos erros que venha a cometer. O problema que vocs enfrentaram no 
diminuiu em nada o amor que ele tem por mim, nem o que eu tenho por ele.  preciso que a senhora entenda isso.
Rosemeire balanou a cabea, em sinal afirmativo, demonstrando resignao com a aproximao entre o filho e o ex-marido.
- Voc est certo. Quando voc decidiu, por conta prpria, afastar-se dele, eu confesso que achei bom, porque tinha esperana de que o seu distanciamento o fizesse 
rever a deciso da separao. Infantilidade minha. Ns no seramos felizes, se ele voltasse para casa por sua causa e no por saudades de mim. Parabns pela deciso 
de reatar o relacionamento com ele.
Em seguida, Rosemeire levantou-se do sof e caminhou lentamente em direo ao seu quarto. A fisionomia abatida denunciava que no havia esquecido o ex-marido. Sempre 
que o assunto girava em torno dele, sentia uma aperto no corao e uma vontade enorme de telefonar para ele. Os oito meses de separao no foram suficientes para 
tornar menor a saudade que sentia.



CAPTULO
IX


Quando Alexandre recebeu a notcia do acidente do filho, o corao do experiente advogado bateu mais forte. Logo agora, que eles haviam feito as pazes, a morte do 
filho seria um golpe muito duro de absorver. Alexandre sentiu imensa gratido por Deus ter poupado a vida de Artur. Essa gratido ele fez questo de externar na 
conversa telefnica, a fim de que o filho tambm reconhecesse o dedo de Deus guiando a sua vida.
- Isso foi um milagre, Artur. As mos do Senhor livraram voc da morte. Para Deus tudo  possvel; a vontade d'Ele  soberana. Ele quer que voc viva porque tem 
um plano perfeito para executar em sua vida.
Artur lembrou-se da longa data em que evitou ter contato com seu genitor. Sentiu-se aliviado por ter pedido desculpas a ele antes de o acidente acontecer.
- Pai, seria muito ruim se eu tivesse morrido sem lhe pedir perdo.
Alexandre percebeu que a voz de Artur estava saindo engasgada. Mais um pouco e ele ouviu os soluos. O choro do filho emocionou o advogado, pois este percebeu o 
arrependimento do filho pelo perodo de afastamento. Por alguns instantes, ambos choraram, sem nada dizer.
Assim que se recomps, Artur continuou:
- Obrigado por me perdoar. Eu estou triste comigo, por ter me comportado de forma to infantil.
- Eu seria tolo, se no o perdoasse, meu filho, Jesus nos ensinou: "atire a primeira pedra quem no tem pecado". Qual de ns nunca errou? A minha vida  repleta 
de erros; por isso mesmo, no posso exigir que as pessoas no errem comigo. O importante  que Deus nos mostrou o caminho da reconciliao e poupou a sua vida. Vamos 
olhar para frente e lembrarmo-nos do passado apenas quando for til para evitar novos erros.
As palavras de seu pai aliviaram a dor moral sentida por Artur. Aps curto silncio, Alexandre prosseguiu.

- Eu imagino o aperto por que voc passou. Deve ter sido horrvel.
- Tudo aconteceu muito rpido - respondeu Artur. - De uma hora para outra eu vi a morte na minha frente. Em poucos segundos, muitas coisas passaram pela minha cabea.
- Quais coisas?
- O que mais chamou a minha ateno foi o pouco valor que ns damos ao que  necessrio para sermos felizes. Em nosso dia-a-dia, muitas vezes, corremos atrs de 
objetivos que no fazem a diferena para a nossa felicidade. Por outro lado, deixamos de empregar a nossa energia e o nosso tempo com o que tem valor, como, por 
exemplo, o perfume das flores, um abrao amigo, um sorriso espontneo, um pedido de perdo, dar a mo a quem precisa, aceitar a ajuda de quem se oferece. Tudo isso 
tem valor, entre outras coisas simples. Infelizmente, a corrida desenfreada pela aquisio de bens materiais ou pela prpria sobrevivncia acabam nos cegando para 
os verdadeiros valores da vida. Sinto que estou no meio dessa corrida louca, mas quero sair fora dela e seguir o meu caminho no meu prprio ritmo. Hoje, eu renasci 
na carne, mas quero ir mais longe. A partir de agora, quero renascer no esprito. Ao invs de ficar olhando para os outros, quero olhar para dentro de mim e descobrir 
quem eu sou e o que posso fazer para melhorar o mundo. Sinto que, se eu tivesse morrido hoje, teria feito muito pouco da minha vida. Quero aproveitar o meu tempo 
e a minha capacidade para realizar projetos que sejam teis para as pessoas.
- Fico feliz com a sua postura diante de um momento delicado em sua vida, meu filho. As dificuldades que enfrentamos podem ser teis para o nosso fortalecimento.
- A situao por que passei foi suficiente para me despertar. Vi o tanto que o nosso corpo fsico  frgil. Em uma frao de segundos, uma pessoa forte e saudvel 
pode perder a vida. Quando chega a hora de partir, no tem dinheiro que segure a pessoa nesta vida. H uma vontade superior,  qual estamos ligados ininterruptamente. 
Essa vontade superior tem o controle sobre as nossas vidas. Do mais poderoso ao mais humilde, sem distino, todos esto ligados a essa vontade superior. Portanto, 
nada mais certo do que exercer a humildade.  o que vou procurar fazer a partir de agora. Esse mundo d muitas voltas e as pessoas mudam de posies nessas voltas. 
O rico fica pobre e o pobre fica rico; o saudvel perde a sade e o doente fica curado.


Definitivamente, Artur no era a mesma pessoa de quando Alexandre saiu de casa, oito meses atrs. quela poca, ele se preocupava basicamente com o trabalho e com 
as paqueras. Encerraram o dilogo com um cordial "at mais".
Sozinha em seu quarto, Rosemeire lembrava-se com nostalgia do perodo feliz do casamento. A solido daquele momento trouxe uma profunda saudade de sua me. No se 
viam h cinco meses, desde quando Rosemeire voltou de Trancoso, onde passou frias de quinze dias. Aps esse perodo, mesmo as conversas por telefone tinham se tornado 
mais raras.
Impulsionada pela saudade, Rosemeire pegou o telefone e discou para ela. Assim que Maria atendeu a chamada, ouviu o choro da filha. 
- O que aconteceu, Rosemeire?
- Nada, mame. Estou triste porque estou me sentindo muito s. Queria tanto o colo da senhora!
Maria sentiu o corao ficar apertado, diante da tristeza da filha. No fosse a distncia que separa Belo Horizonte de Trancoso, correria at ela para abra-la.
- Fique calma, essa dor vai passar. Tudo nessa vida passa. Veja o quanto eu j sofri! Hoje, eu tenho paz em meu corao.
- Paz: isso  tudo o que eu quero para a minha vida - tornou Rosemeire. - No aguento mais essa dor.
- Eu j passei por isso, minha filha. Sei o que voc est sentindo. Nessa situao, a gente no consegue enxergar uma luz no fim do tnel. Mesmo que assim seja, 
no olhe para trs, siga sempre para frente. Em cada passo, deixe um pouco de mgoa para trs. As lgrimas de hoje prepararo o terreno para a alegria e a paz brotarem 
em seu corao, desde que voc aceite as coisas que aconteceram e procure tirar as lies para melhorar sua conduta. No resista  nova realidade da sua vida, adapte-se 
a ela. Siga o fluxo dos acontecimentos, buscando o melhor para si, sem revolta.
A medida que Maria falava, Rosemeire comeou a sentir o corao mais aliviado. O seu sofrimento poderia ser considerado pequeno, caso comparado com o da sua me 
aps a morte do irmo pelo prprio marido.

- Minha filha, tire uma semana de licena no servio e venha visitar-me. Tenho certeza de que os ares da Bahia lhe faro muito bem.
Rosemeire enxugou uma lgrima; j estava se sentindo mais fortalecida.
- Prefiro que a senhora passe uns dias comigo. Quando vir a Belo Horizonte?
- Em breve, aparecerei por a.
- Venha fazer uma visita ao Artur. Ele sofreu um acidente de carro, mas est tudo bem, sofreu apenas alguns cortes.
- Eu j falei para ele dirigir com cuidado. O que aconteceu?
- Um acidente parecido com o que vitimou o papai. Ele capotou o carro e caiu na lagoa. Foi salvo por um milagre.
Maria sentiu as pernas bambearem. Em sua mente, logo veio a lembrana da morte do marido.
- Diga ao Artur que, em breve, eu irei visit-lo. Em minhas oraes, vou agradecer a Deus por esse milagre.
Rosemeire despediu-se da me e desligou o telefone. Decidiu que tiraria uma semana de licena mdica no servio. Precisava ter tranquilidade para traar metas a 
serem seguidas.
Aos quarenta e sete anos de idade, apesar de se mostrar uma mulher bonita, que atraa a ateno dos homens, Rosemeire no estava disposta a comear um relacionamento 
com outro homem.
Distante dali, Maria saiu da pousada para passear pelo Quadrado de Trancoso. Em sua mo, carregava uma fotografia do marido. Quarenta e oito anos aps a morte dele, 
ela guardava o mesmo amor por Zez. Nesse perodo, vrios homens tentaram conquistar seu corao, mas nenhum deles conseguiu alcanar este objetivo. Maria tinha 
certeza de que o encontraria quando morresse.
O cu sobre Trancoso estava sem nuvens. Maria caminhou pelo gramado at o centro do Quadrado. De um lado e de outro, as lojinhas recebiam turistas de todos os continentes. 
Algumas pessoas jantavam na Portinha, o restaurante mais popular dali. A escurido do Quadrado realava o brilho das estrelas, tornando-as ainda mais belas. Maria 
olhou para o alto e mentalizou o marido, pedindo a ele que intercedesse junto aos anjos para acalmarem a sua filha.

Ali, ela permaneceu por alguns minutos em orao. Aproveitou para agradecer pela vida do neto ter sido poupada. Depois, seguiu em direo ao mirante que ficava atrs 
da igrejinha. Ficou observando o mar, ouvindo o barulho das ondas, enquanto sentia o vento soprar seus cabelos. Fechou os olhos e imaginou Zez aproximando-se para 
abra-la, como ele tinha o hbito de fazer sempre que ela estava no quintal da casa onde moravam em Pedra Rosada,  beira do rio Bonito.
Maria beijou a fotografia de Zez, na certeza de que algum dia, em algum lugar, eles se reencontrariam, a fim de viverem o grande amor que foi interrompido por uma 
fatalidade.
Ao retornar para a pousada, decidiu parar no meio do caminho para comer uma torta de chocolate com maracuj. Sentou-se em uma cadeira e ficou escutando o rapaz que 
cantava, acompanhado apenas de um violo.




CAPTULO 
X


Na casa de Renata, todos ficaram chocados com a notcia do acidente de Artur. A gratido pela ajuda dispensada a Denise era um sentimento unnime na famlia. Denise 
decidiu retribuir a solidariedade, acompanhando Renata na visita que a irm faria a ele.
Renata telefonou para Artur e marcou a visita. A notcia foi mal recebida por Rosemeire. Em depresso, ela no queria receber ningum em sua casa. Naquele dia, ela 
havia ido ao mdico pegar o atestado de licena mdica por uma semana.
Quando Renata e Denise chegaram, Rosemeire estava em seu quarto, de onde ouvia a conversa. Uma voz meiga chamou a sua ateno e Rosemeire ficou curiosa para conhecer 
a moa. Ento, ela caminhou at a sala. L chegando, foi apresentada s irms e descobriu que a voz delicada era de Denise.
Rosemeire fitou-a, atrada por uma fora misteriosa. Naquele momento, esqueceu a depresso. Sentiu por Denise um carinho diferente, semelhante ao de uma me por 
uma filha.
Denise era uma moa muito bonita. Rosemeire enxergou nela a filha que sempre quis ter, somente no levando o sonho adiante pela resistncia de Alexandre em ter outro 
filho.
O encantamento que Rosemeire teve com Denise foi tamanho, que ela decidiu permanecer na sala, visando conhec-la melhor.

No transcorrer da conversa, Rosemeire e Denise descobriram algumas afinidades. Aps a me de Artur revelar o seu gosto pela culinria, sobretudo a de origem portuguesa, 
Denise se ofereceu para retornar na sexta-feira seguinte para preparar um bacalhau.
Quando os visitantes foram embora, Rosemeire estava sentindo-se melhor. Em seus pensamentos, a imagem de Denise estava muito forte e ela estava feliz por poder reencontr-la 
ainda naquela semana.
Pela primeira vez, naquele dia, ela dirigiu a palavra a Artur demonstrando certo contentamento.
- Elas so muito simpticas.
- So pessoas bonssimas, mame. O que a senhora achou da Renata? Serve para ser sua nora?
Rosemeire encarou o filho, lamentando no poder dar a resposta que ele desejava ouvir.
- Posso ser franca?
- Claro!
- Ela parece ser uma pessoa excelente, mas, no meu corao de me, eu no vi muita afinidade entre vocs dois.
Artur estranhou a convico com que sua me exps o ponto de vista; afinal, ela teve pouqussimo contato com Renata para chegar quela concluso.
- Como assim? - perguntou ele.
Rosemeire deu um leve sorriso antes de responder.
- Coisas de me. Acho que vocs dois no tm nada a ver um com o outro.
- A senhora no a conhece o suficiente para falar isso - disse Artur, desapontado com a resposta.
- Corao de me costuma acertar. Sinceramente, eu achei a Denise mais bonita e mais simptica do que a Renata. Ela parece ter o corao to bom! O fato de ter sido 
presa no denigre a imagem dela. Creio que ela esteja precisando de um homem maduro ao seu lado para influenci-la positivamente. Quem sabe esse homem no  voc?
- Eu percebi que a senhora gostou dela, mas eu estou a fim  da Renata.  nela que vou investir.
- A Denise estava olhando para voc de um jeito diferente - tornou Rosemeire.
- A senhora quer dizer que ela estava me olhando com um certo interesse?
- 
- Exatamente. Eu vi nos olhos dela um interesse especial por voc. Que olhos lindos ela tem!
Artur deu um sorriso tmido. Apesar de estar interessado em Renata, achou Denise muito atraente.
- Realmente, ela  muito bonita. Quando a vi na delegacia, eu no percebi a beleza dela. Talvez porque ela estava com o rosto inchado, de tanto chorar.
- Acho que voc est investindo na pessoa errada. Ainda  tempo de corrigir.
- A senhora sabe que eu no curto drogas. Eu no me casaria com uma menina que fizesse uso de maconha.
- Ela  uma menina nova - ponderou Rosemeire. - Qualquer momento  tempo de largar as drogas. Talvez voc possa ajud-la nesse sentido.
- Ela  uma moa bastante atraente, mas eu acho que a Renata tem mais a ver comigo.
- O tempo mostrar que voc est errado. O meu corao no est enganado.
Artur aproveitou a descontrao de sua me para incentiv-la a buscar meios de afastar o estado depressivo.
- Falando em corao, volto a insistir: est na hora de a senhora olhar para frente e viver a sua vida. At quando ficar nesta situao? O que a senhora viveu com 
o papai foi muito bom, mas acabou. No
adianta ficar olhando para trs. Levante a cabea e siga em frente. A vida  uma caixinha de surpresas, boas e ruins. Da mesma forma que a sua vida piorou, nada 
impede que possa voltar a melhorar. Agora, se a senhora no reagir, as coisas podem piorar. Por que a senhora no continua a terapia com a doutora Cludia?
- No estou com nimo para fazer terapia. Acho difcil a minha vida piorar. J cheguei ao fundo do poo. S o tempo ir me ajudar. 
- No fale bobagem. Preste ateno nas pessoas que passaram pela mesma dor e conseguiram dar a volta por cima.
Rosemeire ficou em silncio por alguns segundos, lembrando-se das pessoas que haviam partido da sua vida.
- No  simples sair dessa situao. A minha vida registra traumas considerveis, a comear pela morte do meu pai, quando eu sequer havia nascido. No bastasse, 
veio a revolta do meu av querendo que a mame abortasse. Tudo isso est registrado em minha mente. Em seguida, a fuga dela para salvar a minha vida. Apesar de estar 
no tero, eu vivenciei todo esse drama. Como a mame est a mil quilmetros de distncia, posso dizer que a minha nica companhia tem sido voc.

Artur balanou a cabea, mostrando-se ciente da dor que a sua me estava sentindo.
- Eu sei que  difcil. No  fcil lidar com as perdas.  como se um pedao da gente fosse junto com a pessoa que partiu, mas no resta alternativa que no seja 
lutar para reconstruir a vida.
As lgrimas rolaram pela face de Rosemeire, em um choro silencioso.
- s vezes, fico me perguntando o que eu fiz para passar por tantos momentos ruins. Um dia, espero encontrar a resposta para esta pergunta.
Artur estava ficando cada vez mais preocupado com a depresso de sua me. Sentiu que precisaria se desdobrar para ajud-la a encarar vida com mais otimismo e alegria 
de viver. O acidente na lagoa serviu para lhe mostrar que possua uma imensa fora interior, a qual ele estava disposto a usar em prol do prximo.
- Depois do acidente, comecei a rever alguns conceitos. Pude perceber que os meus problemas so pequenos em vista do que algumas pessoas sofrem. Na verdade, desde 
sexta-feira, quando procurei o meu pai, comecei a pensar que poderia estar agindo de forma equivocada ao manter um isolamento dele. O acidente me trouxe a certeza 
do quanto eu estava sendo injusto com ele.
Rosemeire ouvia atentamente o posicionamento do filho.
- Com o acidente, eu senti o tanto que ns somos frgeis. Muitas vezes, nos achamos os donos da verdade, ficamos arrogantes, mas no passamos de simples mortais, 
sujeitos a todo tipo de intemprie. Por que julgar os outros? Ns no somos melhores do que ningum para crucificar aqueles que erram. Tambm temos os nossos defeitos 
e as nossas fraquezas. Quem sou eu para julgar o prximo? Ns nos conhecemos muito superficialmente. S Deus tem uma viso completa de tudo. A passagem bblica em 
que Pedro nega Jesus por trs vezes retrata bem isso. Pedro disse que estava preparado para ir com Jesus at a priso e a morte, mas Jesus respondeu que, antes que 
o galo cantasse trs vezes, Pedro o negaria, ainda naquela noite, o que de fato ocorreu. Essa  a verdade: ns no nos conhecemos o suficiente para saber como agiramos 
em determinadas situaes. Por isso, no devemos julgar ningum. O julgamento e a justia pertencem a Deus. Eu sempre olhei muito para o defeito dos outros e nunca 
procurei fazer uma anlise do meu comportamento diante de determinadas situaes. Confesso que o acidente fez com que eu voltasse a ateno para as coisas que se 
passam em meu ntimo. Sinto que hoje sou um homem mais sensvel.

Rosemeire ficou admirada com o novo posicionamento do filho. Sentiu que ele poderia estar com a razo.
- Talvez, eu no tenha chegado ao fundo do poo e seja necessrio acontecer algo de ruim comigo para eu despertar, como voc est falando. 
- No fale assim! A situao j comea a melhorar s porque pensamos de maneira positiva. Nada de ruim precisa acontecer. Procure ter o corao mais leve e j ver 
uma mudana na sua vida.
- Est bem. Se isso o deixa mais tranquilo, eu vou tentar seguir o seu conselho. Agora, eu vou assistir  minha novela.
Em seguida, Rosemeire se levantou, beijou a testa do filho e foi para o seu quarto, onde voltou a pensar em Denise. A imagem dela estava viva em sua mente.





CAPTULO
XI




Atendendo ao pedido do doutor Alexandre, que tinha interesse em dar celeridade ao caso de Denise, o juiz de direito designou a audincia para aquela semana mesmo, 
s treze horas da sexta-feira. A finalidade da audincia era verificar se Denise aceitaria ou no a proposta que o promotor de justia faria.
Denise telefonou para Rosemeire e combinou de ir  sua casa aps a audincia, a fim de prepararem o bacalhau que seria servido no jantar daquele mesmo dia.
Era a primeira vez que Denise estava pisando em um frum. Logo na entrada, assustou-se com o aparato de segurana. Ao passar pela porta com o detector de metais, 
o alarme soou e ela precisou abrir a bolsa para o segurana conferir o que tinha em seu interior.
O encontro com o doutor Alexandre foi marcado para as doze horas e quarenta e cinco minutos, na lanchonete do frum.
Denise chegou antes do horrio marcado e ficou prestando ateno no vai e-vem de pessoas. Os advogados caminhavam elegantemente, com seus ternos e pastas de couro. 
J as advogadas desfilavam com vestidos de muito bom gosto.
A beleza e a elegncia deles contrastavam com a tristeza da maioria das pessoas que ali estavam. Eram mes de presos que aproveitavam a presena dos filhos nas audincias 
para matarem a saudade; por ali, passavam tambm os casais que estavam sacramentando a separao, trazendo no rosto a marca da tristeza por um relacionamento que 
no havia dado certo.
Um homem passou por Denise resmungando contra a lentido da justia. H mais de quinze anos, aguardava uma deciso judicial em uma ao ajuizada contra o Estado.

-  melhor ser credor de bandido do que do Estado - bradou ele, furiosamente.
Em pouco tempo, Denise percebeu que o ambiente de um frum era to pesado quanto o de um hospital. Depois de alguns minutos, viu o doutor Alexandre aproximar-se 
em passos rpidos.
- Vamos l, porque eu tenho outra audincia dentro de trinta minutos. Voc est tranquila?
- Mais ou menos. Acho que estou envergonhada por estar aqui.
-  natural que assim seja. A audincia  muito simples, no precisa ficar nervosa. Eu estarei ao seu lado para esclarecer qualquer dvida. Quanto antes voc cumprir 
a pena, melhor ser.
A audincia comeou com dez minutos de atraso, mas foi mais rpida do que Denise esperava. Ela no hesitou em aceitar a proposta feita pelo promotor de justia: 
cumprir prestao de servios  comunidade pelo prazo de dois meses, durante sete horas por semana. O cumprimento desta pena evitava o processo criminal. Aps ela 
assinar o termo de compromisso de cumprimento da pena, foi encaminhada para o setor de fiscalizao das penas substitutivas. L, despediu-se do doutor Alexandre, 
que seguiu para a outra vara criminal, onde o seu cliente j o aguardava.
Denise enfrentou uma pequena fila para saber a entidade onde cumpriria a pena. Foi atendida pela psicloga de nome Judite, recebendo da mesma uma folha fazendo o 
encaminhamento para a Casa de Apoio, local destinado a receber crianas com cncer, at que fosse concluda a construo do Hospital Infantil do Cncer.
Denise ficou abatida com a informao. Definitivamente, ela no gostava de ir a hospitais. Sofria ao ver a dor dos doentes e acidentados, bem como o desespero dos 
parentes e amigos. Atendendo recomendao da doutora Judite, Denise seguiu diretamente do frum para a Casa de Apoio. L chegando, foi atendida pela secretria de 
nome Carla, a qual, depois de analisar o documento expedido pelo setor de fiscalizao das penas substitutivas, decidiu encaminhar Denise para auxiliar a doutora 
Beatriz, mdica que trabalhava voluntariamente no hospital uma vez por semana.

- Venha c para voc conhecer as dependncias da nossa Casa de Apoio, que  considerada a unidade nmero um do Hospital Infantil do Cncer. O hospital est sendo 
construdo no municpio de Juatuba, num terreno de cento e dois mil metros quadrados.
"Este  o ambulatrio, onde fica o consultrio da doutora Beatriz. Temos ainda consultrios de psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagogia 
e odontologia."
A medida que caminhavam, passavam por algumas crianas, cuja idade variava de trs a doze anos.
- Nesta ala, ns temos a brinquedoteca e a sala de computao. Ali, a seo da assistncia social.
Denise comeou a achar interessante o lugar e procurou ter novas informaes.
- Esta Casa de Apoio tem capacidade para atender quantas pessoas?
- Ns temos vinte leitos, todos com acompanhante.
- Que tipo de trabalho ficarei incumbida de fazer?
- Voc marcar todos os tratamentos de quimio e radioterapia que a doutora Beatriz designar, providenciando o transporte das crianas at o hospital. Alm disso, 
voc entregar aos pais das crianas os medicamentos prescritos pela doutora Beatriz que no forem fornecidos pelo SUS. Ns temos uma pequena farmcia aqui, de forma 
que nenhum paciente fica sem medicamento.
Denise comeou a ficar admirada com o trabalho realizado naquela instituio. A ateno de Carla deixou-a bem impressionada com a qualidade do trabalho prestado.
- Como voc j deve ter percebido, os nossos pacientes so pessoas humildes. Ns fornecemos, inclusive, vale transporte para eles. Esta ser mais uma tarefa para 
voc cumprir. Por fim, voc nos ajudar a montar a cesta bsica mensal que damos a cada um. Agora, vamos aguardar a doutora Beatriz terminar a consulta para eu apresent-la 
a voc.
Mal acabou de se acomodar na cadeira, Denise presenciou quando um casal entrou chorando pela porta principal.
- Eles so do vale do Jequitinhonha. O filho fez tratamento conosco por um ano. Infelizmente, ele morreu hoje pela manh. Esto providenciando o transporte do corpo 
para ser enterrado na cidade de Almenara.

- Vocs recebem muitos pacientes do interior?
- A maioria. Acredito que noventa por cento. Eles ficam alojados aqui mesmo. Quando  preciso fazer algum procedimento hospitalar, ns providenciamos o transporte. 
Muitos ficam vrios meses sem voltar para casa. Alguns, nunca mais voltam.
- Deve ser muito triste ver morrer uma criana lutando contra o cncer.
- De fato  doloroso, mas tem o lado bom - ponderou Carla. -  muito gratificante quando conseguimos curar uma criana que aqui chegou em estado precrio de sade. 
Voc no imagina as lies de vida que presenciamos. Muitos adultos que reclamam da vida sem motivo deveriam vir aqui para ver a garra como esses garotos lutam pela 
sobrevivncia.
- Vocs atendem  demanda de todo o Estado?
- Atendemos. O nosso trabalho est sendo divulgado em todas as cidades. J estamos com dificuldade para liberar vaga. A Casa de Apoio est sempre lotada. Esperamos 
resolver este problema com a construo do hospital. Ser um local espaoso, com muito verde e com todos os equipamentos necessrios para desempenharmos um bom trabalho.
A porta da sala de consulta foi aberta, saindo de l uma garota de onze anos de idade, aproximadamente. Tinha cabelos ralos, em funo do tratamento de quimioterapia.
Carla aproveitou para levar Denise  presena da mdica.
- Vou apresent-la  doutora Beatriz. Ela  uma da melhores oncologistas de Belo Horizonte.
A mdica estava sentada em uma cadeira atrs da mesa. Vestia roupa branca e usava culos. Os cabelos presos e os culos no escondiam a sua beleza.
- Doutora Beatriz, esta  a Denise. Ela foi encaminhada para cumprir a pena de prestao de servios  comunidade.
A mdica lanou um olhar para Denise, como se quisesse saber o crime que ela havia praticado.
- Muito prazer. Por favor, sente-se.
A aparente calma de Denise desapareceu diante do olhar penetrante da mdica. Dali em diante, ela deveria cumprir ordens. Carla retirou-se, deixando-as a ss.
- Uma moa bonita e saudvel tendo problemas com a justia. O que voc fez de errado?
Denise sentiu o corao acelerar. No esperava pela pergunta. Pensou que apenas deveria prestar o servio, sem precisar dar maiores satisfaes de sua vida. Falar 
sobre o uso de droga era constrangedor, sobretudo para uma desconhecida que estava em uma posio de superioridade hierrquica.
- Eu fui flagrada fumando maconha - respondeu a contragosto.
- Este  um grande problema da sociedade - tornou a mdica. - Os jovens so assediados, cada vez com maior frequncia, para fazerem uso de drogas ilcitas. Aqui 
na Casa de Apoio ns tivemos problemas srios com um usurio de crack. Suspendemos a prestao de servios gratuitos por um bom tempo. Voc  a primeira pessoa que 
estamos recebendo aps esse fato. S retomamos o convnio com a Vara de Execues Penais, porque nos garantiram que no mandariam pessoas com desvio acentuado de 
conduta. Portanto, a sua responsabilidade  muito grande. Se tivermos problemas com voc, suspenderemos o convnio novamente.
Denise teve vontade de sair correndo. No estava ali para assumir tal responsabilidade.  primeira vista, a mdica no demonstrou ter o corao generoso mencionado 
por Carla.
- Eu vou me esforar para no decepcion-la - afirmou Denise. 
- Por favor, eu no quis constrang-la, mas  minha obrigao esclarecer sobre a necessidade de voc manter uma boa conduta, pois o bom ambiente aqui  fundamental 
para a melhora dos nossos pacientes.
A mdica sorriu para Denise, demonstrando ternura em seu olhar, o que mudou a primeira impresso ruim que Denise havia tido dela. Em seguida, Beatriz prosseguiu:
- Eu no vou julg-la, mesmo porque, quando jovem, eu tambm me envolvi com drogas. Foi um perodo difcil da minha vida, de amargas recordaes. Eu levei alguns 
tombos feios e decidi dar outro rumo a minha vida. Desculpe-me, mas sinto-me na obrigao de dar este breve testemunho porque vejo que voc tambm levou um tombo 
causado pelo uso de maconha.
Denise deu um sorriso sem graa, como se estivesse concordando com a mdica. Sentiu-se atrada pelo olhar sofrido dela e teve vontade de ajud-la de alguma a forma, 
pois o seu semblante no escondia a tristeza que habitava a sua alma.
Em seguida, Beatriz mudou de assunto, passando a tratar do servios a ser prestado por Denise.

- O trabalho que voc desempenhar  muito simples, mas eu preciso do seu compromisso com o horrio que ns combinarmos.
- A senhora pode ficar tranquila, porque eu farei tudo certinho. Quero cumprir a pena o mais rpido possvel.
- Podemos marcar para voc vir s segundas-feiras, das nove  dezessete horas, com uma hora de intervalo para o almoo?
- Perfeitamente. O horrio est bom para mim.
- Ento, boa sorte. Espero que tenha um bom final de semana.
- Igualmente, doutora.
Denise despediu-se da mdica e saiu em direo  casa de Rosemeire. Enquanto dirigia o carro pelas ruas engarrafadas, comeou a pensar em uma forma de agradar Artur. 
Ao passar por uma loja de chocolate caseiro, Denise decidiu comprar trufas para ele. Aps visit-lo, a imagem dele no saa de sua mente.
Quando Rosemeire recebeu as trufas, ficou ainda mais encantada com Denise e viu nela a esposa que sempre desejou para o filho.
- Obrigada pela gentileza. Voc acertou em cheio. O Artur  viciado em chocolate.
- Ele est melhor?
- Est sim. Hoje j foi trabalhar.
- Ele ir jantar conosco?
- Com certeza. Ele disse que est louco de vontade de comer bacalhau.
Enquanto preparavam o bacalhau, Denise comentou sobre a audincia.
- O Alexandre foi com voc? - perguntou Rosemeire, ansiosa por ter notcias do ex-marido.
- Foi, sim. Eu tenho uma gratido imensa por ele. Graas a Deus est dando tudo certo. J fui encaminhada para o Hospital Infantil do Cncer. Vou trabalhar com uma 
mdica que tem fama de ser muito competente. Ela parece ser uma pessoa muito boa, apesar de carregar um semblante sofrido.
O assunto da mdica no interessava a Rosemeire, que logo tratou de obter mais informaes sobre o ex-marido.
- Voc falou ao Alexandre sobre o bacalhau?
- No. O nosso encontro foi muito rpido.
-  um dos pratos prediletos dele.
- A Renata comentou que vocs esto separados. Deve ser uma fase difcil.

Apesar do pouco contato, Rosemeire estava se sentindo  vontade para falar do seu sofrimento com Denise. Via de regra, ela evitava falar sobre o ex-marido com outras 
pessoas, com exceo do prprio filho.
- Toda separao  dolorosa. Implica em romper com uma situao na qual, bem ou mal, voc tinha a falsa percepo de segurana. Estou tentando me recuperar, mas 
no  fcil.
- Apesar de nunca ter casado, nem namorado srio por muito tempo, imagino que a vida a dois no seja fcil - comentou Denise.
- De fato no , mas acho que todas as pessoas deveriam passar pela experincia do casamento. O relacionamento a dois traz muito aprendizado.
Denise balanou a cabea, concordando com Rosemeire. 
- Eu no tive vontade de me casar com nenhum namorado. Acho que nao gostava o suficiente deles. Atualmente, eu sinto falta de gostar de algum e dividir com esse 
algum as minhas preocupaes, as minhas dificuldades e tambm as minhas alegrias. Chega um momento da vida em que tudo o que desejamos  uma pessoa ao nosso lado. 
Acho que estou nessa fase.
Rosemeire olhou para Denise e teve a sensao de que ela pensou em Artur ao fazer aquele comentrio.
A medida que elas conversavam, tornavam-se mais ntimas e descobriam novos gostos em comum, aumentando a afinidade entre si. Ao final de duas horas, terminaram de 
montar a travessa de bacalhau. Denise agradeceu e despediu-se, dando um abrao afetuoso em Rosemeire.







CAPTULO 
XII


No horrio combinado, Artur e Rosemeire saram de casa para o jantar. Durante o trajeto, Artur pensou na gentileza de Denise ao levar trufas para ele. Se ela estava 
querendo agrad-lo, havia feito o correto, pois ele adorava ganhar flores e chocolates. Comeou a considerar a hiptese de sua me ter razo com relao ao suposto 
interesse de Denise. Tal fato deixou-o um pouco balanado, j no tendo ele a convico de que estava to interessado assim em Renata. Denise, alm de bela, havia 
demonstrado ternura ao levar o chocolate, e ele gostava de mulheres com essa caracterstica.
Ouando chegaram, foram recebidos por Lenidas. 
- Vamos entrar. Fiquem  vontade. Infelizmente, a Renata no participar do jantar.
Artur ficou surpreso com aquela afirmao. Em seu ntimo, achava que o jantar seria uma boa oportunidade para estreitar os laos com Renata.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ele, preocupado com ela. 
Sem esconder a reprovao com a atitude da filha, Lenidas respondeu: 
- No aconteceu nada. Peo desculpas a vocs pela falta dela. Tentei convenc-la a ficar, mas ela disse que precisava conversar com o namorado. Eles brigaram, mas 
o rapaz est insistindo para reatar o namoro. J cansei de falar para ela esquecer esse moo, mas no tem jeito. Ela sempre aceita os pedidos de desculpas. Aposto 
que vai ceder novamente aos argumentos dele. A Denise nos far companhia. Ela est se aprontando.
A informao deixou Artur profundamente decepcionado. Primeiro, por ela aceitar sair para conversar com o namorado. Segundo, porque considerou uma indelicadeza da 
parte dela no ficar para o jantar.

Lenidas levantou-se para pegar os petiscos. Para entrada, comprou queijo holands, presunto italiano, azeitonas chilenas, castanha de caju e bolinho de bacalhau.
Artur sentiu o cheiro de um agradvel perfume. Levantou a cabea e viu Denise caminhando em sua direo. Ela estava com os cabelos molhados e no usava maquiagem. 
Assim que seus olhares se cruzaram, ela sorriu, demonstrando alegria pela presena dele em sua casa
- O seu rosto est menos inchado.
- As trufas que ganhei esto ajudando a desinchar. So deliciosas. No precisava se preocupar. Muito obrigado.
- Imaginei que voc gostasse de chocolate.
- Por qu?
- Voc me parece ser choclatra - respondeu Denise. - Eu tambm sou. Um choclatra reconhece o outro.
Aps cumprimentar Rosemeire, Denise sentou-se ao lado de Artur. Naquela noite, ela parecia estar ainda mais bela.
Denise aproveitava todas as oportunidades para dispensar mais ateno a Artur. Quando algum dos petiscos acabava, ela ia  cozinha e voltava com outro prato.
Rosemeire, que a tudo observava, reforou sua convico. Ela gostou da ausncia de Renata, pois assim seu filho poderia conhecer Denise melhor. Por um motivo ainda 
desconhecido, Rosemeire sentia um carinho inexplicvel por Denise. Em seu ntimo, ela sabia que esse carinho no era fruto da carncia que experimentara nos ltimos 
meses.
O jantar foi servido. A comida estava extremamente saborosa. As lascas de bacalhau desprendiam-se com um simples toque do garfo. Uma autntica bacalhoada portuguesa 
era acompanhada de batatas, azeitonas pretas, pedaos inteiros de alho, cebola, pimento, brcolis, tomate e alguns pedaos de linguia.
Rosemeire ficou lisonjeada com a unanimidade dos elogios, mesmo porque a sinceridade dos mesmos ficou evidenciada pelo tanto que todos comeram. O bacalhau, calculado 
para sete pessoas, foi inteiramente devorado pelos quatro.

***

Distante dali, Renata conversava com Adriano em um restaurante.
- Eu estou pedindo uma ltima chance - insistiu Adriano. - Pensei muito durante a semana e consegui enxergar que tenho cometido vrios erros com voc. As coisas 
vo ser diferentes, eu prometo. Antes, quando ns brigvamos, eu no conseguia ver os meus erros e achava que voc era a culpada pelas nossas brigas. Agora, no 
 mais assim. Admito que estou sendo muito ciumento e sei que preciso melhorar. As palavras de Adriano mexeram com Renata. Ela estava em dvidas sobre aceitar ou 
no o pedido de reconciliao.

- Das outras vezes, voc tambm disse que procuraria melhorar. 
- Era diferente. Eu falava da boca pra fora. Agora eu estou convencido de que preciso mudar. Prometo que me esforarei. 
Apesar de no estar convencida de que o namorado cumpriria a promessa, em seu ntimo Renata queria fazer mais uma tentativa. Ainda gostava dele e tinha uma ponta 
de esperana de que poderiam ser felizes juntos. 
- Voc tem certeza de que no vai ter mais as crises de cimes? 
- Claro que tenho! Vamos comear outra fase em nosso relacionamento. Ns precisamos fazer uma ltima tentativa. Se desistirmos agora, nunca saberemos se a deciso 
foi acertada. Poderemos nos arrepender amargamente, no futuro. Ns no esgotamos os nossos esforos para ficarmos juntos. O importante  que nos gostamos um do outro.
- Gostar no  tudo. Respeito e amizade so fundamentais no namoro. Sinto que faltam esses dois requisitos no nosso relacionamento. 
- Faltavam. Voc no imagina o quanto eu me senti mal depois daquela briga. No quero isso para mim. Eu sofri muito nos ltimos dias. Voc no imagina a dor que 
senti quando vi o seu amigo subindo para o apartamento com voc. Tive vontade de fazer uma bobagem. No consegui dormir. Fiquei contando os minutos, esperando o 
dia amanhecer. Quando voc me contou sobre a priso da Denise, tive vontade de cavar um buraco no cho e enfiar a minha cara l dentro, de tanta vergonha que senti. 
Primeiro, por ter brigado com voc, no estando ao seu lado naquele momento difcil. Depois, por ter suspeitado da sua fidelidade.
Adriano fez uma breve pausa, segurou as mos de Renata, apertando-as levemente, e prosseguiu:
- Teve um lado bom em tudo isso: eu tive a certeza de que voc  a mulher que eu quero para ser a minha esposa, me dos meus filhos. No suportaria ver voc nos 
braos de outro homem.
Renata olhou bem nos olhos do namorado. Pela primeira vez, acreditou que ele estava disposto a mudar o seu comportamento.

- Est bem. Eu vou dar um voto de confiana a voc, mas  a ltima tentativa. No tenho mais estrutura emocional para lidar com o seu cime.
Adriano soltou um sorriso, aliviado com a resposta da namorada. No imaginou que precisaria gastar tanta saliva para convenc-la.
- Pode ter certeza de que voc tomou a deciso correta.
- S o tempo dir se eu fiz bem ou mal.
- Voc no perder por esperar, minha querida. Eu vou fazer de voc a mulher mais feliz desta cidade.
Em seguida, eles se abraaram e comearam a beijar-se repetidas vezes. Quando deram por si, eram os ltimos clientes a permanecer no restaurante. Pediram a conta 
e foram embora.
Renata no estava segura de ter tomado a deciso correta. Sabia que no seria fcil Adriano acabar com o cime doentio de uma hora para outra. Esse processo poderia 
ser demorado. Teria ela pacincia para esperar pela mudana do namorado? S o tempo diria.
J em casa, Artur pensava nas duas irms. Por Renata, sentiu-se atrado em razo da elegncia, charme, postura e competncia profissional. Por Denise, foi atrado 
pela beleza fsica, sensualidade e pelo carinho e ateno que ela lhe estava dispensando.
Ele lembrou-se de uma fase da sua vida, na qual se apaixonava, platonicamente, com muita frequncia. Da mesma forma que a paixo vinha arrebatadora, queimando o 
seu corao, saa para dar lugar a outra paixo, que sempre parecia ser mais forte do que a anterior. Coincidentemente, justo quando estava apaixonado, aparecia 
em sua vida outra mulher muito atraente, que tentava conquistar o seu amor. Envolvido pela paixo platnica que nunca virava namoro, Artur desprezava a mulher que 
tentava conquist-lo. Uma vez superada a paixo, ele ficava arrependido por no ter se envolvido com quem gostava dele. Agora, poderia estar se repetindo o mesmo 
filme em sua vida. Denise poderia significar a oportunidade de viver o relacionamento que ele sempre sonhou.
Ao comparar como seria o namoro com as duas irms, Artur chegou a algumas concluses. O relacionamento ao lado de Renata poderia ser mais tranquilo, tendo em vista 
que ela era mais madura do que a caula. Por outro lado, o namoro com Denise poderia trazer o gosto da novidade, em funo de nunca ter namorado uma mulher seis 
anos mais nova do que ele. Provavelmente, seria um relacionamento mais intenso em termos de programas e encontros. Pensando nas duas irms, ele adormeceu.




CAPTULO
 XIII


Aproveitando a ausncia do pai, que havia sado para fazer as compras do ms, Renata conversou com Denise sobre a reconciliao com Adriano.
- At quando voc vai insistir com o Adriano? Vocs nunca tiveram um perodo de paz no namoro. Eu no vejo voc feliz, h muito tempo. Est na hora de partir para 
outra, no acha?
Renata j imaginava que teria dificuldades em convencer a irm e o pai de que havia tomado a atitude correta ao reatar o namoro, mas, mesmo assim, procurou mostrar 
que eles poderiam estar equivocados.
- Semana passada, depois da nossa briga, eu estava certa de que estava tudo acabado. S que o corao tem razes que a prpria razo desconhece. Eu fiquei inclinada 
a fazer mais uma tentativa. De repente, as coisas podero ser diferentes. Pela primeira vez, eu vi nos olhos dele a disposio em mudar. Acho que desta vez ele teve 
medo de me perder. Talvez comece a agir de forma diferente.
Denise balanou a cabea, recriminando a atitude da irm. 
- Voc  to madura para umas coisas, mas  muito ingnua para outas. Com tanto tempo de convivncia, j deu para voc saber quem  o Adriano. Ele no vai mudar. 
Eu sei que no  fcil a gente se separar da pessoa amada, mas, s vezes, no nos resta alternativa. O mal tem que ser cortado pela raiz, como um tratamento de choque 
para uma doena grave.  impossvel no enxergar que ele est estragando a sua vida!
Renata sabia que havia uma grande possibilidade de Denise estar com a razo. Nesse ponto, ela admirava e invejava a caula. De fato Denise era muito mais decidida.

- Voc no acha que a gente deve fazer sacrifcio por um grande amor?  isso o que estou fazendo.
- At quando? Voc est confundindo amor com obsesso. Quando h amor, tudo flui de forma mais leve, sem tanto desgaste. Desculpe-me, mas voc est perdendo oportunidades 
de conhecer pessoas bem mais interessantes do que o Adriano. Esse tempo perdido no voltar mais. Sinceramente, acho que voc no termina com o Adriano porque tem 
medo de ficar sozinha. Papai est muito chateado por voc aceitar submeter-se a tanto sofrimento. Ele ficou muito triste com a sua ausncia, ontem. Eu tambm acho 
que foi uma grosseria da sua parte.
Renata deu um longo suspiro e fechou os olhos, mostrando certo arrependimento por no ter participado do jantar.
- Voc tem razo. Depois de tudo o que o Artur fez por ns, eu no poderia ter faltado ao jantar. Ocorreu tudo bem?
- Foi timo. Conversamos bastante e a comida estava perfeita. At a Rosemeire parecia estar muito feliz. Ontem  tarde, ela confessou que est tendo muitas dificuldades 
para superar a dor da separao, porque ainda tem mgoa do doutor Alexandre. Aqui em casa, ela se soltou e conversou bastante. No sei por qual razo, mas eu gostei 
dela desde o primeiro momento em que a vi. Acredito que ela sentiu o mesmo.
Denise fez uma pausa e ficou encarando a irm.
- O que foi? - perguntou Renata.
- No sei se devo falar.
- Agora eu estou curiosa. Pode comear a falar.
- Eu estou a fim do Artur - confessou Denise.
Renata ficou de queixo cado, como se no acreditasse no que acabara de ouvir.
-  srio?
-  sim. Ele mexeu comigo, como nenhum homem conseguiu mexer at hoje.
- Denise, voc mal o conhece! Como pode falar assim?
-  a primeira vez em minha vida que tenho tanta vontade em conquistar um homem. Eu levei umas trufas para ele ontem  tarde, mas no nos encontramos. Somente  
noite nos vimos. Ficamos o tempo todo sentados um ao lado do outro e conversamos sem parar. Depois que ele foi embora, fiquei com saudades e custei a dormir.


- Nao me lembro de ter visto voc falar com tanto entusiasmo de algum. O Artur  um cara muito legal. Eu at queria apresent-lo a voc na sexta-feira passada, 
mas ele falou que no acreditava em encontro arrumado.
- Acho que ontem ele comeou a mudar de idia - disse Denise, com um sorriso na face. - A confuso do final de semana passado pode ter sido uma enorme bno em 
minha vida. Sinto que a priso pode ter aberto portas para mim. No falam que Deus escreve certo por linhas tortas? No foi a melhor maneira de conhecer um homem 
interessante, mas quem somos ns para contestar os desgnios de Deus?! Havia um bom tempo que eu no me apaixonava. J estava ficando preocupada. O simples fato 
de estar a fim do Artur j me fez sentir melhor. Por outro lado, eu fiquei sensibilizada com a luta das crianas contra o cncer. Acho que tenho reclamado da vida 
sem razo. Se eu for considerar o problema de milhes de outras pessoas, acho que vou enxergar que no tenho problema. Estou refletindo bastante sobre tudo que aconteceu 
e estou chegando  concluso de que nada muda em nossa vida, se no mudarmos o nosso comportamento. Estou aprendendo muito nestes ltimos dias e espero mudar para 
melhor.
A conversa foi interrompida pela campainha do telefone. Denise levantou-se para atender.
- Voc pode falar dois minutinhos? - perguntou Rosemeire. 
- Claro! Est tudo bem com voc?
- Est sim. Eu estou telefonando, porque percebi um caroo no seio. Voc disse que a mdica da Casa de Apoio  muito conceituada. Gostaria que pegasse com ela a 
indicao de um mastologista.
- Est bem. Segunda-feira, eu me encontrarei com ela. Voc est certa em procurar logo um mdico. Pode no ser nada, mas  importante verificar.
Denise estava desligando o telefone, quando seu pai chegou, trazendo dois carrinhos lotados de compras.
- Com esse tanto de comida, o senhor deve estar querendo que a gente engorde - observou Renata.
- Nada disso. Eu decidi ficar para a formatura da Denise. No se justifica voltar  fazenda amanh para retornar a Belo Horizonte na sexta-feira.
Denise no escondeu a felicidade pela presena do pai na semana de sua colao de grau.

- Que notcia boa! A sua presena  muito importante.    
Renata aproveitou a ocasio em que todos estavam bem humorados para dar a notcia da volta do namoro com Adriano.
- Eu no quero ter notcias desse namoro. Como seu pai, fico muito triste em ver voc perdendo tempo com esse cidado desequilibrado.
- Ele  o meu namorado. Por favor, no fale assim.
Imediatamente, Denise entrou na conversa para defender o posicionamento do pai.
- O papai tem razo. O Adriano nunca far voc feliz. Um dia, voc ver que ns temos razo.
- Espero que voc no esteja rogando praga em meu namoro. Vocs no precisam gostar do Adriano, a nica coisa que peo  que o tratem com educao.
- Com relao a isso, voc pode ficar tranquila - frisou Lenidas. - Eu no vou permitir que a conduta dele determine a minha forma de agir. Aprendi a ser educado 
com todas as pessoas. No vou mudar por conta dele. Apenas estou alertando voc sobre esse relacionamento porque essa  a minha funo como pai. Mas a vida  sua 
e voc faz dela o que bem entender.
Renata achou melhor encerrar o assunto por ali e calou-se. Em seguida, foi para a cozinha ajudar a guardar as compras.




CAPTULO 
XIV


Denise acordou vrias vezes durante a noite, ansiosa por comear a cumprir a pena aplicada pela justia. O sono ia e voltava, deixando-a irritada. Quando olhou as 
horas no relgio, viu que j estava atrasada. 
Com a rapidez que a circunstncia exigia, ela ficou pronta em trinta minutos e partiu para a Casa de Apoio, sendo recepcionada por Carla. 
- Bom dia, Denise! Animada para comear o trabalho? 
- Estou sim. Espero corresponder s expectativas. A doutora Beatriz j chegou?
- Ela s vir  tarde. Na parte da manh, voc ir montar as cestas bsicas. A relao dos itens est aqui.  s coloc-los nestas sacolas e depois fech-las. Quando 
acabar, faa uma relao dos vales-transporte que ainda temos. Por fim, d uma arrumada na brinquedoteca. Boa sorte.
Denise comeou a fazer o servio. No incio, teve dificuldade em montar as cestas bsicas, principalmente porque alguns produtos eram pesados. Depois de poucos minutos, 
o trabalho comeou a fluir, de modo que ela no viu A manh passar. Quando percebeu, j estava na hora do intervalo.
Conforme combinado, Denise foi almoar em casa com a famlia. Seu pai foi a um restaurante e comprou bife de porco acebolado, batata frita, tutu  mineira, arroz, 
couve e salada.
Quando viu a mesa posta, sentiu a sua boca salivar. O cheiro da comida aguava ainda mais o apetite.
Aps o almoo, Denise voltou rapidamente para a Casa de Apoio.
L chegando, enquanto esperava a mdica, ficou conversando com as crianas que tinham consulta marcada.

Uma delas, de nome Robertinho, conversava sobre diversos assuntos. Aos onze anos de idade, ele sempre foi o melhor aluno da sala. Agora, em funo da leucemia, deixou 
de ir  escola por vrios dias razo pela qual a mdia de suas notas havia diminudo.
Robertinho era um exemplo de determinao para as outras crianas. Ao contrrio da maioria dos que ali estavam, ele morava em uma favela de Belo Horizonte. Alm 
dos estudos, ele cuidava dos irmos menores quando os pais saam para trabalhar.
Denise estava conversando com Robertinho quando a doutora Beatriz chegou.
- Boa tarde para todos. Passaram bem o final de semana?
Robertinho foi o primeiro a responder.
- O final de semana foi timo, principalmente porque eu sabia que encontraria com a senhora hoje.
A mdica sorriu com o elogio de Robertinho, mas Denise percebe que o sorriso dela escondia uma tristeza muito grande.
- Fico feliz com o seu carinho. Como est passando?
- Cada vez melhor, doutora Beatriz. Em seguida, a doutora chamou Denise para dentro do seu consultrio.
- Como est sendo o seu primeiro dia de trabalho?
- Est sendo bom. Garoto interessante esse Robertinho. Fiquei impressionada com a inteligncia dele.
-  uma das crianas mais admirveis que j conheci. Est conosco h um ano.
- O caso dele  grave?        
- Ele tem leucemia linfide aguda.
-  muito grave?
-  sim. Ela se origina nos gnglios, que so os filtros do corpo, e no timo, uma glndula localizada no trax, responsvel pela produo dos linfcitos, que so 
clulas de defesa do organismo. O Robertinho submeteu-se a um autotransplante de medula e a vrias sesses de quimioterapia.
- Autotransplante de medula? Como funciona?
- As doses de quimioterapia so eficientes contra o tumor, mas tambm destroem a medula ssea. No autotransplante, clulas da medula do prprio paciente so retiradas 
antes das sesses de quimioterapia. Depois, essas clulas so injetadas novamente, a fim de que seja iniciado um novo ciclo de produo.
- 
Vendo o interesse de Denise, Beatriz prosseguiu: 
- O Robertinho tem boas chances de sobreviver. Aos pouquinhos, est conseguindo superar a doena. Se ele conseguir sair dessa, como espero, pode ter certeza de que 
ser um profissional brilhante. Poucas vezes conheci algum to esforado e inteligente ao mesmo tempo. O referencial que ele tem de famlia tambm ajuda. Os pais 
so pessoas muito ntegras e educadas. Quero acompanhar este menino bem de perto. 
- De fato, ele parece ser uma criana especial - concordou Denise. 
- Vamos comear o trabalho? Por favor, faa entrar a Maria Jos. 
Denise lembrou-se do pedido de Rosemeire e tocou no assunto antes de chamar a paciente.
- Doutora Beatriz, eu comentei com uma amiga sobre o trabalho da senhora. Coincidentemente, nesse final de semana ela sentiu um caroo no seio. Ela me telefonou, 
pedindo que eu pegasse com a senhora a indicao de um mdico mastologista.
- Perfeitamente. O doutor Rafael  um mdico muito competente. A sua amiga estar em boas mos.
Beatriz pegou um pedao de papel em branco e escreveu o nome e telefone do mdico, entregando-o para Denise. Em seguida, a mdica comeou a atender os pacientes.
Robertinho estava lendo uma revista e sempre fazia um comentrio interessante sobre alguma reportagem, ora concordando com o reprter, ora discordando. Em todos 
os comentrios, ele apresentava uma razo lgica para o seu ponto de vista. Parou de ler a revista apenas quando a sua me chegou. 
- Achei que a senhora tivesse esquecido da minha consulta. 
- No esqueci, meu filho. Acabei a faxina na casa da dona Iolanda s agora. A doutora Beatriz j chegou?
- J, sim. Daqui a pouco vai me chamar. Esta aqui  a Denise, a nova secretria.
- Muito prazer. Meu nome  Janana. 
- Parabns pelo seu filho. Ele  uma criana muito amvel. 
Pouco depois, Robertinho e sua me entraram para o consultrio. Aps analisar os ltimos exames, Beatriz concluiu que ele havia tido uma boa melhora em seu quadro 
geral de sade.
Uma a uma, as crianas foram atendidas. A admirao de Denise pela doutora Beatriz aumentou, ao ver o carinho que ela dispensava a cada paciente, mesmo no recebendo 
um centavo pelo servio.






CAPTULO
XV




O caroo que sentiu no seio direito trouxe preocupao a Rosemeire. Na famlia no havia nenhum histrico de cncer, mas ela j ouviu dizer que o cncer de mama 
era de altssima incidncia no Brasil. Portanto, deveria estar preparada para qualquer resultado.
Durante o caf da manh, ela relatou a Artur sobre a sua ida ao medico. A notcia deixou o filho preocupado.
- Tem muito tempo que a senhora percebeu esse caroo?
- No. Foi no ltimo final de semana.
- Deus permita que no seja nada de grave. De qualquer forma,  bom procurar o mdico. Todo mal que  cortado no incio produz menos dano. Quem indicou o mdico 
para a senhora?
- Ee foi indicado pela doutora Beatriz, oncologista que trabalha na casa de Apoio, onde a Denise est cumprindo a pena. Alis, quanto mais eu conheo a Denise, mais 
encantada eu fico com ela. Acho que voc se apaixonou pela irm errada.
- Eu no cheguei a ficar apaixonado pela Renata. Tive um encantamento com ela, mas j desisti. Ela est mais envolvida com o namorado do que eu imaginava. Curioso, 
quanto mais ela sofre, mais ela gosta desse cara.
- Por que voc no investe na Denise?
- A senhora est louca de vontade para me ver namorando, no , mame?
- Desde que seja uma moa boa, que goste de voc. Talvez a Denise se encaixe nesse perfil.


- Eu andei pensando sobre isso. Ela  muito bonita e parece ser carinhosa. Confesso que ela mexeu comigo tambm. Por acaso, a senhora continua desconfiada de que 
ela est interessada em mim?
- Desconfiada? S no enxerga quem no quer! Est escrito nos olhos dela. Vocs, homens, no conseguem enxergar um palmo na frente do nariz, quando o assunto  mulher.
Artur tomou o ltimo gole de caf, levantou-se da mesa e desejou boa sorte  me na consulta com o mastologista. Em seguida, colocou o palet que estava pendurado 
na cadeira e saiu.
Ao chegar  construtora, viu um recado em sua mesa para comparecer  sala de reunio s nove horas da manh. O assunto no foi adiantado, deixando Artur intrigado. 
Ento, dirigiu-se  sala de Renata.
- Voc tambm foi convocada para uma reunio?
- Fui sim.
- Por acaso, est sabendo do que se trata?
- No. Tambm estou curiosa. Algo me diz que no  coisa boa. Desde que comecei a trabalhar aqui, as reunies so agendadas com o mnimo de antecedncia e todos 
ficam sabendo do que se trata.
- Tem razo. Em breve, saberemos. Vou voltar para a minha sala e esperar que me chamem.
A ansiedade de Artur aumentou. Tudo indicava que alguma notcia urgente e inesperada seria trazida  tona. Poderia ser boa ou ruim.
Alguns minutos depois, Artur caminhou para a sala de reunies. Estavam presentes o doutor Alfredo, Morais, o seu brao direito, Olmpio, que cuidava da rea financeira, 
e Marta, a arquiteta mais antiga da construtora. A fisionomia tensa de todos sinalizava que a notcia no era boa. Mais um pouco e Renata tambm chegou. Assim que 
ela entrou, o doutor Alfredo tomou um gole de gua e deu incio  reunio.
- Todos esto presentes. Podemos comear.
Renata e Artur trocaram um olhar, externando a mesma expresso de preocupao.
- Inicialmente, gostaria de pedir desculpas por ter marcado a reunio sem avisar previamente.
Alfredo estava tenso. Ao colocar caf na xcara, todos perceberam que suas mos estavam trmulas.
- Ns estamos enfrentando dificuldades financeiras muito srias.
Vocs esto vendo como o mercado imobilirio est parado. Somos obrigados a dar descontos altos para conseguirmos vender alguns poucos imveis. Elaboramos um plano 
para tentar salvar a empresa da falncia. Vamos ter que cortar na carne e sacrificar alguns funcionrios valiosos. No temos alternativa.
Alfredo olhou fixamente nos olhos dos dois e prosseguiu: 
- Vocs dois esto na lista dos funcionrios que sero demitidos. Lamento profundamente inform-los desta deciso. Confesso que, esta noite, eu no consegui pregar 
o olho, pensando em alguma alternativa. Infelizmente, no encontrei. Vamos ficar apenas com um engenheiro e uma arquiteta. Tanto eles, quanto eu, iremos nos desdobrar 
para tentar substituir vocs dois.
Renata assentiu com a cabea, concordando com a deciso do patro, mais os seus olhos ficaram cheios de lgrimas. Ela havia criado muitas expectativas em relao 
ao novo emprego. Seria uma experincia fascinante,
bem como uma oportunidade excelente de crescimento profissional.
Aparentemente, Artur ficou menos abatido do que ela, demonstrando ter absorvido melhor o impacto da notcia.
- Foi um prazer trabalhar com o senhor. Eu entendo a posio da empresa - disse ele.
Com lgrimas nos olhos, Renata demonstrou compreenso com a atitude do patro.
- Eu fico triste, porque no tive tempo de desenvolver o trabalho que pretendia. Mas, assim como o Artur, eu tambm entendo a posio da empresa.
Os olhos de Alfredo tambm estavam lacrimejando. Ele tinha um carinho especial por Artur e estava impressionado com a qualidade do trabalho de Renata. Com pesar, 
ele finalizou a reunio.
- Vocs podem passar hoje mesmo na Administrao de Recursos Humanos. Espero conseguir reerguer a empresa e contar com vocs, no futuro. Deus permita que esta fase 
comercial ruim seja a mais curta possvel.
Um clima de velrio instalou-se na sala de reunio. Renata retornou para a sua sala. Deveria comear a juntar os seus pertences. Ainda estava sob o impacto da notcia. 
A sensao do desemprego deixou glido o seu esprito.
A situao de Artur era melhor, pois, por ter mais tempo de casa, teria vrios direitos trabalhistas a receber. Era certo que ele estava precisando descansar por 
alguns dias, devido ao ritmo intenso de trabalho nos ltimos meses. No obstante, ausentar-se da cidade poderia significar a perda de alguma oportunidade interessante 
de trabalho.

Preocupado com a reao de Renata ante a notcia, ele decidiu ir  sala dela para consol-la. Assim que abriu a porta, percebeu que ela ficou mais abatida do que 
havia imaginado. Renata estava com os cotovelos sobre a mesa, segurando a cabea com as duas mos, sendo ntido o seu desnimo diante da nova situao.
- Vim ver como voc est. Achei que a notcia deixou voc bem triste.
- Deixou, sim - confessou Renata. - Eu estava muito envolvida com os projetos. Na verdade, esse envolvimento estava me ajudando a lidar com alguns problemas na minha 
vida pessoal. Acho que estava fazendo do trabalho uma fuga. Certo mesmo  que agora eu estarei desocupada. Detesto ficar  toa. O pior  que as perspectivas de emprego 
no so boas. A gente anda pelas ruas e v poucas obras. Est difcil trabalhar na rea de construo civil. Este pas no melhora. Os presidentes mudam, mas o Brasil, 
no. Dizem que  o pas do futuro, mas eu ouo isso desde que era garotinha. Que futuro  esse que nunca chega? Estarei viva para v-lo?
Artur sentou-se na cadeira, do outro lado da mesa. Ficou observando sua colega por alguns instantes, imaginando algo para dizer que pudesse transmitir esperana 
para ela.
- Realmente, a economia do pas cresce em ritmo lento e o desemprego  cada vez maior, mas ficar desempregado, principalmente em uma situao como a que voc tem, 
no  o pior dos problemas - ponderou Artur.
- Por que voc pensa assim?
- H situaes bem piores que podem acontecer com uma pessoa. Talvez eu esteja pensando assim porque ainda estou sob o trauma do acidente. Eu perdi o meu emprego, 
 verdade, mas eu tenho sade, inteligncia e, acima de tudo, eu estou vivo. O que significa perder o emprego, diante do aperto por que passei? Todas as pessoas 
tm problemas em suas vidas. O importante  dar ao problema o valor que ele merece, aceitando o que no pode ser mudado e tendo coragem para mudar o que for possvel. 
Pode ter certeza de uma coisa: as melhores oportunidades aparecem nos momentos de crise. Aqueles que tm melhor viso saem lucrando. Podemos ter perdido o emprego 
para conseguirmos um outro melhor. Lembre que voc no tem filhos e o seu pai tem condies de arcar com as suas despesas, enquanto no aparecer outro trabalho.
- 
- Eu no quero ficar dependendo do meu pai. No foi para isso que estudei durante todos esses anos. Acho que voc est um pouco fora da realidade com esse otimismo 
exagerado.
- Tudo  possvel - tornou Artur. - Talvez o acidente tenha me deixado mais otimista. Independente do que venha a acontecer, j estou mais feliz pelo simples fato 
de estar mais otimista.
- Deus queira que o seu otimismo me contagie. Quero continuar sua amiga. Eu s tenho a agradecer toda a fora que voc me deu, sobretudo quando passei por aqueles 
momentos difceis durante a priso da Denise. Jamais vou esquecer a sua solidariedade. Conhecer voc foi uma das melhores coisas que me aconteceram ultimamente - 
concluiu Renata, olhando no fundo dos olhos de Artur, sem esconder a admirao que nutria por ele.
- Obrigado. Eu tambm gosto muito de voc e tenho certeza de que no perderemos contato. Vamos dar as mos para conseguirmos outro emprego.
- Claro! Mudando de assunto, voc ir  formatura da minha irm?
- Com certeza. No apenas eu, mas tambm a minha me faz questo de ir. A Denise nos convidou para um jantar, em um restaurante italiano. Ser uma noite divertida.
-  bom saber que no precisamos nos despedir. As despedidas so tristes e trazem a idia de que as pessoas demoraro a se encontrar novamente. Quero apenas abra-lo 
- finalizou Renata.
Naquele momento, Artur sentiu que ela era sua amiga e assim deveria continuar. Ele detectou que a admirao que nutria por ela estava mais ligada  amizade do que 
qualquer outro interesse.
Aps se abraarem, foram juntos at o estacionamento, onde cada um seguiu o seu caminho.
Renata estava triste por ter que dar a notcia do desemprego ao pai em uma semana de alegria para ele, com a formatura da filha caula. Artur estava mais preocupado 
com o caroo que apareceu no seio da me e desejava ter notcias da consulta. A parte financeira no era a que mais o preocupava, pois tinha uma aplicao no banco 
com a qual cobriria as suas despesas no perodo em que estivesse desempregado.





CAPTULO
XVI


Rosemeire chegou ao consultrio do doutor Rafael dez minutos antes do horrio marcado. O prdio era novo e possua vrios equipamentos de segurana. O consultrio 
ocupava duas salas no dcimo-primeiro andar. Quando Rosemeire entrou, viu uma mulher sentada no sof, com um leno indiano envolto na cabea para esconder a calvcie. 
Alm dela, apenas a secretria.
- Voc deve ser a Rosemeire, que tem consulta marcada para as onze e meia.
- Sou eu mesma.
- O doutor Rafael est terminando uma consulta. Depois, ir analisar alguns exames dessa senhora. Logo aps, ser a sua vez. No vai demorar. 
- Tudo bem. Eu aguardo.
Quando estendeu a mo para pegar a revista que estava sobre um mvel  sua direita, Rosemeire ouviu o barulho da porta se abrindo. Uma mulher jovem, muito bonita, 
saiu l de dentro com um sorriso nos lbios, demonstrando alvio. Em seguida, a senhora que estava sentada no sof foi convidada a entrar.
A medida que esperava pela consulta, crescia a ansiedade de Rosemeire. O tempo passava e a consulta daquela senhora no acabava, gerando impacincia e at mesmo 
uma certa antipatia pelo mdico, antes mesmo de conhec-lo.
Aps meia hora, a paciente que antecedeu Rosemeire saiu cabisbaixa, enxugando as lgrimas com um leno branco.

Imediatamente, a secretria encaminhou-a para a sala do doutor Rafael. Rosemeire estava irritada com o atraso. Pensou em reclamar com ele, afinal a consulta era 
particular. "Se fosse atravs do convnio, o atraso seria admissvel", raciocinava.
Assim que abriu a porta, o sorriso meigo do mdico acabou desarmando o seu esprito de contrariedade.
- Perdoe-me o atraso. O caso daquela senhora  grave e eu tive que atend-la em carter de urgncia, sem marcao de consulta - disse o mdico, enquanto estendia 
a mo para cumpriment-la.
- Est tudo bem, doutor. Eu sei que esses atropelos acontecem em todos os lugares. No faz mal, eu no tenho nenhum compromisso agora.
- Em que posso ajud-la?
- Eu senti um caroo no seio direito enquanto estava tomando banho no ltimo fim de semana e resolvi consultar. Sei da possibilidade de se tratar de algum tumor 
maligno e, nesse caso, quanto antes iniciar o tratamento, mais chances eu terei de ser curada.
- Exato. Seu ponto de vista  correto. Por favor, sente-se naquela cadeira; eu vou dar uma examinada.
Rosemeire levantou-se e caminhou para a cadeira que estava a sua direita.
O mastologista sentou-se em outra cadeira e iniciou o exame, aps ela apontar com o dedo indicador o local onde estava o caroo.
- De fato, tem um ndulo aqui. Desde quando voc no faz mamografia?
- Dois anos.
- Vou fazer um pedido de mamografia. A senhora tem antecedente de cncer na famlia?
- No. A minha famlia  muito pequena. O meu pai morreu em um acidente de carro. Eu no tenho irmos. A minha me est mais saudvel do que eu.
- No aspecto emocional, houve algum fato que aumentou o nvel de estresse da senhora?
Rosemeire j esperava por esta pergunta. Sabia que vrias doenas, dentre elas o cncer, poderiam ter o estresse entre uma de suas causas. A separao do marido, 
seguida por todo um processo de mgoa, ainda instalada em seu corao, poderia estar diretamente ligada a uma eventual doena.

- De fato, eu passei por um processo doloroso de separao. Foi um fato que me deixou bastante magoada.
- A senhora procurou algum tipo de ajuda teraputica?   
- Eu at comecei a fazer terapia, mas parei logo depois.     
-  Algum auxlio espiritual?
- Nao. Na verdade, eu no acreditava que algum pudesse me ajudar. Para ser franca, eu cheguei a desejar a morte, algumas vezes.
- Dona Rosemeire, eu no quero entrar em detalhes da sua vida pessoal, mas a senhora  uma mulher jovem e muito bonita, com todas as condies de reconstruir a sua 
vida ao lado de outra pessoa. Hoje em dia, todos ns estamos sujeitos a vrios tipos de infortnios. Existem recursos que nos ajudam a lidar com as perdas, de forma 
a trazer paz e alegria aos nossos coraes. Independente dos resultados dos exames, eu acho que a senhora deve procurar uma ajuda externa para aceitar a separao 
e dissolver a mgoa que est no seu corao, porque, se isso no tiver deixado a senhora doente, ainda poder deixar - advertiu o jovem doutor.
Rosemeire ficou encarando o mdico por alguns segundos, consciente de que ele estava correto em sua explanao. Depois, respondeu: 
- Eu sei que o senhor tem razo. Preciso me esforar para superar , essa etapa da minha vida.
- Far muito bem. A senhora pode trazer o resultado da mamografia amanh?
- Perfeitamente. A que horas posso retornar? 
- Na parte da manh, entre onze e meia e meio dia. 
Ali se despediram e Rosemeire saiu bem impressionada com o doutor Rafael, mudando o conceito que havia formado dele, minutos antes de conhec-lo pessoalmente.
No trajeto para casa, o pensamento de estar com uma doena mais grave do que imaginava foi motivo de preocupao. Apesar do momento difcil de sua vida, no estava 
preparada para morrer. Chegando em casa, surpreendeu-se ao encontrar Artur.
- O que voc est fazendo aqui? No deveria estar no trabalho? 
- Deveria, mas aconteceu um imprevisto. Depois eu conto. Antes, quero saber sobre a consulta.
Artur percebeu certa tenso na fisionomia de sua me. Rosemeire sentou-se na cadeira, deixou a bolsa sobre a mesa e relatou a consulta.
- Tive uma tima impresso do mdico. Vou fazer a mamografia amanh e retornarei ao consultrio dele entre onze e meia e meio dia.

- Como est a sua expectativa?
- Estou com medo. Depois de tudo que eu tenho enfrentado em minha vida, encarar uma doena to grave, como o cncer, no  brincadeira. Estou me sentindo enfraquecida 
para lidar com essa situao. Deus permita que o tumor no seja maligno.
Artur decidiu falar sobre a perda do emprego. Sem rodeios, foi direto ao assunto.
- Amanh, eu ficarei por conta da senhora. Vou lev-la para fazer mamografia e depois iremos juntos ao mdico. Quero ficar ao seu lado.
- E o seu trabalho? Est podendo sair assim, no meio do expediente? Artur coou a cabea, passou a mo na testa e contou o ocorrido:
- Eu fui demitido.
- Demitido? - perguntou Rosemeire, parecendo no acreditar na notcia.
- Isso mesmo. Entrei no plano de enxugamento das despesas. A construtora tem apenas mais trs obras em andamento. O doutor Alfredo demitiu tambm a Renata. Eu compreendo 
o posicionamento
do dono da empresa. Na verdade, ele est um pouco desanimado de mexer com construo. O lucro caiu bastante ultimamente e ele j no tem o mesmo vigor de alguns 
anos atrs.
Rosemeire sabia das dificuldades para a obteno de novo emprego e temeu que o filho ficasse um bom tempo sem qualquer ocupao.
- Voc j tem alguma ideia do que ir fazer?
- Vou deixar o meu currculo em outras firmas e comunicar aos amigos que estou desempregado, a fim de que eles me avisem de alguma oportunidade.
-  impresso minha ou voc no est muito abalado? - perguntou Rosemeire.
- Chateado eu estou, mas os problemas j no me incomodam tanto. Era s um emprego. Em breve estarei empregado.  s ter pacincia e correr atrs. Depois de ter 
renascido aps o acidente, no  qualquer notcia ruim que ir me abalar. O milagre do meu salvamento indica que Deus deve ter um propsito muito bom para a minha 
vida. Vou descobrir que propsito  esse.
Rosemeire sentiu certa inveja do otimismo do filho. Queria ela pensar da mesma forma para a sua vida.
- Acho que voc  um felizardo, por Deus ter um propsito para a sua vida. Estou vendo tantas pessoas sofrerem que no consigo acreditar que Deus tenha um propsito 
para a vida delas.

- No fale assim, mame. Deus tem um propsito para a vida de todo mundo. O problema  que as pessoas acham que vieram ao mundo apenas para se divertir e esquecem 
de tentar saber qual  o propsito que Deus tem para a vida delas.
Incomodada com a tranquilidade do filho diante da perda do emprego, Rosemeire tornou a question- lo, demonstrando impacincia.
- Voc no acha que todos ns temos o direito  felicidade?
- Acho, sim, mas ns tambm temos deveres, sobretudo com o bem-estar do nosso prximo. O problema  que ns somos egocntricos e s enxergamos os nossos problemas 
e as nossas necessidades. Devemos tentar aprender as leis de Deus. H regras a serem seguidas. Temos que aprender a agir com amor em todas as circunstncias. Estou 
acreditando que todos ns temos um potencial que sequer conhecemos, porque temos medo de nos conhecer melhor. Se fizermos uma anlise profunda sobre quem somos e 
sobre a nossa misso, certamente descobriremos o caminho a seguir. Muitos infortnios acontecem em nossas vidas, quando nos desviamos de nossos caminhos. Deus deseja 
que ns coloquemos os nossos dons a servio da humanidade. Ele tem um plano para a Terra. S que ele realizar esse plano atravs de ns. Cada ser humano precisa 
descobrir o seu papel, dentro desse plano.
A medida que o filho falava, aumentava a expresso de espanto de Rosemeire. Aquele era um assunto pelo qual ele jamais havia demonstrado interesse.
- Artur, o que est acontecendo com voc? Que tipo de lugar voc est frequentando?
Artur sorriu, ante a perplexidade materna. Ao olhar fixamente nos olhos de sua me, ele percebeu que teria uma importante misso para ajud-la a encontrar a paz 
perdida aps a separao. Pacientemente, respondeu:
- No estou frequentando lugar algum. Simplesmente estou comeando a enxergar que a vida  muito mais abrangente do que imaginava. H muitos mistrios a serem desvendados 
e verdades a serem descobertas. A humanidade est engatinhando, apesar do avano da cincia. A Terra passar por um perodo de revelaes surpreendentes, sinto isso. 
Quero me preparar para um novo padro que ser estabelecido no nosso planeta. H uma fora imensa, dentro de mim, querendo descobrir logo as verdades que sero trazidas 
 tona. Alis, quero ajudar a esclarecer a populao sobre essas verdades. Arrependo-me de no ter enxergado isso antes. No faz mal, tudo tem o seu tempo.
Rosemeire balanava a cabea, em sinal de reprovao s palavras do filho. Chegou a pensar que ele estivesse delirando.

- Voc est muito esquisito.
Com o olhar distante dali, Artur completou:
- Grave bem o que vou falar: quero ultrapassar a fronteira do meu saber. Nada na vida  mais importante do que adquirir conhecimenlo e saber utiliz-lo. Freud j 
dizia: "todo poder emana do conhecimento". Quero descobrir o meu poder pessoal, que emana dos meus talentos e da minha fora interior; quero exercer um autodomnio 
sobre as minhs aes; quero vencer as minhas limitaes e os meus medos. O tempo est passando muito rpido. Est na hora de agir!
Rosemeire ficou boquiaberta com as palavras do filho. Pelo visto, a mudana de comportamento, aps o acidente, havia sido mais radical do que ela estava imaginando. 
Decidiu levantar-se para tomar um copo de gua.

***

Em outra parte da cidade, Renata e Adriano almoavam em um restaurante de uma famosa rede de alimentao fastfood.
- Eu estava adorando o emprego. J estava acostumada com as pessoas, na construtora. Por essa, eu no esperava...
- Voc conseguir outro emprego, meu amor. Arquiteta competente como voc no est fcil de encontrar.
- Engano seu. Eu conheo algumas que esto desempregadas.
- Avise-me, se voc precisar de dinheiro. Eu posso emprestar alguma quantia, enquanto voc no consegue outro emprego.
- Obrigada. No ser preciso. Eu tenho uma pequena reserva e papai tem condies de me ajudar quando o meu dinheiro acabar.
Adriano, demonstrando estar sensibilizado com a situao da namorada, acariciou seus cabelos e tornou a consol-la.
- No gosto de ver voc triste assim. Acho que fico mais triste do que voc. O pior  que eu no consigo ajud-la.
- Voc est me ajudando. S de estar ouvindo as minhas lamentaes j  uma ajuda.

- Conte comigo para o que der e vier.
- Pode deixar.  bom saber que tenho um homem que est ao meu lado para os momentos bons e os ruins.
Aps o almoo, Adriano deixou Renata em casa e seguiu para o trabalho. Em sua mente, a certeza de ter valido a pena o dinheiro gasto com o pai-de-santo para afastar 
a namorada de Artur. A perda do emprego de Renata, alm de concretizar o intento de Adriano, causaria uma baixa auto-estima nela, o que poderia ajud-lo a reconquist-la.






CAPTULO
XVII


Conforme combinado, Artur levou sua me para a realizao da mamograria. Rosemeire no havia dormido bem durante a noite e a sua fisionomia estava visivelmente abatida. 
A preocupao estava estampada em sua face. A possibilidade de perder uma mama aos quarenta e sete anos de idade era outro fator deprimente.
Enquanto Rosemeire realizava a mamografia, Artur esperava em uma sala. O exame causou menos desconforto do que ela imaginou. O resullado ficaria pronto em meia hora 
e ela deveria lev-lo imediatamente ao doutor Rafael.
- Estou com medo, meu filho. A minha intuio no est boa.
- Procure manter bom nimo, mame. O tumor pode ser benigno. Ainda que seja maligno, a medicina evoluiu muito e o cncer tem cura, hoje em dia. Vamos aguardar o 
resultado com confiana.
- Independente do resultado, sinto que preciso esquecer tudo de ruim que aconteceu recentemente em minha vida.
- Fico feliz em saber que a senhora est pensando dessa forma. A vida continua e a gente tem que seguir em frente, no  mesmo?
A conversa foi interrompida com o toque do celular de Artur. Ao olhar no visor, sentiu o corao bater mais forte de alegria ao ler o nome de Denise.
- S agora eu fiquei sabendo que voc e Renata foram despedidos. Ontem, quando ela conversou com o meu pai, eu j estava dormindo. Estou telefonando para externar 
a minha solidariedade. s vezes, a gente fica querendo conversar com algum, nesses momentos difceis.

- Obrigado pelo seu apoio. Eu no esperava perder o emprego, mas isso tambm faz parte da vida. Agora, vou correr atrs de outro trabalho. Por enquanto, vou ficar 
mais prximo da mame. Estamos indo ao mastologista levar o resultado da mamografia.
- Diga a ela que estou torcendo para tudo dar certo. Tenho certeza de que esse mastologista  um excelente profissional. Do contrrio, no seria indicado pela doutora 
Beatriz. Aguardo vocs na minha formatura.
Quando Artur desligou o telefone, Rosemeire no perdeu a oportunidade de elogiar Denise.
- Eu j disse que essa moa est apaixonada por voc. Ela  uma menina de muito valor. Aproveite esta oportunidade. No  todo dia que o cavalo passa arreado na 
porta da nossa casa. Quando ele passa, ns temos que aproveitar a oportunidade.
Enquanto guardava o telefone no bolso, Artur refletia sobre a ponderao de sua me.
- Estou comeando a achar que a senhora tem razo. O meu corao bateu mais rpido quando vi que era ela no telefone.
- Corao de me no costuma errar.
Artur deu um sorriso, demonstrando alegria pelo flerte que estava rolando entre ele e Denise.
Pegaram o elevador e subiram at o andar onde ficava o consultrio do doutor Rafael.
- Ele j est chegando - disse a secretria.
Nesse exato momento, o doutor Rafael entrou pela sala, cumprimentando a todos, ocasio em que Rosemeire apresentou seu filho para ele. O mdico pediu  secretria 
um copo de gua e abriu a porta para a paciente e seu filho entrarem.
Pouco depois, o mastologista abriu o exame. Havia uma anota feita pelo radiologista. A expresso do mdico estava sria. Em silncio ele analisava cuidadosamente 
o exame. Rosemeire percebeu que ele ficou preocupado, aps analisar a mamografia.
- Ento, doutor? O que o senhor me diz?
- Em princpio, o resultado no est bom. H algumas anormalidades detectadas. Vamos precisar fazer uma bipsia. Gostaria que fosse o mais rpido possvel.
Rosemeire deixou o corpo deslizar pela cadeira. A notcia veio como um nocaute.

- Como assim, doutor? 
Os olhos dela encheram-se de lgrimas. Os seus lbios comearam  tremer. Artur afagou seus cabelos, tentando confort-la.
- Eu no posso dar nenhum parecer conclusivo agora, mas, pelo resultado da mamograna, h uma forte suspeita de que o tumor seja maligno.
- Meu Deus, ajude-me! - exclamou Rosemeire, levantando a cabea para o alto.
- Calma! O doutor falou que a senhora far outro exame. Deus  grande - disse Artur, apertando as mos da me.
- Por que o senhor est pensando que o tumor  maligno? - indagou Rosemeire.
- Pelo tipo de calcificao do ndulo.
- Quais so as chances de cura se ficar constatado que estou com cncer? - tornou ela.
- Em torno de setenta e cinco por cento, se no houver envolvimento metasttico dos linfonodos axilares.
- Caso a cirurgia seja necessria, eu vou perder o meu seio todo?
- Talvez no. H a possibilidade de fazermos a quadrantectomia, retirando apenas parte da mama. No mesmo ato, pode-se fazer a reconstruo do seio.
- O seio fica muito mutilado? - tornou Rosemeire. 
- Nada fica perfeito como a obra de Deus, mas esteticamente ficar bom. Houve um enorme avano da medicina nessa rea.
- Mame, no  hora de a senhora ficar preocupada com a esttica - disse Artur, recriminando a preocupao dela com a aparncia do seio aps uma provvel cirurgia.
Rosemeire no deu ouvidos  observao do filho. Voltando-se para o mdico, perguntou:
- Quando eu farei a bipsia?
- Coincidentemente, uma paciente desmarcou uma bipsia que faria amanh. Eu tenho disponvel o horrio que era dela, s nove horas.
- Por mim, est bom. Onde ser o procedimento?
- Ser no hospital aqui em frente. A senhora pode chegar s oito e meia da manh. O procedimento da bipsia  tranquilo, feito com anestesia local. Ns vamos retirar 
fragmentos de tecidos alterados e encaminh-los para anlise. Se tudo correr bem, a senhora retornar para casa amanh mesmo.

Ao sair do consultrio, Rosemeire j estava menos nervosa, acreditava que estava em boas mos e que receberia o melhor tratamento possvel. O plano de sade cobriria 
os gastos. Portanto, tudo que tinha a fazer era entregar a sua sorte nas mos de Deus.
- Estou com fome. Desde ontem que no me alimento direito, preocupada com a mamografia. Vamos almoar?
- Vamos. O que a senhora est com vontade de comer?
- Galinha caipira ensopada, com angu, arroz e couve. O prato que a minha me sabe fazer melhor.
- Conheo um restaurante tpico muito bom. Vamos l.
- Por via de dvida, quero fazer tudo o que tiver vontade. No sei at quando estarei viva.
- No fale assim. Nada de ficar achando que est no fim da vida. Faa-me o favor!
O restaurante ficava a dez quilmetros do centro da cidade, no alto de uma montanha. Da varanda do restaurante, tinha-se uma bela paisagem. O canto dos pssaros 
trazia ainda mais paz quele local. No
quintal havia uma horta plantada, de onde se recolhia a verdura servida nas refeies. O prato foi servido quarenta minutos aps o pedido. A demora foi compensada 
pelo sabor da comida. Quando deixaram o restaurante, Rosemeire j estava mais tranquila. Assim que chegou em casa, ela decidiu telefonar para sua genitora.        
- Mame, como a senhora est passando?        
- Eu estou bem. E voc, melhorou?        
- Com relao  depresso, estou melhor. S que agora surgiu outro problema...
Por uma frao de segundos, Maria ficou imaginando qual era o novo problema que estava afligindo sua filha.
- O que foi desta vez?
- Eu senti um ndulo no seio e fui ao mdico. Fiz a mamografia e ele ficou preocupado com o exame. H indcios de que o tumor seja maligno. Amanh, eu farei uma 
bipsia.
Maria sentiu a presso abaixar. Ultimamente, sempre que a filha lhe telefonava, era para dar uma notcia ruim. At quando persistiria essa situao?
- O que mais o mdico falou?
- Ele disse que, se no houver metstase, as chances de cura so de setenta e cinco por cento.

- Deus proteja voc, minha filha. Tenha f de que no h de ser nada de grave. Voc est confiante?
- No sei, mame. Estou um pouco confusa. Tudo est acontecendo muito rpido. De qualquer forma, estou com muita vontade de ficar curada, caso o resultado no seja 
bom. Eu irei lutar, com todas as minhas foras, pela minha vida. Estou disposta a viver e buscar a felicidade. O que passou, passou. Chega de sofrimento.
-  assim que se fala! Assim que sair o resultado, favor me avisar. Caso seja preciso, irei a Belo Horizonte imediatamente. O movimento da pousada est bem tranquilo.
- Obrigada, mame. Qualquer novidade, eu aviso a senhora. 
Aps desligar o telefone, Maria concluiu que deveria visitar a filha independente do resultado dos exames. A presena dela poderia ser importante para Rosemeire 
superar a depresso.





CAPTULO 
XVIII


O telefone tocou quando Artur havia acabado de estacionar o carro em frente  casa de seu pai. Novamente, sentiu uma sensao gostosa quando viu que era Denise.
- Estou ligando para ter notcias de sua me. O que o mdico disse sobre a mamografia?
- A notcia no  boa. Ele no gostou do resultado e pediu a realizao de uma bipsia. Ele disse que h urgncia em verificar o quadro dela, porque o tumor tem 
caractersticas cancergenas. Ela ficou muito abatida quando recebeu a notcia, mas j est um pouco melhor. Conversamos bastante e ela est mais confiante. Eu a 
deixei em casa e agora estou chegando  casa do papai para dar a notcia.
- O resultado da bipsia pode indicar algo de menos grave - disse Denise, tentando consolar Artur. - No adianta se desesperar. Alm do mais, o cncer hoje  uma 
doena que tem cura. Ela precisar muito do seu apoio. Amanh, irei visit-la.
- Tenho certeza de que ela ficar muito feliz com a sua presena. Ela far a bipsia s nove horas da manh. O procedimento no  muito demorado.
- Ento, at amanh.
- Um momento, Denise.
- O que foi? 
Artur hesitou, sem saber se deveria dizer o que estava sentindo.
- H algo que eu gostaria de falar.

Um momento de silncio se fez. Ansiosa, Denise esperou pelas suas palavras. Aqueles poucos segundos custaram a passar. Artur sentia-a desencorajado para dizer.
- Artur, pode falar, eu estou ouvindo.
Mais um pouco e ele criou coragem para dizer:
- O seu apoio est sendo fundamental para mim. Fico feliz quando toca o telefone e vejo que  voc. Tem pouco tempo que nos conheomos, mas voc est sendo importante 
para mim, neste momento.
Denise sentiu um frio na barriga. Comeou a achar que estava conseguindo conquistar o amor de Artur. A sua voz saiu rouca, talvez pela emoo:
- No sei dizer o motivo, mas desde o momento em que fui visita-lo, depois do acidente, tenho pensado bastante em voc. No incio, era mais um sentimento de gratido 
por tudo o que voc havia feito. Depois, a gratido foi cedendo a um sentimento de admirao. Tenho uma sensao estranha de que somos antigos conhecidos e de que 
temos muito em comum. No sei se deveria falar isso.
Artur sentiu o corao transbordar de alegria com a confisso de Denise.
- Posso afirmar que  bom ouvir isso. No ser apenas a minha me que ficar feliz com a sua visita.
Denise sorriu, parecendo no acreditar no que ouvia.
- Ento, at amanh.
Em seguida, ela desligou o telefone, tendo nos lbios um sorriso que demonstrava a esperana de comear a viver um grande amor.
Renata estava na cozinha, fazendo caf, e ouviu a conversa entre Denise e Artur. Pde perceber que a irm estava tendo progressos em seu objetivo de conquist-lo 
e isso fez com que sentisse cime. No seu ntimo, estava cada vez mais convencida de que havia tomado a deciso errada ao reatar o namoro com Adriano, desprezando 
as investidas do ex-colega de trabalho.
Aps desligar o telefone, Artur deu alguns passos e tocou o interfone na casa do seu pai. Quando saiu do elevador, seu pai j o esperava na porta da sala.
- Entre. Est tudo bem?
Pela expresso do filho, Alexandre percebeu que o assunto que o levara ali tinha uma certa gravidade.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, sim.
- 
- O que houve?
- Infelizmente, o que me traz aqui  uma notcia preocupante. 
- O que aconteceu?  algo relacionado  sua me? 
Artur balanou a cabea, fazendo sinal afirmativo. 
Alexandre sentiu o corao disparar, preocupado com o que Artur tinha para lhe dizer.
- Fale logo, meu filho!
- Ela est com um tumor no seio. Fez a mamografia hoje e, amanh, realizar uma bipsia. Segundo o mdico, h forte probabilidade do tumor ser maligno.
Alexandre ficou esttico, como se no estivesse acreditando no que acabara de ouvir. Ante a perplexidade do pai, Artur prosseguiu:
- Ela ficou abatida com a notcia. Tudo aconteceu muito rpido. No final de semana, ela sentiu um caroo no seio. Na segunda-feira, telefonou para a Denise, pedindo 
que a oncologista da Casa de Apoio indicasse um mastologista. Ontem, ela foi ao mdico e, hoje, ela fez a mamografia. A bipsia ser feita amanh no hospital, em 
frente ao prprio consultrio.
- Minha Nossa Senhora! - exclamou Alexandre, enquanto levava a mo  boca.
Os olhos dele ficaram carregados de lgrimas. 
- Quando ficar pronto o resultado da bipsia? 
- No sei dizer.
- Acho que vou visit-la para levar o meu apoio. O que voc acha? 
- Talvez no seja propcio o senhor aproximar-se dela neste momento. Estou apenas trazendo a notcia, porque acho que  do seu interesse saber. Vamos aguardar o 
desenrolar dos fatos.
- Voc tem razo, Artur. Agora, a minha interveno no ser benfica. Deus queira que tudo transcorra bem. Eu vou rezar por ela. 
- Obrigado, papai.
- A sua me precisa muito de voc neste momento. Quero que voc me mantenha a par de tudo que acontecer. No deixe de falar nada comigo. Eu farei o que for preciso 
para ajud-la.
- Eu sei. Estarei ao lado dela o tempo que for preciso, ainda mais agora que perdi o emprego.
A expresso de preocupao na face de Alexandre deu lugar  de espanto, aps ouvir a notcia da demisso do filho.

- Como assim?        
- Eu perdi o emprego. A construtora est passando por uma grave crise financeira. Do jeito que as coisas esto caminhando, em pouco tempo ir  falncia. Eu e a 
Renata fomos demitidos.
Alexandre coou a cabea, em sinal de preocupao.
- Vou conversar com alguns amigos influentes. Talvez conheam o dono de alguma outra construtora. Voc est precisando de dinheiro?
- No. Eu tenho uma quantia razovel aplicada no banco. Obrigado.
- A que horas ser a bipsia?
- s nove horas da manh. Ela deve receber alta no final da tarde.
- Voc aceita um caf?
- Obrigado, papai. Preciso ir.
Despediram-se com um abrao apertado e Artur retornou para sua casa.
Enquanto dirigia, pensava no melhor meio de encorajar a sua me para enfrentar um possvel cncer de mama. De repente, em sua mente surgiu a imagem do homem que 
apareceu em seu sonho e, depois, ajudou a sair do carro, quando do acidente. Quem seria ele? Qual razo de ter aparecido em sua vida? Seria um anjo?
Chegando em casa, encontrou a me costurando uma camisa sua.
- Eu estava arrumando o seu guarda-roupa e separei algumas camisas que esto furadas.
Artur sentou-se no sof, ao lado de sua me. Estava em dvida sobre se falava a respeito do homem com o qual sonhou. Decidiu falar na expectativa de que sua me 
trouxesse alguma pista a respeito dele.
- Me, recentemente aconteceram dois fatos interessantes em minha vida. Eu preferi omitir da senhora, mas agora acho que devo falar. Aconteceu um milagre e acho 
importante falar para a senhora sentir o poder de Deus
Rosemeire interrompeu a costura, tirou os culos e perguntou:
- Que fatos so esses?
- Alguns dias atrs, eu tive um sonho com um homem. Eu estava em uma ponte muito bonita, em forma de arco, que cruzava um rio largo. Esse homem aproximou-se e eu 
tive uma forte sensao de j conhec-lo. Eu perguntei a ele se ns j nos conhecamos e ele respondeu que provavelmente tnhamos amigos em comum. Depois, eu perguntei 
se ele morava naquela cidade, tendo ele respondido que j morou ali, mas estava morando em outro lugar, onde ningum guardava mgoa.
De repente, ele me perguntou se havia uma pessoa muito especial em minha vida da qual eu havia me afastado. Eu fiquei surpreso, sem saber o que responder. Ele tornou 
a perguntar se havia uma outra pessoa muito prxima a mim que estava precisando exercer o perdo. Foi ento que eu perguntei: quem  voc? Ele disse que estava apenas 
fazendo um alerta para eu no continuar errando. Depois, ele foi embora. Eu tentei segui-lo, mas no consegui sair do lugar. 
- Estranho esse sonho. Foi antes de voc procurar o seu pai? 
- Isso ocorreu s vsperas da priso da Denise. 
- Voc acha que ele se referiu ao seu pai, quando mencionou uma pessoa de quem voc havia se afastado?
- Eu tenho certeza. Ele foi claro ao dizer que, tanto eu, quanto uma pessoa muito prxima a mim, estvamos precisando exercer o perdo. O papai  quem precisa do 
perdo e a pessoa prxima a mim  voc.
- Eu sei que preciso perdoar o seu pai. Tenho pensado muito a esse respeito ultimamente.
- Esse senhor do sonho voltou a aparecer em minha vida. 
- E o que ele disse dessa vez? Que, se eu no perdoar o seu pai, vou morrer de cncer?
- No ridicularize a situao. Ele no disse nada na segunda vez. 
- Se ele no disse nada, por que apareceu em seu sonho novamente? 
- Ele no me apareceu em sonho. Ele me ajudou a sair do carro, quando tive o acidente.
Rosemeire deu um sorriso irnico e perguntou: 
- Artur, do que voc est querendo me convencer? No precisa inventar histrias mirabolantes. V logo ao cerne da questo. 
A incredulidade de sua me deixou Artur irritado. 
- Eu no estou tentando convenc-la a fazer nada. Tambm no estou ficando louco. Eu estava com dificuldade em tirar o cinto de segurana. De repente, senti uma 
mo puxando o meu brao. A, eu vi que o cinto estava destravado. Consegui sair pela janela e fiquei com a impresso de ter visto um vulto idntico a esse homem. 
Eu me virei para procur-lo e j no o vi mais. No havia ningum prximo a mim. Fiquei com a sensao de que se tratava de um anjo.
- Voc estava em estado de choque. No teve essa impresso a srio. 
- Eu gostaria que a senhora acreditasse em mim. Milagres existem e eu sou testemunha de um que ocorreu comigo.

A incredulidade de Rosemeire estava estampada em sua face. Artur viu que no adiantava continuar falando daquele fato, sob pena de ficar ainda mais irritado, e resolveu 
mudar de assunto.
- A Denise telefonou para ter notcias suas e mandou um abrao. Talvez, ela v visit-la, amanh.
Sempre que Artur fazia algum comentrio sobre Denise, a fisionomia de sua me ficava mais leve.
- Estou com saudades dela. Como est o relacionamento de vocs?
- A senhora no perde por aguardar as cenas do prximo captulo.
Rosemeire deu um sorriso, demonstrando o seu contentamento e indicando ter entendido perfeitamente a disposio do filho em investir no relacionamento com aquela 
moa de beleza mpar e corao doce, a qual exercia uma misteriosa e pura atrao sobre ela, como se entre as duas
houvesse mais pontos em comum do que as aparncias demonstravam.




CAPTULO 
XIX


Alexandre no conseguiu dormir direito durante a noite que antecedeu a bipsia de sua ex-esposa. O sono sempre era interrompido por algum pesadelo, e a ele custava 
a pregar os olhos novamente. A imagem
de Rosemeire no saa da sua cabea. Como em um filme, lembrou-se de todos os momentos importantes que tiveram, desde o dia em que se conheceram em Trancoso, at 
o dia em que ele saiu de casa.
Decidiu que deveria fazer o possvel para ajudar Rosemeire. Caso necessrio, iria inclusive cham-la para terem uma conversa franca, na qual poderiam expressar sentimentos 
represados.
Na casa de Rosemeire, ela e Artur j estavam de sada para o hospital. Rosemeire parou em frente  imagem de Nossa Senhora Aparecida e pediu proteo. No se lembrava 
qual teria sido a ltima vez em que tinha recorrido ao socorro da santa de sua devoo. Ultimamente, a nica funo da imagem era decorar o ambiente.
Conforme combinado, chegaram ao hospital s oito e trinta, meia hora antes do horrio marcado para a bipsia.
Rosemeire assinou os documentos apresentados pelo hospital, a fim de que o convnio cobrisse o custo do exame, e ficou aguardando ser chamada.
Decorridos alguns minutos, um enfermeiro apareceu e chamou pelo seu nome. Uma forte ansiedade tomou conta dela. O resultado daquele exame diria a gravidade do tumor. 
Quando viu o doutor Rafael, ela ficou mais tranquila.

- Est tudo bem?
- Mais ou menos. A apreenso  muito grande.
- Como eu disse, o procedimento  simples. Ns faremos uma anestesia local e, se tudo correr bem, terminaremos em uma hora.
- Em quanto tempo fica pronto o resultado?
- Em cinco dias.
Rosemeire achou que aqueles dias demorariam uma verdadeira eternidade. Sentiu-se angustiada s de imaginar a espera pelo resultado.
- No vou pensar em outra coisa nesses prximos dias.
- O importante  que voc est tomando as medidas necessrias. - tornou o mdico, procurando encoraj-la. - Se o tumor for maligno, vamos derrot-lo. A confiana 
 fundamental para vencer qualquer doena. Voc no ouviu falar que a f remove montanhas?
As palavras do mdico seduziram Rosemeire, deixando-a mais confiante. O doutor Rafael tinha um olhar bondoso, de algum que faz da profisso um meio de cumprir uma 
misso. A sua simples presena trazia segurana.
A bipsia teve incio e tudo transcorreu dentro do previsto. Alguns minutos depois de finalizado o procedimento, Rosemeire foi encaminhada a um quarto, onde repousaria 
at o final da tarde.
Artur j a aguardava, quando ela entrou no recinto. Sobre a cama, um lindo buque de flores do campo.
- No precisava se preocupar. Que flores lindas! Obrigada.
- Verifique quem as enviou, antes de me agradecer.
Rosemeire olhou espantada para o filho.        
-  No foi voc?
- No.
- Aposto que foi a Denise. Deixe-me ler o carto. Aps ajeitar o corpo na cama, Rosemeire abriu o carto. Quando leu o contedo, a sua fisionomia mudou, demonstrando 
surpresa.
- Posso saber quem mandou as flores?
- Voc contou ao seu pai sobre o meu estado de sade?
- Contei, sim.  importante ele saber o que est acontecendo.
- Posso ler o carto?
Rosemeire entregou o carto ao filho. Este, por sua vez, ficou emocionado ao ler a mensagem.

"Receba estas flores pela histria que construmos juntos e que jamais ser apagada. Estou rezando para que tudo saia bem." 
Afetuosamente, Alexandre.



Artur levantou-se e pegou as flores, colocando-as em uma jarra que estava sobre uma mesinha. Rosemeire exprimiu o que estava sentindo:
- Elas so bonitas. O seu pai sempre teve bom gosto para flores. No incio do nosso casamento, ele no deixava passar uma data importante sem comprar um lindo buqu. 
Com o passar do tempo, ele parou com esse hbito.
A senhora j deu flores para ele alguma vez? 
- No. 
- E por que no?
- Isso  coisa que cabe aos homens fazer. As mulheres devem receber flores, e no d-las.
- A senhora est enganada. O homem tambm adora receber flores. Lembra-se de uma menina, alguns anos atrs, que durante vrias semanas deixava para mim uma nica 
flor na portaria do prdio? No me esqueo da primeira vez que recebi a flor. Junto dela, tinha um carto com apenas duas palavras escritas: "Bom-dia".
- Acho que a moa estava to apaixonada por voc que no teve coragem de se revelar.
-  uma possibilidade. Besteira dela, porque eu estava curioso para conhec-la.
Rosemeire olhou para o buque de flores ao seu lado. No conseguiu esconder a felicidade com a atitude do ex-marido.
- A senhora gostou de receber estas flores, posso ver em seus olhos.
Rosemeire tentou, em vo, controlar o sorriso. 
- Gostei, sim. Foi uma atitude carinhosa do seu pai. Na verdadee, eu sei que ele deve estar preocupado comigo. Ele tem um corao muito bom.
A conversa foi interrompida pelo barulho de algum batendo na porta. Artur levantou-se para abri-la. Quando viu Denise, sentiu o corao bater mais forte.
Ela o abraou com uma fora mais intensa do que das outras vezes, aproveitando para acariciar as suas costas. Artur sentiu uma sensao ansiosa de aconchego. A sensao 
daquele abrao para ele era como se um fosse o nmero do outro, pois cada parte dos seus corpos se encaixavam em perfeita harmonia.
- Como est passando a sua me?
- Est bem. Entre.
- 
Denise caminhou at Rosemeire que abriu um largo sorriso assim que a viu.
- Fico feliz por voc ter vindo.
- Eu no poderia deixar de vir. Est tudo bem?
- Agora, eu estou melhor - respondeu Rosemeire, enquanto recebia o abrao da visitante.
Novamente, a conversa foi interrompida pelo barulho de algumas batidas na porta.
- Pode entrar! - gritou Artur.
O doutor Rafael abriu a porta e caminhou em direo  sua paciente, aps cumprimentar Artur e Denise.
- Vim ver como voc est passando.
- Eu estou bem. Deixe-me apresentar a Denise. Ela pegou a sua indicao com a doutora Beatriz.
- Muito prazer, Denise. A Beatriz  uma grande amiga, alm de excelente profissional.
Em seguida, o mdico saiu, prometendo voltar na parte  tarde. Denise permaneceu no quarto por alguns minutos, sentada ao lado de Artur no sof. Vez ou outra, propositadamente, 
encostava o seu brao no brao dele. Artur sentiu o corao acelerar os batimentos e teve forte desejo de beij-la.
Assim que Denise decidiu ir embora, Artur apressou-se em acompanh-la at o carro.
O corao dela disparou, como uma adolescente que est diante de uma grande paixo.
Rosemeire ficou feliz com a postura do filho. Sentiu que ele partiria para a investida.
Tanto Artur quanto Denise sentiram um frio na barriga. Desceram os cinco andares pelo elevador. O carro de Denise estava a alguns metros de distncia da portaria 
do hospital. Artur pensava sobre a melhor forma de fazer a abordagem. Denise estava ansiosa, querendo que ele a beijasse.
Ela abriu a porta do carro e jogou a bolsa sobre a poltrona. Virou se para Artur e trocaram um longo olhar, em silncio. Artur acariciou os seus cabelos e a sua 
face. Ela fechou os olhos e sentiu um arrepio subindo pela espinha. Ainda de olhos fechados, sentiu a respirao dele bem prxima. Mais um pouco e seus lbios se 
tocaram. Imediatamente abraaram-se e beijaram-se demoradamente. Depois, Denise fitou Artur, suspirou fundo, criou coragem e confessou:

- Voc  o melhor presente que eu poderia ganhar na minha formatura. Desejava tanto estar com algum interessante no dia da colao de grau, mas j tinha perdido 
as esperanas. 
Os olhos de Artur estavam brilhando de contentamento. Naqueles poucos minutos, ele esqueceu o problema de sade da me.
- Denise, eu tenho pensado muito em voc. Estou at um pouco confuso, porque tudo est acontecendo muito rpido. Na verdade, desde o dia que voc foi me visitar 
l em casa, eu comecei a pensar em voc de uma forma diferente. Confesso que no havia sentido nada naquele contato inicial. Tambm, o momento e o local no eram 
propcios...
Denise abaixou a cabea, envergonhada pela situao em que se conheceram.
- Voc deve ter tido uma impresso horrvel de mim, aquele dia na delegacia - disse ela.
Artur pegou carinhosamente no queixo dela, levantando a sua cabea.
- Confesso que a primeira impresso no foi boa, mas eu j estou com outra impresso de voc. Pode ficar tranquila.
- Voc est falando srio ou s para me agradar?
- Estou falando srio. Se no fosse assim, voc no estaria despertando em mim todo esse interesse. Alis, voc est conquistando tambm a minha me. Ela ficou sua 
f.
Denise sorriu, pois j havia percebido o carinho de Rosemeire.
- Eu tambm fiquei f dela. No sei explicar o motivo, mas tive muita afinidade com a sua me. Tenho a impresso de que algum lao misterioso nos une. Uma coisa 
meio inexplicvel.
- Quem sabe, um dia, vocs duas encontram uma explicao para essa simpatia recproca?
- Quem sabe? - tornou Denise.
- Veja que interessante - disse Artur. - O nosso primeiro encontro foi em uma delegacia e o primeiro beijo em frente a um hospital. Parece brincadeira!
- Artur, estou feliz por estar aqui com voc.  importante comear um relacionamento com tanta solidariedade. Conheo alguns casais que se separam porque solidariedade 
 uma palavra que no existe no vocabulrio deles. O egosmo  tanto, que no enxergam as necessidades do outro.

-  verdade. Nesse sentido, estamos comeando bem.
Denise voltou a abra-lo, desta vez apertando com mais fora o seu corpo junto ao dele. Depois, falou baixinho:
- Eu preciso ir embora. Voc me liga?
- Claro! Vou ficar com a mame, na parte da tarde.  noite, quando eu chegar em casa, telefono para conversarmos.
Despediram-se com mais um beijo longo, seguido de outro abrao apertado.
Artur viu o carro de Denise ganhar distncia, at sumir depois de uma lombada, e retornou para o quarto do hospital. Estava muito feliz, certo de que poderia comear 
um relacionamento com boas chance, de dar certo. Mais uma vez, parecia que sua me tinha razo nos assuntos referentes  vida afetiva dele. Ela costumava acertar 
todos os palpites sobre as suas namoradas.
Assim que ele abriu a porta do quarto, Rosemeire o acompanhou  com os olhos, esperando o filho contar o que havia acontecido.
- No vai me contar nada?
- Est bem, mame, eu conto. Ela tem uma boca muito macia e um  beijo apaixonante.  isso o que a senhora gostaria de saber, no ?
Rosemeire sorriu e acenou afirmativamente com a cabea.
- Corao de me no se engana! Parabns por ter cativado uma menina to boa. Eu vejo nos olhos dela a admirao que tem por voc e como ela deseja estar ao seu 
lado. Parece que voc se tornou um heri para ela, depois de tudo o que fez para livr-la da cadeia. Sinceramente, espero que voc valorize essa moa. No a menospreze 
por estar apaixonada.
- Eu acho que a senhora est exagerando no sentimento que ela tem por mim. Do meu ponto de vista, ela est a fim de mim, mas no chega a ser uma paixo.
- Engano seu. Apesar do pouco contato que tive com a Denise, sinto que a conheo como se fssemos velhas amigas. Essa a razo que me autoriza a dizer que ela est 
apaixonada por voc.
- Ela disse que tambm teve uma afinidade muito grande com a senhora.
- Neste momento difcil que estou vivendo,  muito bom saber que vocs dois esto comeando a se entender. Ainda bem que voc no insistiu em conquistar a Renata. 
Ela  uma boa moa, mas no faria voc feliz.
A conversa foi interrompida pelo celular de Artur tocando. Assim que olhou no visor do telefone, viu que era a sua av quem estava chamando.
Artur conversou alguns minutos com ela, tendo que narrar os detalhes do acidente de carro na lagoa. Depois, passou o telefone para a sua me.

- Minha filha, eu decidi ir a Belo Horizonte visit-la. J comprei a passagem, sairei depois de amanh, s quinze e quarenta. Fale com o Artur que no precisa me 
buscar no aeroporto, eu pego um txi.
A notcia da visita de sua me encheu de alegria o esprito de Rosemeire. 
- J estava sentindo saudades da vov - disse Artur. 
- Eu tambm. A presena dela ser muito importante para mim. Agora, acho que vou tirar um cochilo, estou cansada.
Rosemeire ajeitou o corpo na cama e, em menos de dez minutos, estava dormindo. O pretendido cochilo virou um sono restaurador, de duas horas ininterruptas.
Quando acordou, tomou a refeio que estava posta sobre a mesa. Pouco depois, o doutor Rafael retornou ao quarto e a liberou.
Na casa de Denise, o sorriso constante denunciava que algo de muito bom havia lhe acontecido.
- Voc est feliz, assim, por causa da formatura? 
- Exatamente, papai. Amanh ser um dia muito especial.
Renata conhecia bem a irm e desconfiou que o motivo da alegria dela fosse outro, atendendo pelo nome de Artur. Mais uma vez, ela sentiu certo arrependimento por 
ter aberto o caminho para Denise conquist-lo.






CAPTULO 
XX


Quando se preparava para dormir, j em seu quarto, Beatriz levou um susto ao ouvir o barulho da televiso sendo ligada. Estava sozinha em casa, como de costume. 
Lili, a secretria domstica, havia ido embora s sete da noite. O apartamento tinha trs quartos, sendo que o dela era o mais distante da porta de entrada. Logo 
pensou que tinha entrado ladro em sua casa e que no tinha ouvido o barulho da porta se abrir, em funo da distncia entre o quarto e a sala. Em um repente, deu 
trs passos, com cuidado para no fazer barulho, e encostou a porta, que estava semi-aberta, girando a chave para tranc-la. O corao estava disparado e ela sentia 
falta de ar. Tentava respirar sem fazer barulho. Apagou a luz e comeou a rezar, em silncio, implorando a Deus para que o bandido no tentasse abrir a porta de 
seu quarto.
Fora o barulho do som da televiso, no ouvia mais nada. Pensou em telefonar para a polcia, mas desistiu, receosa de que o ladro ouvisse a sua voz. Os minutos 
passavam lentamente e ela no ouvia barulho que denunciasse a presena de algum em seu apartamento.
De repente, outro susto: a luz do seu quarto se acendeu. Veio-lhe  mente o pensamento de que tanto a televiso quanto a luz poderiam ler sido ligadas por algum 
tipo de fenmeno. Passou a considerar a possibilidade de que no havia ladro em casa.
Beatriz criou coragem, abriu a porta do quarto, acendeu a luz da sala, percorreu todo apartamento e constatou que no havia ningum em casa. Deixou a televiso ligada, 
mas no estava prestando ateno no programa que estava passando. Pensava no fenmeno ocorrido. Como teriam sido ligadas a televiso e a luz do quarto?

Sozinha em sua casa, Beatriz sentiu saudades da sua irm e da sua me, ambas mortas: a primeira, vtima de cncer, vinte anos atrs, e segunda, vtima de acidente 
de carro, h apenas um ano.
Ela pegou o lbum de fotografia e comeou a olhar as fotos, sentindo uma intensa emoo, sobretudo quando viu as que retratava a sua infncia, o melhor perodo da 
sua vida, quando a famlia toda estava reunida. Agora, s lhe restava o pai, que morava em um stio, em Macacos, um vilarejo prximo a Belo Horizonte.
Como o sono no vinha, ela aproveitou para estudar. Caminhou at o quarto que transformara no seu escritrio e puxou um livro da escrivannha. Nesse momento, caiu 
um envelope no cho. Era o convite de formatura de Andr, filho de Jaqueline, sua colega de faculdade. Beatriz havia esquecido completamente da formatura dele. Para 
sua sorte, a solenidade seria no dia seguinte. No poderia deixar de prestigiar Andr.
Aps uma hora de leitura, o sono veio e ela teve vrios sonhos com me e a irm, mas no se recordava de como tinham sido os sonhos. A acordar, olhou o relgio e 
viu que estava atrasada. Tomou banho rapidamente e pegou uma ma na geladeira, para comer no trabalho.

***

Durante todo o dia, Denise pensou bastante em Artur. O seu entusiasmo pelo relacionamento que se iniciava era visvel.
Artur tambm estava ansioso, no sabendo como se comportar na frente da famlia de Denise, haja vista a timidez que sentia no incio de um namoro.
Completando o ciclo das pessoas que estavam apreensivas, Renata rezava para que Adriano no fizesse nenhum escndalo por causa de cimes de Artur.
Aos poucos, os convidados foram chegando. O auditrio onde seria a colao de grau era relativamente pequeno.
Artur saiu na frente de Rosemeire, que acabou se atrasando e ficou de pegar um txi.
Quando ela chegou ao auditrio, restavam poucas cadeiras desocupadas.
Olhou para a sua direita e viu que a quarta estava vazia. Pediu licena s pessoas que ocupavam as outras cadeiras e sentou-se.
Rosemeire procurou localizar o ex-marido no auditrio. Como no o viu, ficou mais tranquila para cumprimentar Denise no final da solenidade.
Os formandos foram para um salo em anexo, a fim de receberem os cumprimentos.
Beatriz ficou surpresa ao perceber que Denise era da mesma sala de Andr, filho de Jaqueline. Quando a viu, teve dificuldades em se aproximar, pois vrias pessoas 
aguardavam na fila para cumpriment-la, entre elas Rosemeire, que estava justamente  sua frente.
Ao abraar Rosemeire, Denise viu que a mdica estava logo atrs e ficou feliz ao v-la. Deu um sorriso para ela, externando o seu contentamento.
- Que surpresa agradvel, doutora Beatriz!
- Parabns e muito sucesso na vida profissional. Eu recebi o convite do Andr, seu colega. Sou muito amiga da famlia dele.
- Eu gostaria de apresent-la ao meu pai e  minha irm. Por favor, venha aqui - disse Denise, enquanto puxava a mdica pelo brao.
- No se preocupe. D ateno aos seus convidados.
- Fao questo, doutora.
- Pai, esta aqui  a doutora Beatriz, mdica da Casa de Apoio.
- Muito prazer! A minha filha falou muito bem da senhora. Estou orgulhoso com a sua presena.
- Parabns pela formatura da sua filha.
- Tenho a impresso de que a conheo - tornou Lenidas. 
Beatriz sorriu, antes de responder.
- Pode ser, mas no estou me lembrando do senhor.
Nesse momento, Denise aproximou-se, trazendo Rosemeire em sua companhia.
- Doutora Beatriz, esta  a Rosemeire, minha amiga que est consultando com o doutor Rafael.
- Muito prazer. Espero que esteja satisfeita com o mdico que eu indiquei.
- Eu estou muito feliz com o acompanhamento do doutor Rafael.
- O que ele est achando do seu caso?
- Eu fiz a mamografia e a bipsia. Ele disse que h a suspeita de o tumor ser maligno. Vou aguardar o resultado da bipsia. Espero que saia tudo bem, mas, na hiptese 
de estar com cncer, gostaria de fazer tratamento ps-cirrgico com a senhora. O doutor Rafael falou muito bem a seu respeito. Por acaso a senhora teria um carto?
- Perfeitamente - respondeu Beatriz, enquanto abria a bolsa.
Aps entregar o carto, Beatriz retirou-se.
Logo em seguida, Rosemeire sentiu algum segurar o seu ombro, Ao virar o corpo, quase caiu para trs ao ver Alexandre.
- Tudo bem? - perguntou ele.
- Graas a Deus. E com voc? - perguntou ela, tendo o corao acelerado e a respirao ofegante.
- Estou bem. O Artur me falou sobre o ndulo que apareceu no seu seio. Espero que no seja nada de grave.
- Eu tambm. Obrigado pelas flores e pelo carto. Foi muita gentileza da sua parte.
- Eu pedi ao Artur para me colocar a par de todos os acontecimentos. Quero que saiba que voc pode contar comigo para o que precisar.
- Obrigada. Eu no vou dispensar a sua ajuda.
- Voc est muito bonita.
O elogio do ex-marido deixou-a desconcertada e a sua face ficou rosada.
- Bondade sua. Voc tambm est muito bem.
Denise observava de perto a conversa entre os dois. Por Alexandre, tinha uma imensa gratido. O empenho dele para conseguir a sua liberdade era algo de que se recordaria 
pelo resto da sua vida. J, por Rosemeire, Denise sentia uma enorme afinidade, como se fosse fruto de vidas passadas, alm de enxergar nela a sogra que sempre desejou 
ter.
O fato de os dois conversarem amistosamente em sua formatura era motivo de muita alegria. Em funo do sentimento que nutria por eles, desejava que pudessem manter 
um relacionamento pacfico, caso a reconciliao no fosse possvel.
Alexandre despediu-se de Rosemeire, dando-lhe um forte abrao. No caminho para casa, lembrou-se dos bons momentos que viveram juntos e pensou nela com um carinho 
que h muito no sentia. Pela primeira vez, nos ltimos anos, os seus pensamentos eram desprovidos de qualquer censura em relao ao modo de ser e de agir da ex-mulher.
Distante dali, Rosemeire seguia com o filho para o restaurante onde Lenidas havia reservado algumas mesas. Artur estava curioso para saber qual tinha sido a reao 
de sua me aps o encontro com Alexandre.

- Como foi  sensao de ter visto o papai?
- Eu levei um susto quando o encontrei - confessou ela. - J havia procurado por ele no auditrio, mas no o tinha visto. Por isso, fiquei tranquila, certa de que 
ele no tinha ido  formatura. Acho que foi bom o encontro. Parece que eu tirei um peso das costas. Estou sentindo que no tenho tanta raiva dele como imaginava. 
Est na hora de seguir a minha vida. Eu no posso ficar aprisionada sentimentalmente a ele. Tinha tanto medo desse encontro e, de repente, percebi que eu sou mais 
forte do que imaginava.
- Tudo na vida passa, mame. Essa dor tambm passar e a senhora voltar a ser feliz. Esse encontro foi muito importante.
Artur estacionou o carro exatamente atrs do carro de Adriano e percebeu que, no interior do veculo, ele e Renata discutiam acaloradamente.
- Olhe a Renata discutindo com o namorado. Quando ela vai enxergar que esse relacionamento no tem futuro?
- Meu filho, cada um tem o seu tempo. O que parece lgico para alguns pode ser extremamente complexo para outros. Ela ainda no esgotou as esperanas de ser feliz 
ao lado dele. s vezes, esse processo  lento e penoso.
Ao descerem, passaram ao lado do carro de Adriano fingindo nada terem visto.
Alguns minutos depois, Renata e Adriano entraram no restaurante. A insatisfao recproca estava estampada no rosto de cada um.

 
CAPTULO 
XXI


Quando Denise acordou, ela comeou a recordar os fatos ocorridos no restaurante. Lembrou-se do beijo de Artur. Ela percebeu a alegria do pai por v-la acompanhada 
de um rapaz ntegro, que ele admirava. Depois do primeiro beijo, os outros vieram com mais naturalidade. A noite foi perfeita para Denise. Agora, ela estava com 
vergonha de encarar o pai, principalmente porque Artur estava sendo esperado para o almoo.
Para sua surpresa, seu pai e Renata no fizeram qualquer comentrio sobre os beijos da noite anterior. Apenas Lenidas perguntou qual bebida deveria comprar para 
Artur.
Ao ver a forma carinhosa como o pai estava tratando o seu ex-colega de trabalho, Renata ficou sentida por ele no dar o mesmo tratamento a Adriano. Ela sabia que 
dificilmente Adriano seria uma pessoa benquista em sua casa, em funo das inmeras vezes que a fizera sofrer.
O almoo foi preparado por Lenidas, que fez estrogonofe.
O interfone tocou, anunciando a chegada do convidado. Denise foi recepcion-lo. Quando viu que ele carregava um buque de flores, sentiu a face ficar corada. Segurou 
Artur pela mo, conduzindo-o at a presena de seu pai. Depois, colocou as flores em uma jarra.
Renata sentiu uma ponta de inveja ao ver o carinho que Artur dispensava a irm. Definitivamente, aquela no era a forma como Adriano a tratava.
Artur e Lenidas conversavam como se fossem velhos amigos.
O almoo foi servido e todos saboreavam o estrogonofe, quando Lenidas teve um sobressalto, levando a mo  testa.
- O que aconteceu? Voc est passando mal? - perguntou Renata.
Lenidas olhou para a filha, sem saber o que responder. A sua expresso era de espanto. Comeou a suar pela testa. Ficou mudo, aumentando a apreenso de todos.
Denise estava ao lado dele e ficou preocupada com a fisionomia do pai. Ele parecia ter perdido o flego.
- Tenha calma, papai. Beba um copo de gua.
Lenidas levou a mo ao peito, fechou os olhos e respirou lentamente.
- Est tudo bem. Apenas me assustei com uma pontada no peito, mas j est passando. Vou procurar um mdico. No custa fazer um check-up.
- Coma mais devagar - aconselhou Renata.
- Eu estou comendo devagar. O mal-estar no tem nada a ver com a comida. Desculpem-me, mas eu perdi o apetite. Vou deitar para me refazer do susto.
Lenidas levantou-se e caminhou para o seu quarto, a passos lentos.
Artur percebeu que havia algo de errado, afinal, de uma hora para outra, Lenidas mudou de humor. Diante dessa circunstncia, aps comer a sobremesa de goiabada 
com queijo, conhecida como "Romeu e Julieta", Artur decidiu ir embora, a fim de deix-los  vontade. Denise o acompanhou at a portaria do prdio.
Ao voltar para o apartamento, passados aproximadamente dez minutos, Lenidas e Renata esperavam-na sentados no sof da sala. Pela expresso do pai, Denise percebeu 
que ele tinha algo a falar.
- O que aconteceu?
- Sente-se, minha filha. Preciso conversar com voc e sua irm.
O olhar do pai denunciava a gravidade do assunto que ele trataria com as filhas.
Lenidas tomou um gole de gua, suspirou fundo e introduziu o assunto.
- Eu carrego um segredo comigo, h vinte e trs anos, e preciso compartilh-lo com vocs, seno vou explodir.
Era a primeira vez que Lenidas procurava as filhas para fazer um desabafo, o que as deixou ainda mais ansiosas.
-  difcil falar o que eu tenho para dizer, porque se trata de um erro muito grave que eu cometi em minha vida. O pior  que eu no fui homem para assumi-lo.
Denise procurou confortar seu pai, pois sempre recebeu apoio dele, inclusive por ocasio do erro que a levou  priso.
- No fique envergonhado, pois todos ns erramos. Independente do seu erro, ns lhe daremos apoio, o mesmo apoio que o senhor sempre nos deu.
Os olhos de Lenidas brilhavam, um pouco pela lgrima que ameava cair, um pouco pela sensao de liberdade ao decidir relatar um egredo por tanto tempo armazenado 
em sua mente.
- Obrigado, minha filha. Precisarei muito da compreenso de vocs duas, mas, sobretudo, de voc.
Denise arregalou os olhos, pois pressentiu que o erro mencionado por seu pai tinha alguma relao com ela.
- Eu vou ser direto.
Lenidas fechou os olhos, respirou fundo, elevou seus pensamentos a Jesus Cristo e confessou.
- Eu tive um relacionamento amoroso com a Imelda.
Denise teve a impresso de que iria desmaiar, j que a sua vista ficou embaada. Renata ficou chocada com a afirmao do pai. Jamais suspeitaram de tal fato.
-  isso mesmo. Eu tive um caso com a Imelda.
Lenidas aproximou-se de Denise, sentada  sua direita no sof, pegou as mos dela, acariciando-as com doce ternura, olhou em seus olhos verdes, e prosseguiu.
- Filha, o perodo em que eu vivi um romance com a Imelda coincidiu com a sua concepo. Segundo ela, eu sou o seu pai biolgico.
Instantaneamente, as lgrimas rolaram pela face de Denise. Renata estava perplexa. Ambas jamais suspeitaram de nada acerca daquela afirmao. Para elas, Denise era 
filha de Imelda com Alan, o namorado que morava com ela na mesma casa na fazenda.
- Eu no acreditei quando ela me disse que estava esperando um filho meu. Afinal, ela vivia com o namorado. Questionei isso, mas ela afirmou que no tinha nada com 
Alan. Alis, ela falou que ele era homossexual. Apresentaram-se como casal porque acreditavam que facilitaria a obteno do emprego. Segundo ela, ele era traficante 
e estava foragido da cidade de Maring, no Paran. Ela tambm morava l e fugiu com ele em funo de uma briga com o pai. Na poca, no existia exame de DNA e eu 
no aceitei assumir a paternidade. O Alan foi embora da fazenda antes dela me contar sobre a gravidez. No tive oportunidade de conversar nada com ele sobre este 
assunto. Segundo a Imelda, ele voltou para Maring quando obteve informao de que o traficante que o estava ameaando havia sido morto. Ela sentiu-se abandonada, 
mesmo porque estava brigada com o pai, e decidiu abortar, somente no levando a cabo o seu intento pela interveno de sua me, que nem sonhava do meu romance com 
ela. Sei que o meu comportamento, no acreditando nela, foi decisivo para ela querer fazer o aborto.
- A mame chegou a tomar conhecimento desta histria? - perguntou Renata, receosa de que os problemas cardacos de sua genitora pudessem ter se agravado, aps ela 
tomar conhecimento daqueles fatos.
Lenidas balanou a cabea, em gesto negativo.
- Eu poupei a sua me desse desgosto, mesmo porque a sade dela sempre foi debilitada. Na verdade, eu fui apaixonado pela Imelda, cheguei a pensar em me separar 
de sua me para ficar com ela, mas levei em considerao o fato de que eu tinha uma famlia estabilizada e que a Vera era uma esposa fora do comum.
- Por que o senhor est nos contando isso agora? - perguntou Denise, enquanto limpava uma lgrima.
Lenidas voltou a suspirar fundo.
- A Imelda me contou que tinha uma irm gmea, de nome Beatriz.
Denise sentiu um calafrio dos ps  cabea.
- Ontem, quando voc me apresentou para a doutora Beatriz, eu tive a ntida sensao de j conhec-la. Durante o nosso almoo de hoje, eu me lembrei que ela se parece 
muito com a Imelda. Acho que ela pode ser a irm gmea da Imelda.
Denise comeou a chorar compulsivamente, sendo abraada por seu pai.
- No posso afirmar que a doutora Beatriz  a irm da Imelda, mas esta  uma possibilidade que deve ser investigada - tornou Lenidas.
- Como ns faremos para tirar essa dvida? - perguntou Renata.
- Primeiro, eu preciso saber se a Denise me autoriza a fazer a investigao.
Denise ficou em silncio por um tempo. Depois respondeu.
- Eu j tive muita mgoa dela, no  segredo para vocs. Hoje, isso faz parte do passado. Com tantas coisas boas acontecendo na minha vida, no vou deixar espao 
para mgoas em meu corao. Alm do mais, eu gosto muito da doutora Beatriz e no quero ter raiva da irm dela, caso se concretize a sua suspeita.
- H outra vantagem em encontrar a Imelda, minha filha: ao fazer o exame de DNA, com o resultado positivo, poderei desculpar-me com ela e corrigir o grande erro 
que cometi.
Denise sorriu e abraou carinhosamente Lenidas.
- Isso no far a menor diferena para mim, papai. No meu corao, o senhor  o meu pai, independente de termos ou no o mesmo sangue.  o que importa.
- Voc no sabe qual  o sobrenome da doutora Beatriz? - indagou Renata.
- No, mas isso eu descubro na segunda-feira.
- Caso o nome dela seja Beatriz Moraes de Carvalho, voc estar diante da irm gmea da mulher que carregou voc no ventre - disse Lenidas.
De sbito, Denise afastou-se.
- J sei. A doutora Beatriz deu o carto dela para a Rosemeire na minha formatura.
Imediatamente, Denise pegou o telefone que estava na cabeceira da cama e telefonou para a amiga.
- Rosemeire, voc est com o carto da doutora Beatriz?
- Est na minha bolsa.        
- Por favor, olhe qual  o nome completo dela.
- Aguarde um momentinho.
Denise tinha a respirao ofegante. Aqueles segundos pareciam durar uma eternidade.        
- Quer anotar o nome dela? - sugeriu Rosemeire.     
- No. Apenas fale.
- Beatriz Moraes de Carvalho.
Quando ouviu a resposta, Denise deu um grito de emoo.
- O que foi Denise? - tornou Rosemeire.
Renata pegou o telefone da mo da irm, imaginando a preocupao de Rosemeire, e cuidou de acalm-la.
- Est tudo bem com a Denise. O nome completo da mdica  Beatriz Moraes de Carvalho, no ?
- Exatamente. O que est acontecendo?
- Depois, eu explico com calma. A Denise est muito emocionada, porque que a doutora Beatriz  a irm da Imelda e me biolgica da Denise.
Em seguida, Renata desligou o telefone e abraou a irm. Os trs choraram de emoo. Lenidas retomou a conversa.
- Esse mundo  muito pequeno. At agora, eu estou impressionado com a coincidncia. Desde a priso da Denise, parece que tudo que acontece est direcionando para 
este encontro.
- De fato, a Denise somente veio a conhecer a doutora Beatriz, em funo da priso. Esse encontro parece ter sido agendado pelos anjos de Deus. Ser que a Imelda 
est viva? - indagou Renata.
- Em breve, ns saberemos - tornou Lenidas. - Mesmo que no esteja, ser importante saber o que foi feito da vida dela.
Em seu ntimo, Lenidas almejava reencontrar Imelda. H vinte e quatro anos, eles viveram um amor proibido, mas, agora, com a morte de Vera, poderiam ter um bonito 
futuro juntos.
Jamais havia conseguido esquec-la por completo, apesar do longo tempo decorrido. A morte de Vera foi um golpe duro para ele, em face da cumplicidade que havia no 
relacionamento, mas agora ele sentia-se pronto para viver novamente o amor. Guardava ainda, em seu corao, o desejo de fazer o exame de DNA, pois seria motivo de 
muita alegria descobrir que era o pai verdadeiro de Denise.
A conversa foi interrompida pela chamada, no celular de Denise. Por meio do identificador de chamadas, ela viu que era Artur e decidiu atender.
- Denise, est tudo bem com voc? A mame acabou de me falar que a doutora Beatriz  irm da sua me biolgica. Como voc chegou a esta concluso?
- A Imelda tinha uma irm gmea, de nome Beatriz. O papai achou a doutora Beatriz muito parecida com a Imelda. Por isso, desconfiou que fossem irms. O sobrenome 
da Imelda  Moraes de Carvalho, o mesmo sobrenome da doutora Beatriz.
- O que voc est pensando em fazer?
- Saber onde est a Imelda. Temos alguns assuntos para conversar. Agora, prepare-se para a maior surpresa.
- Surpresa maior do que essa?
- O papai confessou que teve um romance com a Imelda e que ela falou que ele  o meu pai biolgico.
Artur ficou pasmado com a revelao. Se o exame desse positivo, ento Denise seria filha adotiva de seu prprio pai biolgico.
- Eu estou um pouco confusa e gostaria de ficar sozinha. Voc se incomoda se no sairmos hoje  noite?
- Claro que no. Eu compreendo a sua situao e acho que o momento  de voc ficar sozinha para refletir sobre tudo isso que est acontecendo. De qualquer forma, 
se precisar estou  sua disposio. - Obrigada. Sei que posso contar com voc.
Em seguida, aps desligar o telefone, Denise pediu licena e foi para o seu quarto, deixando o pai conversando com a irm. Custou a dormir, pensando em como estaria 
a sua me biolgica.
Artur foi sozinho at o aeroporto internacional Tancredo Neves, em Confins, buscar sua av. Rosemeire preferiu ficar em casa, repousando.
A av Maria era uma pessoa muito especial. Ele adorava ouvir as histrias que ela contava e tinha uma profunda admirao por tudo que ela havia conseguido superar 
em sua vida.
Assim que a avistou, ele levantou os braos, saudando-a, e correu para abra-la.
- Quem bom encontr-lo! Eu falei para sua me que no havia necessidade de voc vir me buscar.
- Eu estava  toa em casa, vov. No me custava vir aqui. Alm do mais, eu estou com muitas saudades da senhora.
- Voc est com uma cara to boa! Aposto que est apaixonado.
Artur sorriu. Os seus olhos tinham um brilho diferente, denunciando uma felicidade incomum.
- A senhora acertou. Estou comeando um namoro com uma menina muito legal. Sinceramente, desta vez eu estou entusiasmado.
Maria deu uma leve tapinha na face do neto. Estava feliz por v-lo bem.
- Se voc amar essa menina faa de tudo que estiver ao seu alcance para faz-la feliz. Isso  o mnimo que podemos fazer quando encontramos um grande amor. Muitas 
pessoas passam uma vida inteira sem encontrar algum que amem verdadeiramente.
Artur sabia que ela falava isso de experincia prpria. Depois da morte de Zez, Maria at que tentou, mas no conseguiu amar ningum.
Dali, eles seguiram direto para o apartamento. Durante o trajeto, Maria inteirou-se da situao de sua filha.
Quando chegaram, Rosemeire j os esperava com a mesa do caf posta. Assim que ouviu o barulho da porta, ela levantou-se da cadeira para abraar sua me.
- Que saudade da senhora! Com certeza, ir passar pelo menos um ms conosco.
- Infelizmente, no poderei minha filha. Ficarei poucos dias, pois tenho a formatura da minha afilhada. Ela est tirando o segundo grau e eu j assumi o compromisso 
com ela. No posso faltar ao momento mais importante da vida dela, depois de ter custeado os seus estudos durantes todos esses anos.
- Ento, a senhora ir retornar em seguida para Belo Horizonte. Que papo  esse de ficar poucos dias conosco?
- Vamos ver como as coisas caminharo. Dependendo do que acontecer, eu voltarei com mais calma.
Artur estava colocando a mala de sua av no quarto de hspede quando o seu celular tocou. Era Denise.
- Estou com saudades. Mudei de idia e gostaria de v-lo. Posso ir  sua casa?
- Claro! Ser bom, pois voc conhecer a vov Maria.
A mesa de lanche foi posta e os trs conversavam de forma descontrada,  espera de Denise. Quando esta chegou, Maria j havia sido informada de todas as suas qualidades 
por Rosemeire.
- Ento, voc  a responsvel pelo brilho nos olhos do meu neto. Muito prazer, eu sou a vov Maria.
- A senhora  muito simptica. O prazer  todo meu.
Maria ficou impressionada com a beleza de Denise. O sorriso cativante indicava que ela era uma moa simples, de fcil trato.
Durante o lanche, Denise conversou com os trs sobre a sua descoberta. Maria ficou fascinada com o relato de sua histria, causando uma admirao ainda maior por 
ela.
Denise chegou a cogitar em telefonar naquela noite para a doutora Beatriz, mas foi convencida pelos demais de que a conversa deveria ocorrer pessoalmente, sobretudo 
porque ela no gozava de intimidade com a mdica.
Quando Denise foi embora, os trs ficaram conversando sobre ela.
 

CAPTULO 
XXII

 
O final de semana custou a passar para Denise. Durante a madrugada de domingo para segunda, ela acordou vrias vezes.  medida que as horas passavam, ficava mais 
inquieta.
Quando chegou  Casa de Apoio, Denise recebeu de Carla as tarefas que deveria desempenhar. A falta de concentrao atrapalhou o seu rendimento.
- Estou achando voc distrada, como se estivesse preocupada com alguma coisa. Est tudo bem? -perguntou Carla.
- Estou bem. Apenas um pouco cansada, pelo final de semana corrido que tive.
As crianas tambm perceberam que havia algo de errado com ela, pois no estava sorridente como na semana anterior. Quando deu o horrio do almoo, Denise foi para 
a sua casa. Assim que retornasse, teria o aguardado encontro com a doutora Beatriz.
Aps o almoo, sentou-se no sof, aguardando o horrio de voltar a Casa de Apoio. O telefone tocou e ela foi atender. Para sua surpresa, era da Casa de Apoio.
- Denise, aconteceu uma tragdia. No precisa voltar aqui, na parte da tarde - disse Carla, entre soluos.
O desespero demonstrado por Carla indicava que algo de muito grave havia acontecido. O corao de Denise disparou e ela logo imaginou que a tragdia estava relacionada 
 doutora Beatriz. Seria muito azar, logo agora que ela estava to prxima de ter notcias de sua me biolgica.
- O que aconteceu?
Carla soluava, sem conseguir falar, o que aumentou a ansiedade de Denise.
- O que aconteceu? Fale logo, Carla, pelo amor de Deus! Com muito custo, Carla conseguiu falar.
- Mataram o Robertinho.
Denise sentiu as pernas bambearem. Por um lado, sentiu alvio por estar tudo bem com a doutora Beatriz, mas, por outro lado, ficou chocada com o assassinato de uma 
criana to doce.
- Mataram o Robertinho? Voc tem certeza?
- A me dele acabou de ligar. O crime foi hoje cedo, dentro da casa dele. O enterro ser s trs da tarde. Anote o endereo.
Denise pegou uma caneta e um pedao de papel. Suas mos estavam trmulas. No estava acreditando que encontraria Robertinh morto, dentro de um caixo. Anotou o endereo 
e saiu em direo a cemitrio. Ficou to desorientada com a notcia, que sequer perguntou o motivo do crime e quem havia sido o autor da barbrie.
Rapidamente, Denise comentou com o pai sobre o garoto quem ela aprendeu a gostar em to pouco tempo de convvio. Em seguida, pegou a chave do carro e rumou para 
o cemitrio.
A notcia da morte de Robertinho deixou Denise to atordoada que ela parou de pensar em Beatriz, por alguns momentos. Era dif aceitar que Robertinho estivesse morto.
A caminho do cemitrio, sentiu a revolta crescer em seu peito e o desejo de que a justia fosse feita, com a priso do assassino, seguida por uma pena exemplar.
Assim que chegou ao cemitrio, Denise viu Janana, a me dele desconsolada. Ela estava do lado de fora do recinto onde estava o caixo do filho, chorando compulsivamente.
Denise deu alguns passos e viu algumas pessoas em volta do caixo, inclusive crianas. Vagarosamente, caminhou em direo a elas. O corao estava apertado e ela 
no conteve as lgrimas quando viu Robertinho morto. Parecia que estava vivendo um pesadelo e que, qualquer momento, Robertinho levantaria e daria um sorriso para 
todos, dizendo: "enganei vocs, eu estou vivo".
Infelizmente, o sorriso dele ficaria apenas na lembrana. As brincadeiras no aconteceriam mais e o clima na Casa de Apoio seria de dor por algum tempo. Por certo, 
aquela morte seria bastante sentida, inclusive pelas outras crianas que lutavam contra o cncer.
Robertinho vestia uma roupa branca. O rosto tinha vrios hematomas e estava bastante deformado. Em sua fisionomia havia a expresso de espanto, como se tivesse morrido 
tentando entender o motivo de tamanha brutalidade.
Ao lado de Denise, uma menina acariciava a cabea de Robertinho, enquanto buscava explicao pelo ocorrido. 
- Por que fizeram isso com o meu irmo? 
Um homem mulato, mais adiante, era consolado por todos que chegavam. Logo, Denise descobriu que era o pai de Robertinho e caminhou em sua direo para lhe dar os 
psames. O homem j no tinha mais lgrimas.
At ento, Denise no sabia nada sobre o crime. Ao olhar para o lado de fora do recinto, viu a doutora Beatriz conversando com Janana. O seu corao voltou a disparar, 
mas ela decidiu ir at l para saber os detalhes do assassinato.
Quando Denise aproximou, Janana estava explicando as circunstncias do crime.
- Os traficantes da favela onde moramos apedrejaram o Robertinho e deixaram um bilhete junto ao corpo dele, insinuando que ele estava sendo informante da polcia. 
Eles disseram que ele era o responsvel pelas prises que aconteceram no final de semana. Acho que pensaram assim porque o Robertinho conversava com os meninos de 
morro para sair da vida do trfico.
- Que monstruosidade! Como um ser humano tem coragem para fazer uma maldade dessas? Tenho pavor de traficantes - disse Beatriz. 
Denise sentiu uma revolta crescer em seu peito. Jamais havia conhecido algum que tivesse tido uma morte to estpida. A sua vontade naquele momento era a de fazer 
justia com as prprias mos. A dor daquela famlia era irreparvel. Nada traria Robertinho de volta. Apenas a priso dos assassinos poderia trazer certo conforto.
- Vocs no imaginam as barbaridades que os traficantes fazem - tornou Janana. - Somente quem mora nas favelas pode avaliar o estrago que eles causam. O Robertinho 
foi apenas mais uma vtima.
Amanh, tudo volta ao normal e, daqui a pouco, ningum se lembrar deste crime. Outras vtimas aparecero para atrair o foco da ateno.  sempre assim. Espero que 
os meus outros filhos tenham melhor sorte.
Em seguida, Janana pediu licena e caminhou para onde estava caixo, deixando Denise e Beatriz a ss. Por um momento, os olhos das duas se cruzaram. Denise criou 
coragem e tocou no assunto.
- Talvez o momento no seja oportuno, mas eu preciso muito conversar com a senhora.  um assunto delicado e eu estou com certa urgncia.   
Beatriz ficou surpresa, pois no imaginava que Denise pudesse ter algum assunto delicado para conversar com ela.
- Est bem. Temos que retornar  Casa de Apoio. Ns conversaremos depois da ltima consulta. Voc quer uma carona?
- Obrigada, eu estou de carro.
Durante o trajeto, a imagem de Robertinho veio forte  mente de Denise. Ela ficou pensando em como teriam sido os ltimos momentos sua vida. Teria ele sentido dor? 
Quais foram os seus ltimos sentimento Depois, voltou a pensar na conversa que teria com Beatriz. A sua ansiedade s no era maior em funo do abalo pela morte 
de Robertinho.
Chegando  Casa de Apoio, Denise constatou que o ambiente era similar ao do cemitrio. A tristeza estava estampada na face de todos os funcionrios. As crianas, 
igualmente, estavam bastante abatidas. Robertinho era um exemplo para todas elas.
 medida que os minutos passavam, aumentava a ansiedade de Denise. J passava das cinco horas, quando terminou a ltima consulta. Beatriz abriu a porta e chamou 
Denise para a conversa.
- Sobre qual assunto to urgente voc deseja conversar comigo?
Denise no sabia por onde comear. Na verdade, ela no sabia se Imelda havia comentado sobre a filha que teve. Decidiu ser direta.
- Voc tem uma irm de nome Imelda?
Beatriz levou um susto com a pergunta. Como poderia Denise saber daquele fato? Sentiu a garganta ficar seca e ficou confusa com resposta que daria. Passados alguns 
segundos, respondeu.
- Tenho sim, mas est morta. Por qu?
A resposta frustrou Denise. Por muitos anos ela teve pnico s de pensar que poderia encontrar sua me biolgica, mas agora, talvez em funo da maturidade adquirida, 
ou pelo bom momento da sua vida acreditava que seria um encontro muito frutfero.
- O que est acontecendo? Por favor, explique-me - implorou Beatriz,
- Ela morreu h muito tempo?
- Quase vinte anos.
Denise olhou nos olhos da mdica. Caso Imelda estivesse viva, provavelmente teria aquelas feies. - Ela teve filhos?
- No. Por favor, aonde voc quer chegar? 
Denise no sabia por onde comear a falar. Decidiu ser o mais objetva possvel.
- Eu sou filha da Imelda.
Beatriz deixou o corpo cair para trs, ficando apoiada pelo encosto da cadeira. De repente, comeou a suar.
- Um copo d'gua, por favor.
Denise levantou-se rapidamente, foi ao bebedouro e encheu o copo de gua para a mdica, cuja face estava molhada de suor.
- Calma doutora. Desculpe-me, eu no deveria ter sido to direta. A senhora quer que eu pea ajuda?
Enquanto tomava gua, Beatriz sinalizou com o dedo que no precisava de ajuda. Colocou o copo sobre a mesa, fixou seu olhar lacrimejante em Denise, permanecendo 
em silncio por alguns segundos, e retorou a conversa assim que seu corao comeou a desacelerar.
- Voc  filha da Imelda? Como assim?
Denise decidiu ser mais minuciosa, a fim de no deixar dvida em Beatriz.
- Quando ela fugiu de casa em companhia de um traficante, brigada com os pais, foi trabalhar e morar na nossa fazenda, perto de Trs Pontas. Teve um envolvimento 
com o meu pai e engravidou de mim. Como o meu pai no acreditava que ela estava esperando um beb dele, no aceitou assumir o compromisso. Ela decidiu abortar, tendo 
pedido auxlio  minha me, sem falar quem era o pai. A minha sorte foi que mame foi contra o aborto e assumiu o compromisso de me adotar. Quando nasci, eles fizeram 
o processo de adoo e a Imelda foi embora, no tendo dado mais notcias.
- Como voc descobriu que eu era a irm da Imelda?
- Lembra-se de que meu pai ficou com a impresso de que j conhecia voc? Quando ele associou a sua fisionomia  de Imelda, eu telefonei para a Rosemeire e pedi 
para olhar o seu nome no carto que havia dado para ela. O meu pai sabia o sobrenome da Imelda, bem como tinha conhecimento de que ela possua uma irm gmea.
Beatriz estava em estado de choque. Em seu ntimo, a mistura de emoes era maior do que Denise podia imaginar.
- Voc  minha sobrinha?
Denise balanou a cabea, fazendo gesto afirmativo. 
- A Imelda era muito parecida com voc?
- O jeito de ser era bem diferente, mas fisicamente ramos idnticas. Vrias vezes os nossos prprios pais nos confundiam. Para voc ter uma ideia de como ramos 
parecidas e do tanto que ramos amigas, quando a mame colocava uma de ns de castigo, a outra cumpria parte do castigo e a mame no percebia que havamos trocado.
- Voc acha que, se ela estivesse viva, ainda se pareceria com voc?
- Eu no tenho dvida. Ela seria exatamente como voc est me vendo agora - respondeu Beatriz, com a mo no queixo e os olhos fixos em Denise.
Depois de mais um momento de silncio, foi  vez de Beatriz perguntar:
- Voc tem ressentimento da Imelda?
- Durante um bom tempo eu tive. Hoje, eu consigo aceitar as atitudes dela. Acho que, se estivesse viva, teria me procurado para pedir desculpas e ter informaes 
sobre a minha vida. Talvez, a morte tenha impedido que ela tomasse essa atitude.  muito estranho saber que ela morreu h tanto tempo. Eu tinha apenas trs anos.
Denise fitou Beatriz por uns instantes e sorriu. Depois, prosseguiu.
-  estranho saber que, se a Imelda estivesse viva, seria fisicamente a sua cara.  como se eu estivesse diante dela.  interessante que, em um primeiro momento, 
no fui muito com a sua cara, mas depois eu vi que estava equivocada. Em pouco tempo voc conquistou a minha admirao.
J que eu no posso usufruir a companhia da Imelda, gostaria de ser sua amiga.  uma pena que ela no esteja aqui. Pelo menos, agora eu sei qual foi o destino dela. 
 estranho, muito estranho, porque eu tinha comigo a intuio de que h encontraria um dia. A ficha ainda no caiu. Talvez, eu leve certo tempo para acostumar com 
a ideia de que ela morreu.
Beatriz tossiu e raspou a garganta antes de fazer nova pergunta.
- Qual foi a reao do seu pai, quando descobriu que eu era a irm da Imelda?
- Acho que ficou feliz. Ele confessou que foi apaixonado por ela e que chegou a pensar em separar-se da minha me. Ele disse que errou ao no acreditar quando ela 
disse que eu era a filha legtima dele. Disse que errou duas vezes, pois deveria ter assumido a paternidade, mais no o fez porque ficou com medo da reao da mame, 
j que a sade dela nunca foi boa.
Denise suspirou e completou: 
- Eu vi nos olhos dele o quanto ele gostaria de reencontrar a Imelda. Desde que mame morreu, ele no se envolveu com outra mulher. Os olhos dele brilharam quando 
falou do amor que teve por Imelda. Francamente, tive a sensao de que o amor dele por ela foi mais forte do que o amor que sentiu por minha me. 
Uma lgrima escorreu pela face de Denise. 
- A impresso que tenho  de que algumas coisas acontecem em nossas vidas para nos mostrar a existncia de Deus no controle de tudo - prosseguiu. - Sei que fui guiada 
ao seu encontro por Ele e que algum dia Ele me guiar ao encontro da Imelda. 
- Sem dvida - concordou Beatriz. 
Em seguida, Denise levantou-se e abraou-a. A mdica, por sua vez, envolveu-a carinhosamente em seus braos, permanecendo assim por alguns segundos. Depois, Denise 
abriu a porta do consultrio e partiu.
 

 
CAPTULO 
XXIII


Quando Denise chegou a casa, Lenidas e Renata estavam ansiosos por saber sobre a conversa que ela tivera com Beatriz. O olhar de Denise era de tristeza.
- E ento? - indagou seu pai.
- No ser possvel encontrar a Imelda. Ela est morta. 
Lenidas engoliu seco. Sentiu uma dor aguda no corao, pois ansiava reencontr-la na expectativa de que pudessem viver um grande amor e ele tivesse a oportunidade 
de se redimir dos erros pretritos. Involuntariamente, seus lbios comearam a tremer e as lgrimas rolaram.
- No sei por que estou chorando - disse ele, tentando despistar as filhas das suas reais intenes.
- Talvez o senhor esteja triste porque no conseguir pedir desculpas para ela - disse Renata.
- Talvez, sim - tornou ele, enquanto limpava as lgrimas com a manga da camisa.
Com o olhar distante, Denise retomou a conversa.
- De algum tempo para c, eu comecei a pensar que eu e a Imelda tivemos um relacionamento forte e conturbado em vidas passadas, e que viemos ao mundo, como me e 
filha, para nos reconciliarmos.
- Voc acredita que existem vrias vidas? - perguntou Lenidas, surpreso com o posicionamento da filha.
- No s acredito como acho que o senhor tambm j se relacionou com ela em outras vidas. Em uma dessas vidas,  possvel que uma de ns duas tenha feito mal  outra, 
e isso gerou uma inimizade. Acho que houve um planejamento familiar, no plano espiritual, e eu vim como filha dela, nesta vida, para que ns duas pudssemos nos 
perdoar. Se o senhor foi utilizado como instrumento de Deus para o meu nascimento, certamente que se relacionou com ela em vidas passadas. Como explicar uma paixo 
to forte em to pouco tempo que ela estava na fazenda? Surpreendente, sobretudo, porque o senhor tinha um relacionamento muito bom com a mame.
Lenidas ficou surpreso com o pensamento da filha. Caso ela tivesse razo, certamente ele teria tido algum tipo de envolvimento com as duas em vidas passadas, pois 
nesta vida foi amante de Imelda e pai de Denise. Curioso, ele decidiu fazer perguntas sobre o assunto.
- Seguindo esta linha de raciocnio, por que eu fui envolvido?
- O senhor no foi envolvido. O senhor usou do livre-arbtrio para se envolver. Obviamente, a atrao que vocs sentiram pode ter como origem um fato da vida passada. 
Talvez, todos ns estejamos corrigindo os erros cometidos em vidas passadas, devido aos sofrimentos que impusemos a outras pessoas. Acredito que apenas a Renata 
no esteja envolvida nesse ciclo. A minha impresso  a de que ela tinha uma afinidade conosco em vidas passadas e no foi atingida por nenhum erro nosso. Por isso, 
nasceu em nossa famlia, a fim de ser o ponto de equilbrio, para colocar "panos quentes" nos nossos desentendimentos e promover a nossa unio.
-  interessante o seu ponto de vista, mas sem qualquer comprovao cientfica - tornou Lenidas.
- Nada acontece por acaso, papai. O nascimento de uma pessoa numa determinada famlia  planejado por espritos de luz e visa fortalecer laos de amor ou desfazer 
laos de mgoa. Podemos nos reunir em grupo familiar por simpatia ou por comprometimentos anteriores que nosso livre-arbtrio contraiu. A famlia atende a uma finalidade 
clara, que  oferecer a um grupo de espritos a oportunidade de ajustamento recproco. A reconciliao no representa apenas um sinal de evoluo individual, mas 
tambm ajuda no crescimento e equilbrio do prprio planeta.
- Como  que se decide, ento, a famlia que nos receber? - perguntou Renata, curiosa para saber mais sobre a teoria exposta pela irm.
- Dependendo do grau de evoluo do esprito reencarnante, ele poder participar ativamente da escolha das provas que suportar quando reencarnado, bem como da famlia 
onde nascer. Caso ele seja um esprito com certo esclarecimento, ele ter a possibilidade de participar do seu projeto reencarnatrio, junto com os seus mentores. 
Do contrrio, se for um esprito de pouca luz, as provas lhe sero impostas e, inclusive, a famlia que o receber. Por exemplo, um esprito que cometeu seguidos 
suicdios em reencarnaes anteriores poder reencarnar, foradamente, com total paralisia de seus membros, a fim de que no incida no mesmo erro.
Lenidas e Renata estavam surpresos com os conhecimentos de Denise, pois no sabiam que ela estava se dedicando quele gnero de estudo.
Apesar de no concordar com a teoria da filha, Lenidas achou bom que ela estivesse se dedicando a estudar esses assuntos. Poderia encontrar apoio para no se envolver 
mais com drogas.
Renata levantou-se do sof para trocar de roupa. Tinha encontro marcado com o namorado. Lenidas no perdeu a oportunidade de externar o seu descontentamento com 
Adriano.
- Voc no faz mais qualquer comentrio sobre o seu namorado. Eu no o vejo telefonar, nem voc telefonar para ele. Fiquei feliz, achando at que vocs tivessem 
terminado.
O comentrio de seu pai deixou Renata irritada. Ela j estava bastante incomodada com o tratamento indiferente que ele estava dando a Adriano, sobretudo se comparado 
 ateno dispensada a Artur.
-  por isso mesmo que eu no fao comentrios sobre o nosso namoro. Sei que voc no gosta dele e quer ver-nos separados. Fui eu que pedi ao Adriano para s ligar 
no meu celular. No quero ficar ouvindo comentrios ruins a respeito dele.
- Est bem. Eu no farei mais comentrios sobre esse rapaz, mas voc sabe o meu ponto de vista.
Pouco depois, Renata e Denise saram. Renata desceu  portaria, onde Adriano j a esperava, e Denise desceu um andar abaixo, at a garagem. Pegou o seu carro e partiu 
em direo  casa de Artur.
No caminho, voltou a pensar em Robertinho e sentiu o gosto amargo da revolta. Definitivamente, aquela segunda-feira ficaria marcada para sempre em sua vida. As emoes 
vivenciadas levaram Denise a alguns questionamentos e, certamente, deixariam marcas que o tempo custaria a apagar.
A imagem de Robertinho estava bem ntida em sua mente. Era difcil acreditar que o sorriso espontneo e meigo daquela criana havia sido silenciado de forma to 
brbara.
Artur, assim que a viu, percebeu um ar de desolao em sua namorada. Abraado a ela, comentou:
- Estou achando voc to triste! As notcias devem ser ruins, no ? 
Denise acenou positivamente com a cabea.
- Vamos sentar. Desabafe comigo. 
Denise cumprimentou Rosemeire e Maria e pediu que elas participassem da conversa. Explicou detalhadamente sobre a morte de Robertinho. 
Uma lgrima desceu pela face dela. Maria, Artur e Rosemeire no encontraram palavras para consol-la. Cabisbaixa, ela confessou o arrependimento que estava sentindo 
por ter se envolvido com drogas.
- De certa forma, sinto-me culpada pela morte de Robertinho.
- Por qu? - perguntou Artur.
- Pela primeira vez, eu consegui enxergar que prejudico algum quando compro um baseado. Sei que a minha participao  pequena, mas  inegvel que eu alimento o 
trfico, quando compo maconha. Alimentando o trfico, eu e todas as outras pessoas que compram drogas acabamos contribuindo para todo o tipo de violncia praticada 
pelos traficantes. No d para continuar fumando maconha e fechar os olhos para essa realidade. Sei que outros Robertinhos sero vtimas dos traficantes, mas quero 
ter a minha conscincia tranquila de no estar contribuindo financeiramente para que eles pratiquem esses crimes.
Artur sentiu sinceridade nas palavras dela. Denise demonstrava estar falando com o corao. A dor do arrependimento estava visvel em sua face.
- Estou triste por um lado, mas confesso que estou feliz por outro. Triste pela tragdia acontecida com o Robertinho, e feliz por voc ter enxergado que no  legal 
usar drogas. Vrias pessoas passam a vida usando drogas, sem perceber os estragos que causam, mesmo porque a violncia praticada pelos traficantes, como no caso 
do Robertinho, geralmente acontece em favelas, sendo que muitos consumidores de droga moram em bairros da classe mdia e alta.
-  uma pena que eu s tenha enxergado isso depois dessa tragdia - lamentou Denise.
- Muitas vezes, as tragdias por obra da natureza e do homem servem para despertar o inconsciente coletivo, onde cada um enxerga parte da sua misso pessoal - tornou 
Artur, com um brilho diferente nos olhos.
Maria, que at ento estava calada, resolveu se manifestar.
- Esta vida  uma verdadeira escola, minha filha. Voc aprendeu sobre o mal que o uso de drogas traz para a sociedade. Em Trancoso, vejo pessoas velhas se drogarem 
em vias pblicas.  um pssimo exemplo para os mais novos. Com a minha experincia de vida, posso lhe dizer que, toda vez que o sol nasce no horizonte, ele traz 
consigo vrios aprendizados. Se prestarmos ateno ao que se passa ao nosso redor, verificaremos que raros so os dias em que no aprendemos nada de til para as 
nossas vidas. Por isso, eu sou f daquela frase do Raul Seixas: "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinio formada sobre tudo".
Rosemeire estava curiosa para saber se Denise havia conversado com a doutora Beatriz e aproveitou o breve silncio para entrar no assunto.
- Voc conversou com a doutora Beatriz?
Denise suspirou fundo, acenando positivamente com a cabea.
- Conversei. Infelizmente, a Imelda morreu h vinte anos.
Artur acariciou os cabelos louros da namorada, tentando confort-la. Em seguida, perguntou:
- O que mais a doutora Beatriz falou?
- Ela ficou surpresa quando eu disse que era filha da Imelda.  incrvel, mas a Imelda nunca falou sobre a minha existncia para ningum da famlia. Bom... Vamos 
mudar de assunto. Rosemeire, como est a sua expectativa em relao ao resultado do exame?
- Eu estou mais confiante. O resultado da bipsia sai amanh. O mais importante  que eu quero viver e ser feliz. Vou dar a volta por cima, voc ver.
Quando Denise ficou sozinha com Artur, decidiu fazer uma confisso.
- Eu me sinto muito segura ao seu lado, apesar do pouco tempo em que estamos juntos. A cada dia, eu passo a gostar mais de voc.
As palavras da namorada tocaram o corao de Artur. Sentiu que sua me tinha razo quando falava que Denise estava apaixonada por ele. Olhando nos olhos dela, ele 
tambm se abriu.
- Eu quero ser o seu porto seguro e quero que voc seja o meu. A nossa histria est apenas comeando. Bendita  hora em que a Renata pediu que eu a acompanhasse 
at a delegacia. Imaginava conhecer a mulher da minha vida em qualquer lugar, menos em uma delegacia.
- Estou vendo que com voc as coisas funcionam na base do toma l, d c - observou Denise.
- Por qu?        
- Por um lado, voc foi fundamental para eu ganhar a liberdade, mas por outro prendeu o meu corao ao seu.
Artur sorriu feliz por verificar que ela era espirituosa.
-  srio, voc ganhou o meu corao. Eu quero ser totalmente sua de corpo e alma. Jamais senti por um homem o que eu estou sentindo por voc. Farei o que estiver 
ao meu alcance para continuarmos juntos.
Despediram-se com um beijo clido. O brilho dos olhos de cada um refletia o estado da alma.
Denise entrou no carro e rumou para a sua casa. No caminho, pensou em trs consequncias boas advindas da sua priso: a primeira conhecer Artur; a segunda, conhecer 
a irm gmea de sua me biolgica; a terceira, enxergar o mal que o uso de maconha causa  sociedade. Concluiu que Deus escreve certo por linhas tortas.
Ao chegar a casa, Denise viu o carro de Adriano estacionado em frente  portaria do prdio. Reduziu a velocidade e viu que ele estava agredindo a sua irm, segurando-a 
com fora pelo brao e sacudindo seu corpo contra a porta do carro.
Ela parou o veculo no meio da rua e desceu para ajudar a irm. Abriu a porta do lado do motorista e puxou Adriano pelo cabelo, jogando-o na poltrona.
- Voc est ficando louco? Larga a minha irm!
Renata estava trmula. Assim que Denise puxou Adriano, ela aproveitou para descer do carro. Os seus braos estavam vermelhos, com as marcas das mos do namorado. 
Em p, na calada, ela ouviu as ameaas dele:
- Eu vou acabar com voc! Pode esperar! Isso no vai ficar assim, no!
Em seguida, ele bateu violentamente a porta e arrancou com o carro, cantando os pneus, saindo em alta velocidade.
Renata chorava incrdula com o que acabara de acontecer. O corao de Denise disparou e a sua respirao ficou ofegante. Ela abraou Renata, conduzindo-a para o 
seu carro. Depois, estacionou o automvel na garagem. Renata voltou a abra-la. Chorava compulsivamente.
- Esta foi  ltima vez que ele me tratou assim. Eu no aguento mais!
Denise sentiu vontade de falar que ela e o pai j haviam alertado para o comportamento impulsivo do namorado, mas percebeu que aquele comentrio deixaria a irm 
ainda mais deprimida. Assim, decidiu incentiv-la, mais uma vez, a esquecer Adriano.
- Voc merece ser feliz. Encerre este ciclo em sua vida. Voc j teve vrias amostras de que este relacionamento no tem futuro.
Renata enxugou as lgrimas que caam pela sua face. Ainda estava trmula e, em seu ntimo, revoltada consigo prpria por no ter dado nuvidos aos conselhos do pai 
e da irm.
-  verdade. Pode ficar tranquila, porque, desta vez, no tem retorno. Por favor, no comente nada com o papai.  perigoso ele querer tirar satisfao com o Adriano. 
Ele no precisa ficar sabendo do que aconteceu.
- Est bem, mas se voc voltar a ficar com ele, eu contarei tudo o que vi.
Renata balanou a cabea, fazendo gesto negativo.
- Caso eu volte com ele, vocs podem providenciar a minha internao em um hospcio.
Pela firmeza de sua voz, Denise sentiu que desta vez ela no voltaria atrs.
- O que aconteceu para ele agir daquela forma?
- Cime doentio. Eu elogiei o Artur, falando que voc tinha encontrado a pessoa certa. Ele falou que eu estava apaixonada pelo Artur e comeou a discutir comigo, 
levantando suspeita sobre a minha fidelidade em vrios outros casos, todos sem o menor cabimento. Ele precisa se tratar, mas acho que no procura tratamento exatamente 
para usar o cime como pretexto para as suas reaes.
- Ainda bem que voc enxergou isso antes que acontecesse uma tragdia.
Renata enxugou as lgrimas e chamou a irm para subir. Chegando a casa, cumprimentou o pai e retirou-se para o seu quarto.
Admitiu para si mesma que as reaes de Adriano estavam ficando cada vez mais violentas e que o relacionamento deles poderia ter um fim trgico, se ela no desse 
um "basta".
Lamentou o tempo perdido, mas sentiu-se aliviada por tudo isso ter ocorrido antes do casamento. Em seu corao, agora sim, sentia que estava livre, desimpedida, 
pronta para dar um rumo novo a sua vida.
 

CAPTULO 
XXIV


Rosemeire dormiu mal durante a noite. Ficou ansiosa para o dia amanhecer. Quando o relgio marcou quatro horas da manh, ela ligou a televiso e ficou mudando de 
canal, sem encontrar um programa que agradasse. Levantou-se s seis horas, em ponto. Tomou um banho demorado. Enquanto apalpava o ndulo em seu seio, pedia a intercesso 
divina para mant-la viva. Depois, foi para a cozinha preparar o caf. Estava fazendo frio e uma fina serrao tampava a visibilidade do lado de fora, fazendo com 
que o sol se mostrasse tmido. O aroma do caf, aliado  baixa temperatura, aguou o seu apetite. Rosemeire partiu alguns biscoitos de maisena e colocou-os na xcara 
de caf com leite, comendo-os com uma colher de sopa.
Sentada na cadeira, com os cotovelos apoiados sobre a mesa, voltou seus pensamentos para a surpreendente descoberta de Denise. A incrvel coincidncia daquele encontro 
deu a Rosemeire  certeza da existncia de Deus, guiando os passos de todas as pessoas. Esta concluso, que lhe parecia bvia, fez com que se sentisse mais confiante. 
Da mesma forma que Denise havia sido guiada ao encontro da irm de sua me biolgica, atravs de um fato extremamente negativo em sua vida, que foi a sua priso, 
ela tambm poderia ser guiada a algo de bom atravs de um fato negativo, caso viesse a ser confirmado que estava com cncer de mama.
Em outro ponto da cidade, Alexandre tambm no havia dormido bem, ansioso pelo resultado da bipsia feita na ex-mulher. Depois de v-la na formatura de Denise, comeou 
a pensar nela com mais frequncia.
Alexandre saiu de casa cedo. Estava querendo caminhar pelas ruas do bairro.  medida que caminhava, pensava sobre como deveria ser a sua conduta, caso a ex-esposa 
estivesse com cncer. Senti um aperto no peito. Lembrou-se do dia em que a conheceu. Era um lindo dia de sol, como naquele momento, e ele havia viajado a noite inteira 
para chegar a Porto Seguro. Pegou a primeira balsa para Arraial D'Ajuda e de l seguiu para Trancoso, acatando a sugesto de um amigo. Ao chegar, constatou que existiam 
pouqussimas ofertas de hospedagem. Simpatizou com uma pequena pousada que ficava prxima  igreja. Bateu  porta por vrias vezes, at que uma moa gritou l de 
dentro, pedindo para aguardar um momento. Quando ela abriu a porta, usava uma camiseta branca e um short jeans. De imediato, Alexandre sentiu-se hipnotizado pelos 
olhos negros, amendoados, irradiando tanta luz. Era Rosemeire, no esplendor de seus dezoito anos de idade. Nascia ali uma paixo fulminante, que culminou com a gravidez 
dela trs meses depois.
No incio, eles combinaram perfeitamente bem. Com o passar dos anos, todavia, vieram s cobranas de parte a parte, que comearam a minar o relacionamento, at que, 
pouco a pouco, o respeito comeou a faltar nas divergncias que apareciam. Como consequncia, perderam at mesmo a admirao que nutriam um pelo outro. O resultado 
de todo esse processo desgastante acabou sendo a separao.
Enquanto caminhava, Alexandre pensava em todos os momentos importantes que tinha vivido ao lado de Rosemeire. Pela primeira vez, em muitos anos, comeou a pensar 
nas virtudes da ex-mulher. Reconheceu nela a me dedicada, que socorria o filho em suas necessidades a qualquer hora do dia. Enxergou, ainda, a mulher carinhosa, 
que sempre tentava lhe agradar. Constatou a qualidade da responsabilidade com os seus afazeres, fossem domsticos ou profissionais. Anotou, tambm, a disciplina 
econmica dela, nunca permitindo que os gastos fossem superiores  receita e sempre correndo atrs de melhores preos, a fim de que nada faltasse dentro de casa.
 certo que algumas dessas qualidades desapareceram com as rusgas do casamento. Mas era igualmente certo que ele havia contribudo para tanto. Por outro lado, ele 
tambm havia mudado, sendo que, nos ltimos anos de casamento, j no era to carinhoso como no incio.
Estaria tendo uma recada pela ex-mulher? Caso a resposta fosse positiva, seria um sentimento passageiro? A mente de Alexandre estava a mil por hora. Passados quatro 
dias do seu encontro com Rosemeire, ele no conseguia pensar em outra coisa.
Rosemeire no tinha a menor suspeita de que o encontro com o ex-marido havia mexido tanto com ele, mais at do que com ela. Ao v-lo na formatura, ela teve a ntida 
impresso de que ele estava feliz.
Acompanhada de Artur, que dirigia o carro, ela foi para a consulta com o doutor Rafael.
O sol j se mostrava alto no horizonte, elevando a temperatura que estava muito baixa no incio do dia. Poucas palavras eles trocaram no percurso da residncia at 
o consultrio mdico. Artur no conseguiu disfarar a ansiedade.
Chegando ao consultrio, foram informados pela secretria de que o doutor Rafael iria atend-los em breve.
Enquanto aguardava, Rosemeire tentava encontrar foras, visando se preparar para receber qualquer notcia. O tempo de espera, entretanto, aumentava a angstia. Artur 
tambm estava impaciente e ficou nervoso quando seu celular tocou.
- Esse telefone no me deixa sossegado - resmungou.
Aps olhar o nmero indicado no visor, no escondeu sua surpresa.
-  o papai. Estranho ele telefonar a esta hora. Ser que aconteceu alguma coisa?
Ao atender a chamada, Artur verificou que o seu pai estava bastante preocupado.
- Estou ligando para ter notcias da sua me. J saiu o resultado?
- Ns estamos no consultrio, aguardando atendimento. Nesse exato instante, a secretria convidou-os para acompanh-la.
- Depois eu ligo para o senhor. O mdico est nos chamando. Rosemeire e Artur levantaram-se e foram  sala indicada, onde o doutor Rafael os aguardava, trazendo 
na face uma expresso serena. Aps cumpriment-los, o mdico comeou a sua explanao.
A notcia que eu tenho no  a que eu gostaria de dar, mas tambm no  a que eu no gostaria de dar.
Rosemeire sentiu um aperto no corao e comeou a suar frio nas mos.
- O tumor  maligno - prosseguiu o mdico -, mas no parece ser dos mais graves.  um tumor de dois centmetros e meio. Acredito que est em fase inicial, no tendo 
ocorrido  metstase. Ser feita a cirrgia para retir-lo. Durante a cirurgia, verificaremos se no h envolvimento metasttico dos linfonodos axilares. A princpio, 
a cirurgia no causar danos estticos maiores, exatamente pelo diagnstico precoce do cncer. No ser necessria uma mastectomia total, ou seja, a senhora no 
ir perder a mama. Faremos uma quadrantectomia, removendo apenas a parte doente.
Rosemeire olhava para o mdico, sem saber o que falar. Procurava palavras para se expressar, mas a mente confusa bloqueava o perfeito raciocnio do crebro.
- E quando ser essa cirurgia? - perguntou Artur.
- Eu pretendo oper-la amanh. O quanto antes, melhor.
- Est bom para a senhora desse jeito? - tornou Artur. 
Rosemeire balanou a cabea, concordando com a proposta do mdico.
- Quando comearei o tratamento com a quimioterapia?
- A senhora ser encaminhada para a oncologista. Porventura, ser a doutora Beatriz?
- Ser sim.
- Ela definir como ser o tratamento, mas pode se preparar para a quimioterapia.
- Ento, o senhor acha que o meu caso no  to grave?
- O cncer  uma doena grave, que exige muitos cuidados. Dentro desse quadro, a princpio parece-me ser um cncer em estgio inicial, onde a porcentagem de cura 
 alta, desde que o paciente siga as orientaes mdicas. Alm disso,  sempre importante ter vontade de se curar e alegria de viver. Quando o corao fica muito 
triste, a imunidade fica comprometida.
- Eu quero viver, doutor. Pode ter certeza de que eu vou encontrar motivos em minha vida para ficar feliz e espantar a depresso. Estou muito nova, pronta para recomear. 
Eu vou ficar curada.
-  assim que se diz - tornou o mdico.
Quando saiu do consultrio, Rosemeire estava mais confiante. A expectativa pela resposta do exame foi pior do que a notcia que acabara de receber. Ainda no haviam 
deixado o prdio, quando o celular de Artur voltou a tocar.
- Qual foi o resultado do exame? - perguntou Alexandre. 
- A mame est com cncer. O tumor tem dois centmetros e meio. O mdico acredita que as chances de cura so boas, exatamente por ter sido diagnosticado precocemente. 
No ser necessria a mastectomia total. A cirurgia para retirada do tumor ser amanh.
A informao de que o tumor era maligno deixou Alexandre preocupado. Ele sentiu o corao disparar.
- Como ela reagiu quando soube da notcia?
- Ela reagiu bem. Est disposta a fazer o que for necessrio para se curar.
- Passe o telefone para ela.   
- Um momentinho.
Artur entregou o celular para a sua me.        
- Ele quer falar com a senhora.
Rosemeire ficou surpresa com a atitude do ex-marido. Era a primeira vez que ele pedia para conversar com ela, desde a separao.
- S queria dizer que estou  disposio para o que voc precisar, a qualquer hora do dia ou da noite.
- Obrigada pelo apoio. Eu sei que posso contar com voc.
Alexandre quis prolongar a conversa, mas no encontrou assunto.
Despediu-se de Rosemeire com a vontade de estar ao lado dela nos momentos que antecederiam a cirurgia.
Artur conhecia bem o seu pai e comeou a desconfiar de que ele estava tendo uma recada pela sua me.
- No sei se  impresso minha, mas estou achando o papai muito carinhoso com a senhora.
- Acho que  impresso sua - respondeu Rosemeire, procurando liquidar o assunto.
Artur deixou sua me em frente  portaria do prdio e saiu para ir ao banco. Rosemeire comeou a limpar a casa. Queria deixar tudo em ordem para no ter trabalho 
algum aps a cirurgia. Estava ansiosa para retirar o tumor e comear o tratamento. Enquanto passava a vassoura no cho da casa, sentiu que precisava fazer uma faxina 
tambm em seu corao e em sua mente, que ficaram carregados de sentimentos e pensamentos ruins no transcorrer do ltimo ano. Estava envolvida com esses pensamentos 
quando o interfone tocou, deixando-a um pouco irritada por ter que interromper o servio. Quando o porteiro anunciou a presena de Alexandre na portaria, ela chegou 
a perder o flego. Esperava que fosse qualquer pessoa, menos ele.
Rosemeire correu para colocar o vestido que estava usando antes de comear a faxina. Depois, foi ao banheiro retocar o batom e voltou para atender a campainha. Alexandre 
vestia terno azul, camisa branca e gravata vermelha. Em sua mo direita, trazia um caixa de bombons belgas.
- Desculpe-me, mas eu precisava v-la antes da cirurgia.
O corao de Rosemeire acelerou os batimentos. Alexandre sempre comprava bombons belgas quando queria agrad-la. A caixa nas mos dele tinha um significado especial.
- Por favor, entre.
- Trouxe esses bombons para voc.
- Obrigada. No precisava se preocupar.
Rosemeire pegou a caixa de bombons, fechou a porta e caminhou at o sof, fazendo um gesto para Alexandre sentar-se.
- Est animada para a operao?
- Estou sim. Sinceramente, estou confiante at demais. Tenho certeza de que estou em boas mos. Est tudo bem com voc?
Alexandre franziu a testa e respondeu:
- Estarei mentindo se disser que sim.        
- Aconteceu alguma coisa?
- Estou preocupado com voc.
- Eu estou bem - tornou Rosemeire. - No h motivo para se preocupar. Acredito que voc sentiria a minha morte, como eu sentiria sua, mas no mudaria muita coisa 
em sua vida. Talvez, a nica mudana seria na forma de voc se relacionar com o Artur.
Alexandre coou a cabea, olhou no fundo dos olhos de Rosemeire e disse:
- Antes fosse assim. A mudana seria muito maior.      
- Por qu?
- Porque eu precisaria mudar os meus planos - respondeu Alexandre.
Rosemeire ficou surpresa com aquela afirmao. Alexandre olhava-a de uma forma diferente, como se quisesse convenc-la de algo.
- Quais planos?
Alexandre manteve o olhar fixo nela. Teve vontade de abra-la, mas se conteve. Fechou os olhos e deixou uma lgrima cair. Em seguida, buscou a mo dela, segurando-a 
com carinho.
- J tem um tempo que comecei a repensar sobre a nossa separao disse ele, com a voz baixa. - Estou questionando bastante a minha atitude. Fico pensando em ns 
dois, no tempo em que ramos felizes. 
- Pena que essa poca passou, no  Alexandre?
-  verdade. Passou porque ns no soubemos lidar com as dificuldades. Com o passar dos anos, ficamos mais egostas e menos tolerantes. No conseguimos enxergar 
que estvamos destruindo o nosso bem maior: o amor que nos uniu. Esse foi o nosso primeiro erro. O segundo foi no acreditar que poderamos resgatar esse amor.
- Desculpe-me, mas quem no acreditou foi voc.
- Discordo - tornou Alexandre. - Ns nunca tentamos resgatar os nossos bons momentos. A diferena  que voc se contentou com a vida que estvamos levando e eu achei 
melhor buscar a separao, at mesmo para poupar futuros desgastes, j que estvamos perdendo at o dilogo.
Rosemeire fitou Alexandre, tentando decifrar o motivo daquela conversa.
- Por que voc est falando disso?
- Porque acredito que podemos evitar um terceiro erro - respondeu Alexandre.
- Qual erro?
Alexandre encarou a ex-mulher, dando um tempo para responder  sua pergunta. Ela estava muito bonita, despertando forte atrao nele, o que no ocorria nos ltimos 
anos de unio. Rosemeire ficou aguardando a resposta, incomodada com o silncio dele e com a forma como a olhava.
- Acredito que, depois de ficar quase um ano separado de voc, eu consegui enxergar a nossa relao de outro ngulo. Antes de separar-mos, eu no observava os erros 
que ns dois cometamos. Da minha parte, acredito que tenho condies de ser um homem diferente, caso voc me d uma nova chance.
Rosemeire parecia no acreditar no que ouvia. Jamais esperava que Alexandre fosse lhe fazer aquela confisso.
- Voc est falando srio?
- Estou sim. Fique tranquila que eu pensei bastante antes de procur-la. No estou sendo inconsequente.
Rosemeire sentiu um frio subindo pela coluna e o corao disparar. Com a voz rouca pela emoo, ela perguntou:
- Desde quando voc comeou a pensar em voltar comigo?
- Confesso que levei certo tempo para sentir a sua falta. No via a menor possibilidade de reatar com voc. Aos poucos, a impresso ruim dos ltimos anos se desfez. 
De repente, consegui pensar em voc como aquela mulher doce e faceira que me conquistou. Depois que o Artur me procurou, comecei a sentir muita falta de voc.
Rosemeire ficou contrariada com a afirmao de Alexandre e foi objetiva na pergunta:
- Ser que voc no est falando em reconciliao porque est com pena de mim? Acho que voc est com medo de que eu morra rpido e quer me agradar no tempo que 
me resta de vida.
Rapidamente, Alexandre tratou de desfazer a impresso negativa da ex-mulher.
- Em hiptese alguma! Eu j estava sentindo a sua falta antes de saber do tumor. A descoberta de que voc est com cncer apenas precipitou um processo de saudade 
que estava instalado em meu corao. Jamais faria a proposta de voltar com voc, s por estar com pena.
Rosemeire permanecia com dificuldades para acreditar no que estava ouvindo. Ela jamais imaginaria que o ex-marido a procurasse to cedo para pedir a reconciliao.
Estava pasmada. Naquele instante, ela teve a exata noo do erro que cometeu ao instigar Artur para evitar o pai, a fim de que Alexandre sentisse falta do filho 
e decidisse voltar para casa. Afinal, Alexandre acabara de confessar que voltou a enxerg-la como uma mulher doce e faceira, depois que Artur o procurou.
Por alguns segundos, eles ficaram imveis e quietos, apenas se olhando. Alexandre estava ansioso para saber o que a ex-mulher estava pensando sobre a sua revelao.
- O que voc me diz disso tudo?
Rosemeire suspirou fundo antes de responder:
- Estou surpresa. Na verdade, eu estou bastante surpresa. Jamais esperava ouvir isso de voc. Passei por um perodo muito difcil, mas agora estou conseguindo me 
recuperar. Sinceramente, j estava conformada com a nossa separao, pensando em fazer planos para o futuro. Esse futuro no inclua voc.
Preocupada com a sua aparncia fsica aps a quimioterapia, Rosemeire voltou a testar o ex-marido.
- Voc j parou para pensar que eu vou perder os meus cabelos em poucos dias e que a cirurgia em meu peito poder ser mais invasiva do que o previsto?
- Eu sei dessas consequncias. Estou pedindo uma nova oportunidade de viver ao seu lado pelo sentimento que tenho por voc, e no pela beleza dos seus seios ou pelo 
brilho dos seus cabelos.
Rosemeire sentiu o corao se desmanchar com o elogio de Alexandre. Suas faces estavam a poucos centmetros de distncia, de forma que podiam sentir a respirao 
um do outro. Alexandre tocou a face dela com a mo, deslizando-a carinhosamente at o pescoo. Rosemeire sentiu um arrepio subindo pela espinha e fechou os olhos. 
Quando Alexandre aproximou-se para beij-la, eles ouviram o barulho da chave abrindo a porta e deram um salto para trs. 
Artur ficou surpreso com a presena do seu pai.
- Que bom ver o senhor! 
Alexandre levantou-se do sof, sem conseguir disfarar o incmodo com o flagrante do filho.
- Vim desejar boa sorte para sua me. No me leve a mal, mas eu j estava de sada. Por favor, mantenham-me a par de todos os acontecimentos.
Alexandre despediu-se do filho, depois trocou longo olhar com Roscmeire e saiu.
Artur ficou encarando a me,  espera que ela abrisse o jogo sobre o verdadeiro motivo da visita do seu pai. Ante o silncio dela, ele decidiu perguntar:
- Quer dizer que o papai veio apenas desejar boa sorte para a senhora?
Rosemeire sabia que o filho tinha percebido a mentira contada por Alexandre, mas mesmo assim confirmou a verso do ex-marido. 
Em seguida, caminhou em direo  cozinha. Artur acompanhou-a com os olhos, tendo em seus lbios um sorriso de felicidade.
 
 
CAPTULO 
XXV


Desta feita, o motivo que levou Rosemeire a ter dificuldade em adormecer foi outro. Por muito tempo, ela esperou pela volta ao lar do ex-marido. Chegou a perder 
as esperanas, acreditando que ele tinha encontrado o seu caminho longe dela. Agora, regozijava-se ao lembrar-se da conversa que tiveram algumas horas antes. Durante 
toda noite, ela pensou na proposta de Alexandre. Quando adormeceu, j passava das trs horas da madrugada.
s sete e meia da manh, em companhia de Artur e de sua me, ela saiu de casa. Chegando ao hospital, Rosemeire apresentou a carteira do convnio mdico e assinou 
alguns papis. Pouco depois, despediu-se e seguiu em uma maca para o bloco cirrgico. Em seus pensamentos, a vontade de que tudo desse certo, a fim de que voltasse 
a desfrutar de sade plena.
A cirurgia comeou s oito e meia. A simples presena do doutor Rafael trazia tranquilidade e confiana. Alm de extrair o tumor, o mdico adotou o procedimento 
que visava recolher material para o exame que detectaria a ocorrncia ou no de metstase de linfonodos.
Quando Rosemeire acordou, j estava no quarto do hospital, com um dreno em seu seio. Ao lado da cama, sentados em um sof, Artur e Maria assistiam a um programa 
na televiso.
- Venci a primeira batalha. Tenho certeza de que vencerei as outras. Artur sorriu e levantou-se para beijar a face de sua me.
- Voc ficar boa. Daqui a alguns anos estar brincando com os netos.
- Quero muito ter herdeiros. Eu sou filha nica. Portanto, se voc no me der netos, o ciclo da nossa famlia estar encerrado, no  mesmo, mame?
Maria sorriu feliz por ver a disposio da filha em lutar contra o cncer. O simples fato de ela desejar curtir os netos j era sinal de qu tinha planos para um 
futuro mais distante.
A conversa foi interrompida por uma batida na porta. Artur caminhou e a abriu. Era o doutor Rafael. Logo atrs dele, vinham Denise e Renata.
- Vamos entrar doutor. A minha me acabou de acordar.
Em seguida, Artur beijou a namorada e cumprimentou Renata, convidando-as para entrar.
Os olhos de Rosemeire brilharam de alegria quando viu o mdico e as irms. Aps Artur apresent-las para o doutor Rafael, este comeou a explicar os prximos passos 
a serem adotados no tratamento de Rosemeire.
- Provavelmente, a senhora ser liberada ainda hoje. No tivemos nenhuma complicao cirrgica. Daqui a cinco dias, ns saberem se houve envolvimento metasttico. 
Seria bom a senhora ligar para a doutora Beatriz e agendar uma consulta.
Rosemeire fez gesto de positivo com o polegar.
- O senhor tem sido bastante atencioso comigo. Daqui a uma semana, eu estarei completando mais um ano de vida. H muitos anos no comemoro um aniversrio. Caso o 
resultado do exame seja negativo, irei reunir os amigos mais prximos em meu apartamento. Ficaria muito satisfeita se o senhor puder ir.
Virando-se para Denise e Renata, Rosemeire completou:
- No aceito desculpas. No marquem compromisso para a prxima quarta-feira. Estou confiante em que no houve a metstase. Vamos comemorar o meu aniversrio.
- Com certeza, ns estaremos presentes - respondeu Renata.
A resposta de Renata deixou o doutor Rafael animado com o convite. Ele no conseguiu disfarar o encanto que sentiu por ela.
- Eu fico grato pela sua ateno. Segunda-feira  tarde, a senhora dever comparecer ao meu consultrio a fim de ser informada sobre o resultado do exame. Caso seja 
negativo, com o maior prazer irei ao seu aniversrio. Estou gostando de ver o estado esprito da senhora. Desse jeito, vai derrotar o cncer mais rapidamente do 
que eu imaginava.
- Pode ter certeza de que estou determinada a ficar curada.
Em seguida, o mdico encarou Renata no fundo dos olhos e despediu-se de todos, saindo do quarto.
- Voc viu o jeito que ele olhou para voc? - perguntou Denise.
- No houve nada demais. Ele me olhou normalmente, sem segundas intenes. Bem que eu gostaria que voc tivesse razo. Ele  muito charmoso.
- E o seu namorado? - questionou Rosemeire.
- Ns terminamos. Desta vez foi pra valer. Cansei de sofrer.
- Voc  uma mulher bonita e inteligente - tornou Rosemeire. - Caso no se d valor, nenhum homem dar. Mesmo que sinta falta dele, no volte o namoro. O sofrimento 
passar e voc estar pronta para viver um novo amor. As oportunidades aparecem para as pessoas que esto abertas para a vida. No perca o seu tempo com um relacionamento 
que no tem futuro.
Renata ouviu em silncio os conselhos de Rosemeire. Estava se sentindo mal por no ter colocado um ponto final no namoro quando comearam as cenas de cimes. Imaginou 
quantas pessoas interessantes poderia ter conhecido, caso estivesse desacompanhada.
O celular de Artur tocou. Era o seu pai, querendo ter notcias de sua me.
- Como foi  cirurgia?
- Ocorreu tudo bem. Hoje  tarde, ela dever estar em casa. Segunda feira sair o resultado do exame.
- Ela est podendo falar?
- Est sim. O senhor quer que eu passe o telefone para ela?
- Por favor.
Artur entregou o celular para a sua me, dando um sorriso maroto de quem estava percebendo tudo o que estava acontecendo.
- Voc no sai da minha cabea. Pensou sobre a proposta que eu lhe fiz?
- No.
- Est difcil para conversar agora, no ? 
- Exatamente.
- Alm do Artur, tem mais algum com voc?
- A Denise, a Renata e a mame.
- Posso visit-la amanh, pela manh?
- Claro!
- Voc est com muita vergonha de conversar na frente de todos, no  mesmo?
- Claro.
- Est querendo que eu desligue o telefone?
Rosemeire sorriu com a brincadeira de Alexandre, no respondendo a pergunta.
- Est bem. Amanh a gente se v - disse ele.
Aps desligar o telefone, Rosemeire pediu a Artur para agendar uma consulta com a doutora Beatriz, conforme orientao do doutor Rafael. Denise e Renata se levantaram 
para ir embora.
- Fiquem mais um pouco - pediu Artur.
- No podemos meu amor. Papai retornar hoje para a fazenda. Vamos ficar com ele nesse restinho de tempo.
- Lembrem-se do meu aniversrio.
- Pode ficar tranquila.
Em seguida, as duas irms partiram. No trajeto para casa, Renata lembrou-se do olhar do doutor Rafael para ela. Sabia que a irm estava certa quando fez o comentrio, 
mas no queria render o assunto. De fato, achou-o um homem bastante interessante, no apenas pela beleza fsica, mas, sobretudo, por ser mais velho do que ela, talvez 
uns dez anos. Depois das inmeras brigas com Adriano, ela estava disposta a namorar um homem mais experiente.
Quando chegaram a casa, Lenidas estava acabando de arrumar as malas.
- Decidi viajar mais cedo. Consegui resolver uns problemas no banco mais rpido do que imaginava e vou aproveitar para sair agora, pois tenho muito que fazer na 
fazenda. Fiquem com Deus. No final de semana, estarei de volta.
Denise e Renata deram um abrao carinhoso em Lenidas. A presena dele dava segurana a elas.
- Desculpe-me pelo aborrecimento que eu dei a voc. Prometo que no voltar a acontecer. Eu decidi parar definitivamente de usar maconha - confessou Denise.
Lenidas j estava emocionado pela despedida e no conseguiu falar nada. Apenas deu uma tapa carinhosa na face da filha.
Antes que seu pai partisse, Renata decidiu contar sobre o trmino do namoro.
- Eu tenho uma notcia pra dar. Acho que voc gostar de saber, terminei o namoro. Desta vez,  definitivo. 
Lenidas sorriu, parecendo no acreditar no que acabara de ouvir. Resumiu a sua alegria em um comentrio:
- Vou embora com o corao apertado de saudades, mas feliz porque as minhas filhas largaram duas coisas ruins: a maconha e um namorado desequilibrado pelo cime.
Renata e Denise acompanharam o pai at a garagem. Quando ele partiu, ficou uma sensao de vazio no apartamento.
 

CAPTULO 
XXVI


Alexandre acordou cedo para visitar Rosemeire e seguiu para a floricultura. Seguindo sugesto da florista, comprou uma orqudea branca para a ex-mulher. A emoo 
daquele momento era semelhante  vivenciada em Trancoso, nos momentos que antecederam ao primeiro beijo. Em sua mente, a possibilidade de receber uma resposta negativa 
era mnima. Ainda que Rosemeire levasse alguns dias para dar a resposta, ele tinha certeza de que seria positiva.
Ao chegar, cumprimentou o porteiro Joel com a confiana de que brevemente no precisaria mais anunciar a sua presena. Depois, pegou o elevador e ficou se olhando 
no espelho, ajeitando algumas mechas de cabelos. Ao chegar, foi recepcionado pela ex-sogra e por Artur.
- Quanto tempo, Alexandre! Voc no mudou nada.
- Bondade sua, dona Maria. O espelho no me deixa iludir. A senhora sim, est muito bem.
- Eu amo a vida, este  o meu segredo.
Maria j estava desconfiada das intenes de Alexandre, em face de uma conversa que teve com Artur, e torcia para que ele voltasse com sua filha.
- Mame est l no quarto. Ns iremos ao supermercado. At mais.
Com um beijo na face, Artur e Maria despediram-se de Alexandre e saram. A ida ao supermercado era fantasiosa; apenas uma desculpa para deixar Rosemeire e Alexandre 
a ss. Estava muito claro para eles qual era a real inteno de Alexandre com aquela aproximao repentina. A vontade de reconciliar com a ex-esposa estavam estampadas 
em seus olhos.
Quando Alexandre entrou no quarto, Rosemeire estava recostada na cabeceira da cama, assistindo a um programa na televiso. Assim que ela viu a orqudea, soltou um 
suspiro, seguido de um sorriso meigo.
- Como voc est?
- Estou bem. A cirurgia correu dentro da expectativa.
- Trouxe esta orqudea para voc.
-  linda! Vou deix-la aqui em meu quarto para encher o ambiente de vida. Obrigada, mas no precisava se preocupar.
- Este quarto j est cheio de vida. A sua presena j deixa o ambiente cheio de vida. Voc est linda.
Rosemeire sorriu novamente e respondeu:
- Voc tambm est bem. Parece estar leve.
Alexandre sentou-se na cama, ao lado dela. O olhar penetrante estava inquieto para saber se ela havia decidido voltar para ele.
- Voc refletiu sobre a nossa conversa?
Antes de responder, Rosemeire procurou ler nos olhos de Alexandre o que o estava movendo para ter aquela atitude.
- Eu pensei, sim, mas no tive tempo de chegar a uma concluso. Conforme disse, voc me pegou de surpresa, em um momento difcil da minha vida. Confesso que fiquei 
balanada. Ainda gosto de voc e no consegui me envolver com outro homem.        
Alexandre encheu-se de alegria com aquela confisso.        
- Ento, por que voc ainda no decidiu?        
- Gostar  fundamental, mas no  o suficiente. Sofri muito com a separao, mais do que voc possa imaginar. Agora, estou conseguindo dar a volta por cima. Tenho 
medo de reatar o casamento e sofrer de novo. Eu no sei se o desgaste de todos esses anos inviabiliza uma convivncia harmoniosa. Ser que seremos capazes de resgatar 
a felicidade que um dia tivemos?
- S h uma forma de saber: tentarmos novamente.
- Tenho medo de tentar e me arrepender - ponderou Rosemeire
-  melhor se arrepender pela ao do que pela omisso - retrucou Alexandre. - Aceitando o meu pedido, voc poder saber se agiu certo ou errado. Recusando, voc 
nunca saber se a sua deciso foi acertada.
-  difcil argumentar com advogados - tornou Rosemeire. - Vocs tm sempre outro argumento para combater o nosso. Eu prometo que no vou demorar a decidir. No 
 justo voc ficar aguardando a minha deciso indefinidamente. Tenha um pouco de pacincia comigo.
- Eu terei. Independente da sua resposta, quero que saiba que eu estou rezando todos os dias pela sua sade.
- Eu sei que voc est torcendo por mim. O seu apoio  muito importante. Em breve, voc saber a minha deciso.
- Est bem. Vou deixar voc descansar.
Em seguida, Alexandre beijou a face de Rosemeire e saiu.
Pouco depois, Artur e Maria retornaram para o apartamento. Estavam curiosos e decidiram perguntar para Rosemeire sobre o teor da conversa com Alexandre.
- Voc e o Alexandre esto reatando?
Rosemeire fitou a me enternecidamente e respondeu:    
- Ele est querendo voltar, mas eu ainda no dei a resposta. No quero tomar uma deciso precipitada. A possibilidade de arrependimento  grande.
- A senhora sempre sonhou com a volta dele - disse Artur.
-  verdade. Antes eu desejava que ele voltasse para mim, em qualquer circunstncia. A minha auto-estima estava pssima. Atualmente, as coisas mudaram. Eu no quero 
ficar com o Alexandre apenas por ficar. Eu s vou voltar se sentir que valer a pena. Hoje, eu consigo enxergar que posso ser feliz sem ele. A minha felicidade no 
pode depender de homem algum; ela tem que estar em minhas mos.
- Eu acho que a senhora est certa. Toro muito para vocs voltarem, desde que seja para o bem comum de ambos.
- Minha filha, quando voc dar a resposta a ele?
- No mais tardar, na prxima semana. No quero precipitar, mas tambm no posso ficar enrolando.
Artur ficou admirado com a postura de sua me. H pouco tempo, era inimaginvel que ela tivesse uma atitude que demonstrasse tanta independncia e maturidade.
Maria procurou demonstrar apoio a qualquer deciso que sua filha tomasse.
- Gosto do Alexandre como se fosse um filho e toro muito para que voc volte com ele, mas, acima de tudo, eu toro pela sua felicidade. Que Deus ilumine o seu caminho 
e o dele! No sei se ainda estarei aqui quando voc der a resposta para ele, pois retornarei para Trancoso no dia do seu aniversrio. De qualquer forma, mesmo de 
longe, estarei rezando por voc todos os dias da minha vida.
Rosemeire sorriu agradecida pelo apoio materno. Em seu ntimo queria que sua me ficasse mais tempo com ela.
- Por que a senhora no deixa para retornar a Trancoso no dia seguinte ao do meu aniversrio? Eu farei um jantar para alguns poucos amigos.
- Sinto muito, minha filha! Eu tenho a formatura da minha afilhada no mesmo dia. H mais de seis meses ela fala comigo dessa formatura todos os dias. Eu no posso 
nem pensar em no comparecer! De qualquer forma, eu almoarei com voc, pois o vo partir para Porto Seguro s dezesseis horas. Prometo que voltarei em breve e 
ficarei mais dias com vocs.
Rosemeire acenou com a cabea, demonstrando que compreendia as razes de sua me.
 

CAPTULO 
XXVII


Enquanto Alexandre aguardava a resposta de Rosemeire, Adriano decidiu tentar nova reconciliao com Renata.
No sbado pela manh, ele estacionou o carro prximo ao prdio onde ela morava e ficou  espreita, aguardando-a sair. Assim que a viu, correu em sua direo.
- Renata, espere um momento!
Ela olhou assustada para o ex-namorado. Em sua mente, estava bem ntida a cena da agresso.
- Ns no temos mais nada para conversar. No se aproxime de mim.
- Calma, eu no vou machuc-la. No tenha medo. Quero apenas conversar com voc.
Renata olhou ao redor e viu que no havia ningum por perto. A portaria do prdio estava a uns vinte metros de distncia. Receosa da reao que ele poderia ter diante 
de uma resposta negativa, ela decidiu aceitar seu pedido.
- Est bem. Vamos conversar na portaria do prdio.
- Eu prefiro um local mais discreto, porque ns vamos conversar sobre a nossa intimidade. O porteiro e os moradores que passarem por ali poder ouvir o que no precisam.
- Sinto muito. Eu no vou sair com voc para lugar algum. Caso queira conversar comigo, ser na portaria do meu prdio.
Adriano sentiu o sangue ferver de raiva, mas procurou se conter. Sabia que mais uma atitude explosiva no seria aceita pela namorada.
- Vamos l. No  o local ideal para conversarmos, mas eu preciso muito lhe dizer algumas coisas.
Em silncio, caminharam at a portaria. Passaram por Silvestre, o porteiro, andaram mais cinco metros e assentaram no sof, que ficava prximo aos elevadores. Coube 
a Adriano dar incio  conversa.
- Primeiro, eu quero lhe pedir desculpas por ter perdido a cabea naquele dia, quando estvamos dentro do meu carro. Eu fiquei muito arrependido. Quando cheguei 
em casa, vi a besteira que havia feito. Eu cheguei  concluso de que tenho estado muito nervoso, precisando de ajuda para lidar com o meu cime. Eu vou procurar 
um psiclogo.
- Acho que voc j deveria ter feito isso.
- S agora, eu enxerguei que preciso de um tratamento. Eu tenho certeza de que ficarei menos ciumento. Gosto muito de voc e no estou sabendo conviver com esse 
sentimento. Fico muito inseguro, com medo de voc gostar de outro homem. A partir de agora, ser diferente.  s voc me dar uma ltima chance, que ver outro homem,
Renata observava Adriano, olhando-o no fundo dos olhos. Aquela deveria ser a ensima vez que ouvia seu pedido de desculpas. Sentiu que ele estava disposto a procurar 
ajuda teraputica, mas esse fato no foi suficiente para que sentisse vontade de reatar o namoro. Ao contrrio das vezes anteriores, desta feita ela estava decidida 
a seguir outro rumo.
- Fico feliz de saber que voc ir se tratar, mas no existe a menor chance de volta. O desgaste de nossas brigas foi muito grande. Hoje, eu no vejo a possibilidade 
de ser feliz com voc. Pode at ser que, algum dia, isso mude.
- Vamos fazer uma ltima tentativa - insistiu Adriano. - Eu sei que voc nunca seria feliz se eu continuasse agindo daquela forma. S que eu pretendo ser outro homem 
a partir de agora. Eu vou procurar um psiclogo que me ajude a vencer o cime.
Renata teve d de Adriano, porque sabia o quanto seria difcil para ele superar o cime e porque o amor dele j no era mais correspondido por ela.
- As cicatrizes das nossas brigas esto muito vivas em mim. Vamos deixar que o tempo as apague. Se for da vontade de Deus que algum dia fiquemos juntos, certamente 
ns seremos encaminhados um para o outro.
- Ns no podemos agir assim - contestou Adriano. - Corremos o risco de conhecer outras pessoas e ficarmos apaixonados por elas. Se isso acontecer, dificilmente 
voltaremos a ficar juntos.
- Esse  um risco que precisamos correr. Se tivermos que ficar juntos, mesmo que nos apaixonemos por outras pessoas, voltaremos um para o outro.
Adriano segurou firmemente as mos de Renata. Ele estava suando frio e a respirao, pouco a pouco, foi ficando mais longa, demonstrando o seu nervosismo.
- Eu estou implorando: d-me uma ltima oportunidade. Prometo que, se no der certo, nunca mais telefonarei para voc.
Renata desvencilhou-se das mos dele e respondeu:
- Voc no precisa se humilhar. A minha deciso est tomada e eu no vou mud-la. De qualquer forma, no deixe de procurar um psiclogo. Ele poder ajud-lo a ser 
um namorado melhor para outra menina. Tente me esquecer. Eu no sou a nica mulher no mundo que poder faz-lo feliz. O nosso relacionamento desgastou-se de tal 
forma que hoje  impossvel resgatar o amor que eu sentia por voc.
 medida que Renata falava, as lgrimas caam pela face de Adriano.
- Tenho certeza de que, depois que voc ficar curado desse cime doentio, ter totais condies de fazer uma mulher feliz.
- Essa mulher  voc! - insistiu Adriano.
- No. Voc ainda conhecer essa mulher. Ser algum que passe segurana a voc; que no deixe voc desconfiado de que est sendo trado. Infelizmente, eu no consegui 
isso. Coloque na sua cabea que a nossa histria chegou ao fim.
Desesperado, em prantos, Adriano ajoelhou-se aos ps de sua ex-namorada.
- Por favor, no faa isso comigo. Ns podemos superar este momento difcil. D-me a ltima chance.
Renata sentiu vontade de chorar, tamanha pena dele que sentiu. 
- Por favor, no faa isso. Acabou, Adriano.
- No. Eu no aceito o trmino. D-me um beijo, vamos recomear disse ele, levantando-se na tentativa de aproximar a sua boca da dela. 
- Por favor, pare. Se voc tentar, eu chamarei o porteiro. 
Adriano ficou perplexo diante da firmeza demonstrada pela ex-namorada. No havia outro jeito de Renata demonstrar, com tanta clareza, que no sentia mais nada por 
ele. Diante daquela postura irredutvel, ele emudeceu e saiu.
Renata ficou observando Adriano caminhar, meio cambaleante. Sentiu um aperto no peito por v-lo naquela situao, mas sabia que estava agindo corretamente. Terminava 
ali um relacionamento marcado pela insegurana, desconfiana e cobranas.

 
CAPTULO 
XXVIII


Os cinco dias aps a retirada do tumor custaram a passar para Rosemeire. Nesse perodo, Alexandre visitou-a duas vezes, mas evitou conversar sobre a reconciliao. 
Percebeu a angstia dela e decidiu no pression-la a uma deciso.
Durante o final de semana, como Lenidas no pde retornar da fazenda, Rosemeire aproveitou a frequente companhia de Denise para conversar sobre outros assuntos 
que no fossem a sua doena, na tentativa de vencer a angstia.
Denise aproveitou para falar do seu entusiasmo com a possibilidade de conhecer a famlia materna.
A semana que estava se iniciando prometia fatos novos, que poderiam mexer com a emoo das duas.
No dia seguinte, segunda-feira, Rosemeire acordou bastante ansiosa para saber o resultado do exame linfonodo sentinela. Deveria comparecer ao consultrio do doutor 
Rafael  tarde.
Denise levantou cedo e foi cumprir a pena de prestao de servios  comunidade. Chegando  Casa de Apoio, percebeu o ambiente triste pela recente morte de Robertinho. 
O impacto da tragdia continuava marcado na fisionomia dos funcionrios e dos pacientes. Era muito difcil mesmo acreditar que eles no ouviriam mais as brincadeiras 
daquele garoto extrovertido.
O encontro com a doutora Beatriz aconteceria apenas no perodo da tarde, quando ela chegaria para as consultas. Naquele clima de velrio, Denise cumpriu as suas 
obrigaes. No horrio do almoo, retornou  sua casa. L, o clima tambm no era dos melhores. A ausncia do pai comeou a ser sentida naquela segunda-feira, pois, 
durante o final de semana, ela havia permanecido mais tempo na casa de Artur do que na sua prpria casa. Por outro lado, Renata mostrava-se abatida pelo trmino 
do namoro e pelo desemprego.
Logo aps o almoo, Denise retornou  Casa de Apoio. O encontro com a doutora Beatriz foi mais informal do que das outras vezes. Antes de comear o atendimento s 
crianas, a mdica chamou-a em seu consultrio.
- Como foi o seu final de semana?
- Foi bom. Eu procurei fazer companhia  Rosemeire. O resultado do exame deve sair hoje e ela est muito angustiada.
- A consulta dela em meu consultrio est marcada para amanha. Bem... Eu chamei voc aqui porque gostaria de marcar um encontro para ns conversarmos.
- Tudo bem. Vamos dar sequncia  nossa conversa.
- Exatamente. Eu tenho muito a lhe falar. Voc tem algum compromisso hoje  noite? - perguntou Beatriz.
- Eu gostaria de passar na casa do meu namorado, mas acredito que no demorarei muito tempo por l. Podemos marcar um encontro s nove horas da noite.
- timo. Eu tenho o seu telefone no cadastro. Vou ligar apenas para marcarmos o lugar.
Em seguida, Denise se retirou e Beatriz comeou o atendimento. Entre uma consulta e outra, pensava nas novas revelaes que faria a Denise. Estava convicta de que 
no poderia aguardar mais tempo. Nao havia outro caminho: deveria correr o risco que a situao exigia. At ento, no havia comentado nada com o seu pai. Isso a 
estava deixando incomodada, mas ela queria primeiro falar toda a verdade para Denise, s depois, colocaria o pai a par de tudo.
J no final da tarde, quando Denise preparava-se para ir embora, um senhor aparentando ter setenta e poucos anos de idade aproximou-se e pediu para conversar com 
a doutora Beatriz.
- Ela est atendendo uma paciente. O senhor pode esperar, ela nao dever demorar.  a ltima consulta de hoje.
- Perfeitamente. Eu sou o pai dela.
Denise surpreendeu-se com a revelao. Diante dela, o av materno. Pelo comportamento formal que ele teve, no desconfiou de que ela fosse  filha de Imelda. Denise 
ficou em dvida sobre falar ou no a sua identidade. Sentiu uma vontade enorme de dizer quem era certa de que a doutora Beatriz j havia comentado sobre sua existncia 
com ele.
- Eu sou a Denise, filha da Imelda.
A afirmao causou forte impacto em seu interlocutor, cuja expresso tornou-se sria.
- Eu sou filha da Imelda e, portanto, sua neta.
- Voc  filha da Imelda, minha filha?
- Sim. Eu imaginei que o senhor soubesse. A doutora Beatriz no falou nada?
Agora, a expresso daquele senhor demonstrava um espanto ainda maior.
- Desculpe-me, mas no estou entendendo mais nada.
A conversa foi interrompida quando Beatriz abriu a porta para a menina sair. Ao ver o seu pai conversando com Denise, ela quase caiu de costas. Antes que pudesse 
pensar no que dizer, seu pai deixou-a em um beco sem sada.
- Beatriz, esta menina est falando que  sua filha.
Imediatamente, Denise corrigiu a afirmao daquele homem.
- Eu no disse isso. Eu falei que sou filha da Imelda e, no, da Beatriz. Desculpe-me, doutora, mas eu achei que ele soubesse.
Beatriz levou as mos  face, em sinal de desespero.
- O que est acontecendo? - questionou Jos Antnio.
Beatriz ficou muda, sem encontrar resposta. Apenas olhava para o pai e para Denise.
- Responda-me - tornou Jos Antnio. - Quem  esta menina?
- Desolada, Beatriz no viu alternativa que no fosse a de antecipar a conversa que teria com Denise e seu pai.
- Entrem. Era sobre isso que eu iria conversar com voc, hoje  noite, Denise. Papai, o senhor no deveria ter vindo aqui sem me avisar.
- Eu fiz compras no supermercado aqui perto e aproveitei para fazer-lhe uma visita. Afinal, tem um bom tempo que no nos vemos.
Beatriz abriu a porta e puxou duas cadeiras para eles. Estava visivelmente transtornada diante daquela situao. Quando todos estavam sentados, Jos Antnio voltou 
a perguntar:
- Que histria  essa que esta menina est falando?
Denise olhou para Beatriz, sem entender o que estava acontecendo, afinal a me biolgica dela havia morrido vinte anos atrs.
- Esta  uma longa histria.
Agora foi a vez de Beatriz olhar para Denise, tendo os olhos marejados de lgrimas. Denise, por sua vez, sentiu um aperto no corao, pressentindo o que ouviria 
nos segundos seguintes. Beatriz foi direto ao assunto.        
- A Denise  minha filha.        
O impacto da resposta deixou Denise e Jos Antnio estupefatos, como se no tivessem acreditado no que acabavam de ouvir. O pai jamais desconfiou que ela tivesse 
tido uma filha. Denise, por sua vez, j estava conformada que sua me biolgica estava morta e que Beatriz era a irm gmea dela.
Diante dos olhares atnitos deles, Beatriz prosseguiu:
- O senhor sabe que eu trabalhei em uma fazenda, no sul de Minas, quando sa de casa. Era a fazenda dos pais da Denise.
Ao ouvir estas palavras, Denise comeou a chorar. Sentiu que Beatriz estava falando a verdade, mas a sua cabea estava confusa, pois j no sabia mais qual era a 
identidade real de sua me biolgica.
- Acabei tendo um relacionamento com o Lenidas, pai dela. Foi um momento extremamente difcil em minha vida. Eu estava brigada com o senhor e a mame e no queria 
voltar para casa com uma filha que eu no tinha condies financeiras de criar. No sabia como seria recebida por vocs. Alm do mais, Lenidas no acreditou que 
o beb era dele e no me deu o menor apoio. Pensei em abortar, mas fui convencida pela dona Vera, me da Denise, a no fazer essa besteira. Ela se comprometeu a 
adotar a minha filha assim que nascesse. Foi isso que aconteceu. A Denise  minha filha. Depois, eu retornei para casa, ns fizemos as pazes e eu nunca mencionei 
nada sobre a minha filha porque tive medo de ser repreendida.
Jos Antnio passava as mos pelo rosto, limpando o suor. Estava inquieto, sem conseguir aceitar que sua filha tivesse escondido fato daquela importncia por tanto 
tempo.
- Por que voc no falou a verdade? Jamais iria desampar-la. Eu sempre desejei ter netos. Por que voc agiu assim?
Beatriz no conseguiu segurar mais a emoo e comeou a chorar.
- Eu era muito nova e estava completamente confusa. Eu no tinha recursos para cri-la e ningum no mundo para me ajudar. Fiquei completamente desesperada e pensei 
vrias vezes em abortar.
Jos Antnio apenas balanava a cabea, desaprovando totalmente a atitude da filha. Denise continuava a chorar ainda sem entender o que estava se passando.
- Voc disse que a Imelda havia morrido e que era a irm gmea dela. Os meus pais sabiam que a Imelda tinha uma irm gmea, cujo nome era Beatriz. Todos conhecem 
voc por Beatriz. Como voc pode ser a Imelda, sendo a Beatriz?
- Eu explico. Eu sou a Imelda. De fato, eu tinha uma irm gmea, a Beatriz. Era a minha melhor amiga e a pessoa que eu mais admirei, em toda minha vida. Ela teve 
uma leucemia fulminante e morreu. Foi uma dor horrvel. Antes da morte dela, eu j estava pensando em mudar o meu nome. No gostava das brincadeiras que as pessoas 
faziam comigo. Quando queriam me provocar, cha-mavam-me de "Imerda". Alm disso, eu estava envergonhada pelos erros cometidos na fazenda dos seus pais. Ao mudar 
de nome, de certa forma, eu estava deixando para trs a pessoa que havia cometido aqueles erros. Eu j no seria a Imelda, mas sim a Beatriz, a pessoa que eu mais 
admirava. Por isso, eu contratei um advogado e troquei o meu nome para Beatriz. Depois, eu fiz residncia em oncologia para homenage-la.
Agora, a histria estava fazendo sentido para Denise. Como num passe de mgica, a me que ela acreditava estar morta reaparece diante dela, em carne e osso.
- Por que voc no disse a verdade naquela conversa que tivemos?
- Porque eu fui pega de surpresa. Quando eu poderia imaginar que voc era a moa que eu gerei em meu ventre? Eu fiquei em estado de choque, sem saber o que dizer.
Denise lembrou-se da conversa que Beatriz pediu para ter com ela naquela noite.
- Era sobre isso que voc queria conversar comigo, quando me convidou para sair?
- Exatamente. Eu estava me sentindo sufocada, para falar a verdade, pois at ento no havia comentado nada com o papai. Queria conversar com voc, primeiro, a fim 
de esclarecer a verdade.
Jos Antnio continuava atnito. Depois da morte de Beatriz, a esperana de um dia ser av recaiu em Imelda, a filha que permaneceu viva. Com o passar dos anos, 
acabou desistindo daquele sonho.
Denise, de igual forma, estava perplexa. Quanto mais ela olhava para a mdica, mais difcil ficava acreditar que estava diante de sua me biolgica. A caridade e 
as outras virtudes que enxergou em Beatriz contrastavam com a idia que ela tinha de Imelda. Ap a surpresa, a respirao de Denise j estava controlada. Pouco a 
pouco, ela sentiu uma paz profunda vibrar em seu esprito e tentou explicar o que estava se passando em seu interior.
- Eu simplesmente no sei o que dizer. Santo Deus parece que estou num sonho! Eu sempre tive pnico de reencontrar a Imelda. A rejeio dela durante a gravidez causou 
vrios traumas em mim.
De repente, a justia determina que eu cumpra uma pena de prestao de servios junto a uma entidade na qual tenho a oportunidade de conhecer uma mdica que cativou 
o meu corao. Ento, eu descubro que ela  irm gmea de minha me biolgica. Em seguida a revelao de que ela no  a minha tia, mas, sim, a minha prpria me 
biolgica. Deus cruzou os nossos caminhos, fazendo com qu eu a conhecesse e a admirasse antes de descobrir a sua real identidade a fim de no ter o menor rancor 
quando a verdade viesse  tona.  isso que est acontecendo. Eu estou feliz, muito feliz e orgulhosa por saber que eu sa do seu ventre. A meu ver, este encontro 
 uma bno em minha vida. Alis, bendita a hora em que eu fui presa. No fosse por isso, continuaria fumando maconha, no teria conhecido voc, o Artur e a Rosemeire.
As palavras sinceras de Denise emocionaram Beatriz, que sentiu o peito esquentar e o corao acelerar. A respirao ficou mais curta e as lgrimas se misturavam 
ao suor. Teve vontade de gritar de alegria, de dizer a todos da sua felicidade, mas sentiu o corpo sem foras, tocado pela exploso de sentimentos.
Denise percebeu que ela estava sem foras sequer para se levantar e deu dois passos em sua direo. Em seguida, abraou-a com a ternura dos puros de corao. Jos 
Antnio abaixou a cabea para esconder o choro. Apesar de ter ficado chateado com Beatriz por ela ter omitido fato to relevante, sabia que tinha a sua parcela de 
culpa na deciso dela e, tambm, que no cabia ressentimento naquele momento.
- O meu pai ficar muito feliz quando souber da verdade. Provavelmente, ele querer conversar com voc. Acho que ele lhe deve pedidos de desculpas. Mesmo que voc 
no o desculpe, por favor, aceite conversar com ele.
Beatriz acenou positivamente com a cabea.
- Depois de voc ter tamanho carinho comigo, mesmo diante de tudo de ruim que fiz,  impossvel eu negar um pedido seu. Se eu recebi a bno do seu perdo, por 
que no perdoaria o seu pai? Pode ter certeza, ele j est perdoado e eu conversarei com ele na hora que ele quiser.
Em mais um momento de confraternizao, Denise abraou Jos Antnio. Em seguida, despediram-se e cada qual tomou o seu rumo.
Chegando a casa, Denise telefonou para o namorado e revelou todo o teor da conversa com Beatriz e Jos Antnio. Artur balanava a cabea de um lado para o outro, 
como se no acreditasse no que ouvia.
- Estas coisas esto acontecendo na sua vida porque voc merece. Eu estou muito orgulhoso de voc, sobretudo pelo corao que est demonstrando ter. Confesso que 
fiquei curioso para conhecer a doutora Beatriz. Incrvel, a sua me biolgica vai ser a mdica responsvel por curar o cncer da minha me.  impressionante como 
existe uma teia invisvel que interliga sentimentos e fatos.
De uma forma ou de outra, todos estamos conectados a essa teia e, consequentemente, uns aos outros.
Denise concordou com Artur. Pouco depois, desligaram o telefone.
Em seguida, Denise telefonou para o seu pai. No sabia como dar a notcia. Decidiu ser direta, assim como ele foi ao falar sobre o romance que havia tido com Imelda.
- Papai, aconteceu algo fantstico. O senhor est sentado?
Pelo entusiasmo da filha, Lenidas notou que ela deveria dar uma notcia muito boa.
- Pode falar filha. Eu estou sentado.
- Prepare o seu corao, papai.
Antes que ela completasse, ele interrompeu.
- A doutora Beatriz mentiu ao dizer que a Imelda havia morrido.  isso que voc vai me falar?
Denise ficou frustrada diante da descoberta feita por seu pai.
-  isso mesmo, papai.
Lenidas suspirou, aliviado. A alegria sentida s foi comparada  alegria que teve ao ver a filha fora das grades.
- Conte-me tudo sobre a Imelda.
Denise relatou a conversa que havia tido com Beatriz, com riqueza de detalhes. Lenidas vibrou quando Denise lhe disse que Beatriz aceitava conversar com ele e que 
no guardaria ressentimento.
Assim que desligou o telefone, Lenidas decidiu que iria para Belo Horizonte no final do expediente do dia seguinte. Cancelaria todos os compromissos do restante 
da semana, pois no via a hora de ter uma conversa a ss com Beatriz,  mesma Imelda pela qual foi apaixonado.


CAPTULO 
XXIX


Artur levou sua me ao mdico. No trajeto, comentou sobre a descoberta de Denise. Tal fato serviu para aumentar a f de Rosemeire, pois viu o dedo de Deus guiando 
Denise ao encontro da me biolgica.
Quando chegaram ao consultrio, a secretria pediu para ela se dirigir  sala de consulta. Rosemeire sentiu uma fraqueza nas pernas. Ajudada pelo filho, levantou-se 
e caminhou para a sala do doutor Rafael. Ao abrir a porta, percebeu que o mdico estava com a fisionomia tranquila. A sua ansiedade era tanta, que ela perguntou 
pelo resultado do exame antes mesmo de cumpriment-lo.
- Ento, doutor Rafael? Qual notcia o senhor tem para me dar?
- O resultado do exame ficou pronto agorinha. Por isso, eu no telefonei. Imaginei que voc j estivesse a caminho e preferi lhe falar pessoalmente.
Rosemeire teve a sensao de que o seu corao sairia pela boca. Naquele momento, sentiu-se uma r  espera do veredicto. Quando os lbios do doutor Rafael moveram-se 
para falar o resultado do exame, ela fechou os olhos.
- Felizmente, o resultado deu negativo: no acusou metstase.
Rosemeire levantou as mos para cima e depois abraou o filho, tomada pela emoo.
- Mais uma vitria. Graas a Deus, graas a Deus!
Artur, enfim, conseguiu relaxar. Durante todos aqueles dias, ele sentiu uma angstia muito grande, mas fez o possvel para no demonstrar sua preocupao com a sade 
de sua me.
- Acho que est na hora de a senhora comear um novo ciclo em sua vida. As coisas esto mudando para melhor. Aproveite o embalo dessa mar positiva.
Rafael, que at ento observava a alegria estampada na face dos dois, aproveitou o momento de entusiasmo para perguntar sobre o jantar na casa de sua cliente.
- A confraternizao pelo seu aniversrio est confirmada?
Rosemeire recostou-se na cadeira e suspirou fundo antes de responder:
- Mais do que confirmada. Deus est sendo muito generoso comigo. Ns vamos celebrar o meu aniversrio. Estou nascendo de novo, em todos os sentidos. D-me uma caneta 
e um pedao de papel para anotar o meu endereo.
- Irei com o maior prazer - disse o mdico, enquanto passava o papel e a caneta para Rosemeire. - Quando a senhora ir se consultar com a doutora Beatriz?
- Amanh, s cinco horas da tarde.
Rosemeire anotou o endereo, passando-o para o mdico. Pouco depois, deixaram o consultrio. Mal saram do prdio e ela telefonou para sua me, dando a notcia.
- Eu estava rezando o tero, minha filha. Tinha certeza de que tudo acabaria bem. Graas ao bom Deus, agora posso voltar para Trancoso mais tranquila.
Em seguida, Rosemeire telefonou para Alexandre. Ele deu um longo suspiro, aliviado com a notcia.
- Voc no imagina como estou mais tranquilo com esta informao.  noite passada, eu no consegui dormir, pensando no resultado desse exame.  uma preocupao a 
menos. Dar tudo certo, voc ver.
Espero estar ao seu lado nessa nova etapa da sua vida. Acredito que agora voc ter cabea para pensar no meu pedido.        
- Sem dvida. Eu estava preocupadssima com esse exame. Prometo que, no mximo at sexta-feira, lhe comunicarei a minha deciso. 
Por um momento, ambos ficaram calados. Alexandre j havia falado tudo que precisava. No lhe restava outra opo que no fosse aguardar. Rosemeire, em seu ntimo, 
j sabia qual resposta daria, mais queria ter a certeza de no estar dando um passo errado em sua vida.
- Eu gostaria de poder abra-la em seu aniversrio.
- Claro! Venha me visitar.
- Eu irei. Pode me aguardar.
Pouco depois, eles chegaram a casa. Assim que ouviu o barulho da porta se abrindo, Maria veio ao encontro da filha para abra-la.
- Mame, estou entusiasmada pela vida, quero viver e ser feliz com a vida que tenho, independente daquilo que no tenho. Olha, se eu pudesse definir o que estou 
sentindo, eu diria que descobri um gigantesco poo de petrleo dentro de mim; como se esse petrleo estivesse jorrando, levando-me para cima. Estou me sentindo rica, 
no de bens materiais, mas de uma energia que me empurra para a vida.
Maria voltou a abraar a filha e elevou os seus pensamentos a Deus, agradecendo por aquele momento. Em sua mente, veio a imagem do finado marido. Em seu ntimo, 
ela acreditou que ele intercedeu junto ao Criador pela sade de sua filha.
 
 

CAPTULO
XXX
 


A alegria de Denise contrastava com a tristeza da irm. Renata estava triste com a falta de perspectiva de emprego. Para piorar o seu estado de humor, ela foi informada 
pelo porteiro de que Adriano havia rondado o prdio vrias vezes, no dia anterior. Pensou em passar alguns dias na fazenda, caso Adriano voltasse a fazer novas investidas. 
Ela queria evit-lo ao mximo, at que a poeira pelo trmino do relacionamento baixasse.
Enquanto esperava pela resposta de algumas empresas onde havia deixado o seu currculo, Renata fazia entrevista em outras firmas. Artur, por sua vez, decidiu aumentar 
o ritmo pela busca de emprego. At ento, estava muito envolvido com a sade de sua me. Aps o resultado do ltimo exame, ele ficou mais tranquilo. Decidiu telefonar 
para Renata a fim de se inteirar melhor sobre as ofertas de trabalho. Depois, saiu para deixar o seu currculo em algumas empresas. No final da manh, seu pai lhe 
telefonou, convidando-o para almoarem juntos.
Rosemeire, depois da ausncia justificada no servio, deu uma passadinha, na Secretaria de Estado da Fazenda, para informar aos colegas sobre o seu quadro de sade. 
O retorno ao trabalho levaria mais algum tempo, haja vista que, em breve, ela comearia o tratamento com a quimioterapia.
No final da tarde, ela pegou um txi e foi para o consultrio da doutora Beatriz. Ao chegar, ficou impressionada com a beleza do prdio. O consultrio ficava no 
oitavo andar e ocupava duas salas. Assim como ela imaginava, um expressivo nmero de pacientes aguarda para ser atendido. O telefone tocava a cada cinco minutos. 
Era sempre um paciente tentando agendar consulta. Aps uma longa espera, Rosemeire foi levada ao encontro da oncologista.
- Boa tarde, Rosemeire. Como est passando?
- Boa tarde, doutora. Agora eu estou mais aliviada. O doutor Rafael lhe passou os exames?
- Passou, sim. Eu j dei uma olhada e verifiquei que o seu caso no  dos mais graves. Isso no significa que ns podemos relaxar. Pretendo comear o seu tratamento 
o mais breve possvel. No mximo, na prxima semana.
Vencida a preocupao com a metstase, agora Rosemeire esta preocupada com os efeitos colaterais do tratamento, mas estava disposta a fazer o que fosse preciso para 
ficar curada.
- Dizem que os efeitos colaterais da quimioterapia so terrveis.
- Realmente, existem efeitos colaterais. Os pacientes costumam sentir muitas nuseas durante a quimioterapia e mesmo alguns dias depois. Ns procuramos minimizar 
esse efeito dando medicamento ao paciente para evitar o vmito. A quimioterapia  um coquetel com trs drogas, que  ingerido por via venosa e dura, aproximadame 
duas horas. No vou descartar a possibilidade de entrar com a radioterapia tambm, mas esta no apresenta desconforto para o paciente. O tratamento ser feito em 
uma clnica especializada. Voc prefere comear nesta semana mesmo?
- J que eu no tenho como evit-lo, seria bom iniciar o tratamento ainda nesta semana, de preferncia na sexta-feira, porque amanh ser o meu aniversrio e decidi 
fazer uma reunio em minha casa. Inclusive, convidei o doutor Rafael e ele confirmou presena. Eu gostaria muito que a senhora tambm fosse, mesmo porque a Denise 
estar l e eu j fiquei sabendo do encontro dela com a senhora e com o seu pai. Alis, ser uma boa ocasio para vocs se aproximarem ainda mais. Aproveite e leve 
o seu pai. O meu filho falou que est curioso para conhec-lo.
Beatriz ficou surpresa com o convite, afinal, mal conhecia Rosemeire, mas concordou que seria uma excelente oportunidade para ela e seu pai se aproximar ainda mais 
de Denise. Assim, aceitou o convite e tomou nota do endereo.
Logo depois, despediram-se e Rosemeire tomou um txi rumo  casa de Eunice, a fim de encomendar o jantar do dia seguinte.
Eunice fazia jantares nas casas de empresrios e polticos. Frequentemente, ela era contratada para organizar jantares no Rio e em So Paulo.
Aps acertar os detalhes da festa, Rosemeire retornou para sua casa. Ao chegar, foi para o seu quarto refletir sobre a proposta de Alexandre. Estava decidida a fazer 
uma tentativa de reconciliao, mas no sabia se daria a resposta no dia do seu aniversrio ou se deixaria para o dia seguinte.
Rosemeire estava pensando nisso, quando se deu conta de que Artur no tinha chegado em casa, o que ela achou estranho, afinal, nos ltimos dias, ele sempre avisava 
para onde estava indo quando saa  noite. Tentou falar em seu celular, mas ningum atendeu. Ento, ela decidiu dormir, pois queria acordar cedo no dia seguinte. 
Certamente, Artur estaria em companhia de Denise.
Pouco depois que ela adormeceu, teve a sensao de estar ouvindo o som de um violino. Virou-se de lado, abriu os olhos e viu no rdio-relgio que era exatamente 
meia-noite. Ela voltou a fechar os olhos. Mais um pouco, Rosemeire ouviu uma bela voz cantando: "nunca se esquea, nem um segundo, que eu tenho o amor maior do mundo. 
Como  grande o meu amor por voc".
O som do violino ficava cada vez mais alto e ntido. Ela levantou o corpo, com a impresso de que os msicos estavam dentro de sua casa. Mais alguns segundos, confirmou 
tal fato. Agora, entendeu o motivo do sumio do filho. Com certeza, ele estava por trs daquela homenagem.
Imediatamente, Rosemeire vestiu-se e abriu a porta do quarto. Para sua surpresa, junto com os msicos estavam sua me, Artur, Denise e Alexandre.
Quando os msicos acabaram de tocar a msica de Roberto Carlos, comearam a cantar parabns para voc. Ao fixar o olhar em Alexandre, Rosemeire no conseguiu conter 
a emoo. Correu para os seus braos, em prantos.
Assim que seus lbios se tocaram, ambos sentiram o gosto das lgrimas. At os msicos ficaram emocionados. Saram do apartamento com a certeza de que a misso estava 
cumprida.
Logo depois, sentaram-se todos ao redor da mesa para comerem o bolo de chocolate. Rosemeire ainda estava sob o impacto do acontecimento. Certamente, de todas as 
surpresas que Alexandre preparou para ela, aquela causou a maior emoo.
Depois de alguns minutos de conversa, Maria foi a primeira a se retirar, alegando que precisava dormir. Assim que entrou em seu quarto, ela comeou a rezar, reforando 
o pedido para que Deus iluminasse o caminho de sua filha e do genro.
Artur e Denise perceberam, pelos olhares dos dois, que eles queriam ficar sozinhos. Denise pediu a Artur para lev-la para casa.
Finalmente, Alexandre e Rosemeire ficaram a ss e puderam compartilhar novamente a cama que testemunhou o amor deles por tantos anos.
Enquanto dirigia o carro em direo  casa da namorada, Artur no cabia em si de tanto contentamento. Depois de presenciar a me sofrer tanto, ver aquele momento 
de alegria, exatamente no dia do aniversrio dela, era um presente que no tinha preo.
Assim que entrou em casa, Denise deparou-se com o seu pai sentado no sof. Ele havia chegado a pouco da fazenda. Estava decidido a telefonar para Beatriz no dia 
seguinte. Apesar de ser um homem experiente, Lenidas estava sentindo um friozinho na barriga e conversou com Denise sobre o melhor horrio para telefonar e a melhor 
forma de introduzir a conversa.
 

CAPTULO 
XXXI


Quando acordou e viu que estava na cama que foi sua por tantos anos, Alexandre elevou os pensamentos a Deus e agradeceu. Em seguida, ficou observando o sono da esposa. 
Acariciou os cabelos dela, beijou a sua face e saiu em direo  cozinha. Pouco depois, retornou com uma bandeja de caf da manh. Os ingredientes foram escondidos 
na geladeira assim que chegaram, na noite anterior.
Rosemeire acordou com os beijos dele. Ao ver a bandeja com os tipos de comida de que ela mais gostava, pensou estar no paraso. Depois do perodo difcil que viveu, 
receber a boa notcia do resultado do exame e ter o marido de volta, com o carinho dos primeiros anos de casamento, era os melhores presentes que ela poderia receber 
no dia de seu aniversrio.
Depois do caf, Alexandre saiu para o trabalho. Rosemeire queria deixar o seu armrio arrumado ainda na parte da manh, pois  tarde levaria a sua me ao aeroporto 
e depois ficaria envolvida com os afazeres do jantar.
Lenidas passou a manh inteira olhando para o telefone. Quando comeava a discar o nmero de Beatriz, sentia falta de ar e interrompia a ligao. A falta de coragem 
para conversar com ela o incomodava.
O empurro que faltava para ele fazer a ligao veio quando Denise chegou a casa.
- J conversou com ela, papai?
Lenidas apenas balanou a cabea, respondendo negativamente.
- Papai, no h o que temer. Ela j disse que ir conversar com o senhor assim que telefonar. Deixa de bobagem, o senhor veio da fazenda s pra isso e agora fica 
sem coragem. No tem cabimento uma coisa dessas.
Lenidas suspirou fundo e, enfim, telefonou. Quando Beatriz disse "al", ele temeu que a voz lhe faltasse, mas, com custo, iniciou o dilogo.
- Beatriz, desculpe-me por incomod-la.  Lenidas que est falando. Desta feita, foi  vez de Beatriz sentir o corao bater descompassado.
- Ol, tudo bem?
- Graas a Deus. Imagino que voc j esperava pela minha ligao.
- Esperava, sim. A Denise disse que voc telefonaria.
Movido pelo nervosismo, Lenidas decidiu ser o mais breve possvel, j que estava com dificuldade inclusive de respirar.
- Eu gostaria de conversar pessoalmente com voc.  possvel?
- Claro. Hoje, eu trabalho at as cinco da tarde. Caso queira, podemos marcar as seis e meia, pois  noite eu tenho um aniversrio para ir.
- Perfeitamente. Onde podemos nos encontrar?
- H uma cafeteria perto da casa aonde eu irei ao aniversrio. Podemos nos encontrar l, o que acha?
- Por mim, tudo bem.
Em seguida, Lenidas pegou caneta, papel e anotou o nome e o endereo da cafeteria.
Ambos sentiram-se aliviados quando desligaram o telefone.
Ao meio-dia e meia, Alexandre passou no apartamento para buscar a esposa e a sogra a fim de almoarem em um restaurante. Seguindo sugesto de Artur, foram  cantina 
italiana que ficava nas proximidades da construtora onde ele trabalhou.
Quando chegaram, Artur e Denise j estavam  espera deles. Todos usaram dos argumentos imaginveis para convencer Maria a ficar para o jantar, mas ela estava irredutvel, 
pois precisava voltar para Trancoso a fim de assistir  colao de grau da afilhada, cujos estudos foram custeados por ela.
Aps o almoo, voltaram para casa. Maria no aceitou que fosse lev-la ao aeroporto. Antes de partir, contudo, sentou-se com Rosemeire e Alexandre no sof da sala 
e deu alguns conselhos.
- Construam uma histria de vida bonita, a partir de agora, pois vocs no sabem durante quanto tempo ficaro juntos. Deixem para trs o que passou. E, quando tiverem 
algum entrevero, no faam meno a fatos passados. Mantenham sempre o dilogo e usem o tom de voz baixo e respeitoso. Lembrem-se de que os defeitos das pessoas 
que vivem mais prximas de ns so notados com maior frequncia, porque se evidenciam no dia-a-dia. No usem as fraquezas um do outro para agresso. O amor reclama 
cultivo. O verdadeiro amor  conhecido no por aquilo que reclama, mas sim pelo que oferta. A melhor relao  aquela em que o amor excede a necessidade.
Os conselhos de Maria tocaram no apenas os coraes de Rosemeire e Alexandre, mas principalmente os de Artur e Denise.
Em seguida, Maria abraou um a um. Rosemeire telefonou para o ponto de txi e todos desceram para se despedirem da matriarca da famlia.
Depois que Maria partiu, Rosemeire ficou por conta de acertar os detalhes finais de sua festa. No se lembrava de ter comemorado um aniversrio com tanto entusiasmo 
como aquele.
s seis e meia em ponto, Beatriz chegou  cafeteria. Lenidas j a aguardava. Assim que os seus olhares se cruzaram, os fatos passados vieram como um flash na mente 
de ambos. Um tanto quanto sem graa, Beatriz caminhou em direo ao seu antigo amor.
Lenidas recebeu-a com um abrao e dois beijos, sendo um em cada face.
- Como este mundo  pequeno, no  mesmo, Imelda?
-  menor do que imaginamos. Jamais reconheceria voc sem a barba.
- H anos eu no uso mais barba. Com relao a voc, acho que eu a reconheceria em qualquer lugar do mundo. Os anos no mudaram muito as suas feies.
Beatriz deu um sorriso tmido e fez um pedido para Lenidas. 
- Por favor, no me chame de Imelda. Agora o meu nome  outro. 
Lenidas deu de ombros, indicando que por ele estava tudo bem. 
O garom aproximou-se, trazendo o cardpio, e cada um pediu um tipo de caf diferente.
Em seguida, Lenidas entrou no assunto que o trouxera ali.
- Ns convivemos por pouco tempo, mas o suficiente para voc me conhecer bem. Sabe que eu no costumo rodear para falar o que quero.
-  verdade - concordou Beatriz.
- Pois bem. Inicialmente, quero pedir desculpas por no ter acreditado que a Denise era minha filha. A nossa relao foi muito intensa e eu conheci voc o suficiente 
para saber que no estava mentindo. Escolhi o caminho mais fcil para no complicar o meu casamento com a Vera. Sei que errei e causei um estrago em sua vida.
- Eu no tenho mgoa de voc. No seu lugar, talvez eu fizesse o mesmo. Agora, se voc no se incomoda, eu gostaria que voc fizesse o exame de DNA, caso a Denise 
concorde. No adianta voc falar que acredita em mim. Eu quero provar que fui sincera.
Lenidas franziu a testa e coou a cabea.
- No h a necessidade deste exame. Eu confio em voc.
- No me leve a mal Lenidas, mas a realizao do exame de DNA  fundamental para mim.
Diante da determinao da mdica, nenhuma alternativa restou a Lenidas.
O garom trouxe os cafs, interrompendo novamente a conversa. Lenidas tomou um gole e prosseguiu.
- O segundo motivo que me trouxe aqui  o sentimento que eu tenho por voc.
Os olhos dele brilharam e ela sentiu a face ficar corada.
- O que eu senti por voc foi muito forte. Eu fiquei balanado para terminar o casamento e s no o fiz porque a Vera era uma excelente esposa e tinha a sade debilitada. 
No resistiria a tamanha decepo. Eu senti muito a sua falta quando voc se foi. A verdade  que eu nunca consegui 
esquec-la totalmente. Vez ou outra, a sua imagem vinha  minha mente, isso quando no sonhava com voc. Aps a morte da Vera, h quase nove meses, eu passei a pensar 
com mais frequncia em voc. Desde ento, no me relacionei com nenhuma outra mulher.
A confisso de Lenidas no pegou Beatriz de surpresa. No fundo, ela suspeitava de que ele pudesse fazer tal tipo de declarao.
- Eu gostaria de me reaproximar de voc, Beatriz. Claro, isso se voc no estiver comprometida.
Lenidas interrompeu a fala, esperando por uma resposta dela. Beatriz ficou em dvida sobre o que responder. De uma forma ou de outra, sabia que o convvio com ele 
seria inevitvel, pois estava entusiasmada com o fato de se relacionar com Denise. Depois de raciocinar por alguns segundos, ela respondeu:
- Eu no estou comprometida, mas no vou dar um passo antes que voc faa o exame de DNA. Mesmo com o resultado em mos, acho que no deveremos nos precipitar, pois 
no sei at que ponto as minhas feridas esto totalmente cicatrizadas. Contudo, certamente passaremos a conviver a partir de agora, j que temos um elo que nos une. 
Vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente. Sinceramente, no sei se serei capaz de am-lo novamente. S o tempo dir. Por isso, a nica coisa que realmente 
desejo agora  a realizao do exame de DNA.
- Tudo bem. Eu vou conversar com a Denise. No haver problema algum e ns poderemos fazer o exame ainda nesta semana.
O telefone de Beatriz tocou. Era o seu pai, querendo saber se j podia pegar o txi para encontrar com ela na cafeteria. Dali iriam juntos para a casa de Rosemeire.
- Pode vir papai. J estou liberada.
Em seguida, pediram a conta e se despediram apenas com um abrao, sem os beijinhos na face que marcaram o reencontro.
 
 
 
CAPTULO 
XXXII


Jos Antnio e Beatriz foram os primeiros a chegar, sendo recepcionados pela aniversariante e por seu marido. Artur havia ido buscar Denise e Renata.
- Que flores lindas, doutora Beatriz! Obrigada.
- Desejo que elas perfumem sua vida neste ano que est comeando para voc.
Pouco depois, o doutor Rafael tambm chegou. Ao ser apresentado para Alexandre, o doutor entendeu o nimo de Rosemeire para comemorar o seu aniversrio.
- Agora eu entendi porque voc est to animada em fazer uma festa - disse ele baixinho, para que Alexandre no ouvisse.
- Isso no  uma festa. Apenas uma reunio para pouqussimos amigos. Alm de vocs, convidei apenas a Denise e a Renata.
Ao ouvir o nome de Renata, Rafael ficou entusiasmado e seus olhos buscaram por ela.
- Elas ainda no chegaram?
- Esto vindo. O meu filho foi busc-las. Pode ficar tranquilo, a Renata est chegando.
- Eu no fiz a pergunta com a inteno que voc est imaginando - tornou o mdico.
- Eu no estou imaginando nada, doutor. Apenas fiz uma brincadeira. 
Cinco minutos aps, Artur chegou em companhia da namorada e da cunhada.
Rafael, assim que viu Renata, no conseguiu mais tirar os olhos dela. Aps cumpriment-la, esperou que escolhesse a cadeira onde sentaria a fim de ficar bem ao lado.
Renata sentiu um frio subindo pela espinha. H muito tempo no conseguia ficar interessada por homem algum, mesmo nos perodos de crise com Adriano. Rapidamente, 
comearam a conversar e ele descobriu que ela era arquiteta. Notcia melhor, ele no poderia receber.
- Estou precisando de uma arquiteta. Comprei um lote e estou querendo comear a construir minha casa. Acho que encontrei a pessoa certa.
Renata arregalou os olhos, no acreditando no que acabam de ouvir. Em uma tacada s, ao que tudo indicava, estava aparecendo a oportunidade de um novo relacionamento 
e de um novo trabalho.
- Podemos marcar uma reunio para conversarmos sobre este assunto - disse ela.
- Claro! Voc tem escritrio?
- Como eu estava trabalhando em uma construtora at recentemente, no momento estou sem escritrio. Podemos nos reunir em outro lugar.
- Voc aceitaria um convite para jantar?
- Sem problemas.
- Podemos marcar para amanh?
- Tudo bem.        
Rosemeire e Denise logo perceberam o entrosamento entre Renata e Rafael. As duas torciam para que ela pudesse comear outro relacionamento logo, a fim de esquecer 
Adriano de uma vez.
Jos Antnio, por sua vez, no conseguia disfarar o encantamento pela neta. Como ele prprio previa, ficou emocionado, pois mais uma vez lembrou-se da esposa e 
da filha, que j haviam falecido. Tentando disfarar as lgrimas que ameaavam rolar, ele perguntou a Rosemeire onde ficava o banheiro. Em seguida, levantou-se, 
tomando a direo indicada. Ao passar por um aparador, viu uma fotografia antiga em um porta-retrato. Parou subitamente, aproximando-se para enxergar melhor a fotografia, 
em preto e branco, de um jovem casal. Quase instantaneamente, sentiu a vista embaar. Ao perceber que desmaiaria apoou-se na parede e gritou por ajuda:
- Socorro!
Artur, que estava mais prximo dele, correu em sua direo, chegando ao exato momento em que seu corpo desfalecia, a tempo de evitar a sua queda.
- Papai! - gritou Beatriz.        
Rafael e Alexandre tambm correram para socorr-lo.
- Tragam um copo de gua - pediu o mdico.
Rosemeire, Renata e Denise ficaram estticas, assustadas com o que poderia estar acontecendo com aquele senhor.
Rafael molhou as mos na gua fria, esfregando-as na cabea de Jos Antnio.
Beatriz ficou impotente para ajudar, sentindo que seu corao sairia pela boca, tal era a preocupao com o estado de sade de seu pai.
Lentamente, Jos Antnio abriu os olhos. A vista continuava embaada e ele via duas imagens de cada pessoa que estava ao seu redor. As vozes pareciam distantes. 
Ele fechou novamente os olhos e a sua mente voltou quase cinquenta anos no tempo. 
- O que o senhor est sentindo? - perguntou Rafael. 
Jos Antnio abriu os olhos e fitou o mdico. Seu olhar denunciava perplexidade. Abriu a boca para responder, mas sentiu-se fraco. Buscava o ar no pulmo com dificuldade. 
Ao respirar, sentia uma dor no peito.
- Vamos lev-lo ao hospital - tornou Rafael.
Com o dedo indicador, Jos Antnio fez sinal de que no era necessria tal providncia.
- Eu estou melhorando - falou, em baixo tom.
Rafael ajudou Jos Antnio a se levantar e a sentar-se na cadeira. Depois, deu um copo de gua para ele tomar. Lentamente, Jos Antnio bebeu a gua. Depois, apontou 
com o indicador para a fotografia que estava sobre o aparador, dizendo:
- Por favor, traga-a para mim.
Beatriz percebeu que o mal sbito de seu pai estava ligado quela fotografia. Deu trs passos para peg-la. Aps examin-la, suas pernas ficaram bambas e ela precisou 
usar toda a sua fora para no desmaiar.
Com cuidado, entregou o porta-retratos nas mos do pai. Ao olhar novamente a fotografia, Jos Antnio comeou a chorar. Rosemeire tentava, em vo, compreender o motivo 
de tanta emoo.
Enquanto chorava, Jos Antnio acariciava o casal que estava na foto. 
- Por favor, explique o que est acontecendo. Agora, sou eu quem est ficando nervosa - disse Rosemeire.
Jos Antnio olhou para ela e passou a chorar copiosamente, sem foras para parar.
- Tome um pouco de gua e procure se acalmar - disse Rafael. O que h de to especial nessa fotografia?
Jos Antnio estendeu as mos trmulas e pegou o copo de gua, levando-o  boca. Para cada pouco de gua que bebia, deixava outro tanto derramar em sua camisa. Apenas 
Beatriz descobriu o que estava se passando com seu pai; os demais estavam atnitos.
- O que est se passando? - tornou Rafael a perguntar.
- Eu vou explicar.
Em seguida, Jos Antnio fitou Rosemeire. Era muita emoo para uma pessoa da idade dele.
 

CAPTULO 
XXXIII


Aps dar um longo suspiro, Jos Antnio iniciou os seus esclarecimentos. Dirigindo-se a Rosemeire, ele apontou com o dedo para o casal da fotografia e perguntou:
- So parentes ou amigos?
- So meus pais.
Jos Antnio suspirou fundo e voltou a chorar. Novamente, todos ficaram preocupados com o seu estado emocional.
- O senhor os conhece? - perguntou Rosemeire.
Jos Antnio assentiu com a cabea, enquanto tirava o leno do bolso para enxugar a lgrima que escorria.
- De onde o senhor os conhece? - tornou Rosemeire.
Jos Antnio no sabia o que responder. Pensou em inventar uma desculpa, pois no sabia qual seria a reao de Rosemeire quando soubesse a verdade. Ele ficou alguns 
segundos analisando a foto, ganhando tempo para responder. Como no encontrou nenhuma desculpa que justificasse a sua reao, optou por falar a verdade. Apontando 
com o dedo indicador para o homem da fotografia, Jos Antnio respondeu: 
- Eu sou este homem que voc diz ser o seu pai.
Deslocando o indicador para o lado, ele completou:
- Esta aqui  a Maria, minha primeira esposa. Ns tiramos est fotografia no quintal da nossa casa, em Pedra Rosada.
A afirmao de Jos Antnio confirmou a convico de Beatriz, j que naquela fotografia ele estava muito parecido, quase idntico, s fotografias que ela tinha do 
casamento dele com a sua me. Ela sabia que seu pai havia sido casado em Pedra Rosada, mas desconhecia existncia de uma filha dele.
Rosemeire, por sua vez, pensou tratar-se de um trote ou equvoco.
- O senhor me desculpe, mas deve estar havendo um engano, meu pai morreu muitos anos atrs, antes mesmo do meu nascimento.
Jos Antnio chorava como um menino perdido aps encontrar os pais. Ele olhava para Rosemeire, as lgrimas rolando pela face, os soluos dificultando a fala.
- Eu sou o seu pai.
Rosemeire permanecia incrdula. Em sua mente, a confuso feita por aquele senhor se devia ao fato de alguma semelhana fsica dele de sua ex-esposa com os pais dela.
- Volto a dizer: o senhor est enganado. O meu pai morreu em um acidente de carro.  impossvel o senhor ser o meu pai.
- Eu no morri naquele acidente. Estou vivo, mais do que nunca.
Pela primeira vez, Rosemeire comeou a admitir que ele pudesse estar falando a verdade. Sentiu o corao acelerar as batidas.
- O senhor se refere a qual acidente?
- Voc sabe. Estou falando do acidente em que a caminhonete caiu no rio Bonito.        
Rosemeire comeou a suar frio.        
- Como o senhor sabe deste acidente?
- Eu sou o seu pai, acredite. O corpo dele nunca foi encontrado nem poderia, pois eu estou aqui, vivinho da silva.
Desta vez, foi Rosemeire quem teve um princpio de desmaio. Alexandre estava ao seu lado e segurou o seu corpo, evitando que tombasse de lado.
- Acalme-se, meu amor. Voc no est podendo ter emoes fortes. Beba um pouco de gua.
Rosemeire bebeu apenas um gole. Permanecia renitente em acreditar que estava diante de seu pai. Logo, deu as suas razes para o fato de o corpo no ter sido encontrado.
- Na poca do acidente, o rio Bonito teve uma grande cheia, em funo do perodo de chuva. Foi por isso que no encontraram o corpo. A correnteza arrastou o corpo 
para bem longe. Como ningum encontrou, deve ter servido de alimento para os animais.
- Como chamava o seu pai? - perguntou Jos Antnio.
Rosemeire imaginou onde ele queria chegar. Com a voz rouca, ela respondeu:
- Jos Antnio Pereira Carvalho.
O velho riu e puxou a carteira do bolso. Abriu-a e retirou do seu interior o documento de identidade, entregando-o a Rosemeire.
- Veja o meu nome, o lugar onde nasci  data do meu nascimento e os nomes de meus pais.
Ao checar os dados, Rosemeire comeou a chorar compulsivamente. Era a prova de que ele estava falando a verdade. Alexandre abraou-a, procurando consol-la. Ele 
tambm estava em estado de choque. Artur olhava para Jos Antnio, incrdulo, sem entender como ele poderia ter escapado do acidente. Beatriz no tinha palavras 
para descrever a sua emoo, afinal percebeu que Rosemeire, alm de sua paciente, tambm era sua irm.
Assim que se acalmou, Rosemeire dirigiu a palavra a Jos Antnio: 
- Por favor, esclarea-me tudo. 
Novamente, as atenes se voltaram para o piv daquela confuso.
Jos Antnio, pacientemente, comeou a explicar os fatos.
- Est bem, eu vou resumir. Voc sabe que o meu casamento com a sua me no foi aceito pelo coronel Teodoro e pelo Fausto, respectivamente pai e irmo dela. No 
fosse a intercesso do Slvio, o outro irmo, ns no teramos nos casado.
- Essa parte eu sei - disse Rosemeire. - Sei tambm que voc matou o Slvio e que por isso o meu av saiu em sua perseguio.
- Calma l - interrompeu Jos Antnio, levantando a mo direita. - Matei o Slvio acidentalmente. Eu estava em vias de brigar com um vereador do Partido Vermelho 
e o Slvio apartou a nossa confuso. Quando estava voltando para a minha mesa, ouvi o vereador falando: "voc ter o que merece". Ao me virar para trs, vi que ele 
estava levando a mo  cintura. Imaginei que ele sacaria um revlver e no pensei duas vezes: puxei o meu revlver da cintura e descarreguei os tiros nele. Infelizmente, 
uma das balas atingiu o Slvio. Eu somente atirei porque achei que estava agindo em legtima defesa. Como vaso ruim no quebra fcil, o vereador conseguiu sobreviver 
e o Slvio morreu.
- Esta parte, eu sei. A mame j me contou a histria. Eu quero que voc fale o que aconteceu depois.
- Eu vou chegar l. Bem... Depois do crime, eu fiquei refugiado em uma fazenda por vrios dias, at o seu av descobrir onde eu estava. Ele apareceu por l, acompanhado 
de vrios jagunos. Houve um tiroteio danado. Alguns companheiros morreram e outros fugiram. Comigo, s ficou o Tio. Eu e ele estvamos acuados atrs do curral. 
Vimos os jagunos de seu av se posicionando para nos encurralar. Tnhamos apenas uma sada: soltar os cavalos e sair correndo no meio deles, at chegar  caminhonete 
que estava no terreiro. Era uma deciso arriscada, mas nao tnhamos escolha. Foi o que fizemos: soltamos os cavalos e corremos no meio deles. Deu d, porque alguns 
animais foram atingidos pelos tiros. O Tio estava com a chave da caminhonete e entrou pela porta do motorista. Eu tentei entrar pela outra porta, mas no consegui. 
Decidi pular na carroceria. O Tio acelerou, jogando barro para todo lado.
- Vocs conseguiram matar algum jaguno? - perguntou Artur, fascinado por ouvir a histria do av, que julgava estar morto.
- Eu sei que algumas pessoas que estavam com eles foram atingidas, mas no sei se morreram.
- Como foi  perseguio que o coronel Teodoro fez?
- Eles vieram atrs de ns em dois carros. A estrada estava toda enlameada. Eu no vi que o Tio havia sido atingido antes de entrar na caminhonete. Quando percebi 
que estvamos perdendo distncia, olhei para dentro do carro e vi que a camisa dele estava ensanguentada. Naquele momento, eu achei que era o nosso fim.
- Qual era a distncia entre vocs e eles?
- Entre cinquenta e cem metros. Eles vinham atirando sem parar; acho que tinham muita munio. Eu revidava os tiros apenas quando a distncia ficava muito curta, 
pois tinha poucas balas. Em um determinado momento, fiquei completamente sem munio. Foi quando olhei para dentro da cabine e vi o Tio se contorcendo de dor. Deitei-me 
na carroceria da caminhonete e entreguei o meu destino a Deus. Comecei a rezar e ouvi uma voz dizendo: "Pula". Abri os olhos, mas no vi ningum ao meu lado. A voz 
era muito familiar. Fechei os olhou e voltei a rezar. Novamente, a mesma voz: "Pula". Naquele momento, eu reconheci a voz como sendo a do Slvio.
- O cunhado que voc matou? - perguntou Denise, absorvida pela histria.
- Exatamente. Eu fiquei com medo e comecei a rezar em alto tom. Pela terceira vez, ouvi o aviso: "Pula". Com certeza, era a voz do Slvio. Eu levantei a cabea e 
vi que o carro faria uma curva para a direita, sendo que o mato ao redor da estrada estava alto. Logo depois da curva eu pulei, aproveitando que o mato tampava a 
viso deles. A ponte onde ocorreu o acidente vinha logo depois, talvez uns cem metros. Eu ouvi primeiro os carros passando e depois ouvi o barulho de um automvel 
caindo no rio. Em seguida, ouvi os capangas do coronel Teodoro gritando para se espalharem pela margem do rio a fim de que eu e o Tio no escapssemos. Levantei-me, 
corri na direo contrria  deles e depois retornei para a margem do rio. Peguei carona em uma canoa, com um ndio, e atravessei para o outro lado do rio, a fim 
de chegar novamente  estrada.
- Onde voc foi parar depois do acidente? - indagou Rosemeire.
- Quando retornei  estrada, peguei carona em um caminho de leite at a cidade de Santa Clara. L chegando, procurei um companheiro do Partido Branco e relatei 
o meu drama. Ele me emprestou uma boa quantia em dinheiro e, no mesmo dia, eu peguei um nibus para So Paulo, onde consegui emprego em uma empresa de laticnios 
e conheci o Oscar, meu colega de trabalho. Fiquei nessa empresa durante oito meses, at ser demitido, juntamente com o Oscar e outros empregados. O Oscar era do 
Paran e decidiu voltar para a casa dos pais. Ele era o meu melhor amigo naquela poca e sabia a minha histria. Quando ele retornou para o Paran, convidou-me para 
passar uns dias na fazenda do pai dele. Eu fui, conheci a Rosa, comeamos a namorar e eu fiquei por l, trabalhando com o pai dela. Logo depois nos casamos.
- Qual lugar do Paran? - perguntou Rosemeire.
- Chama-se Venda do Bispo, zona rural de Indianpolis, perto de Maring. Por coincidncia, o lugar tem esse nome porque um cidado de sobrenome Bispo, que era dono 
de uma venda, matou outro e sumiu de l.
Rosemeire sentiu certa revolta com seu pai, por ele nunca mais ter dado notcias.
- Por que o senhor nunca mais procurou a mame?
- Eu no sabia que ela estava grvida. Ela no comentou nada comigo sobre a gravidez. Por outro lado, no havia a menor possibilidade de ficarmos juntos. Eu conhecia 
o seu av e sabia que ele no sossegaria enquanto no me matasse. Eu no tive alternativa: a nica sada era sumir. Alm disso, eu havia matado um homem e a pena 
poderia chegar a trinta anos. Fiquei sabendo que o crime prescreveria em vinte anos e decidi no aparecer nesse perodo. Mesmo assim, quando eu estava em So Paulo, 
contratei um detetive particular para ir atrs de sua me. Queria traz-la para junto de mim. Esse detetive ficou um ms em Pedra Rosada, tentando obter alguma informao. 
Infelizmente ela havia sumido e ningum na cidade sabia onde estava, nem o motivo de seu desaparecimento.
A viso do pai em sua frente parecia um sonho para Rosemeire. Em toda a sua vida, ela jamais suspeitou de que ele pudesse estar vivo
- Mame chegou a pensar que o senhor tivesse sobrevivido e teve esperanas de que voltaria para busc-la.
Jos Antnio fechou os olhos e lembrou-se dos momentos de amor vividos ao lado de Maria. Ele acreditava que, se no fosse pela tragdia ocorrida, certamente estariam 
juntos at aquele momento. Agora, era ele que desejava ter notcias dela. Procurou fortalecer o esprito para ouvir as respostas que esperava obter e comeou a sesso 
de perguntas.
- O que ela fez depois que eu fui embora?
- Quando o vov Teodoro e o Fausto descobriram que ela estava grvida, planejaram providenciar o aborto, pois no aceitavam um descendente com o sangue do senhor. 
Felizmente, a mame descobriu o plano e fugiu para Trancoso, na Bahia, onde uma amiga dela estava morando. Foi por isso que o detetive que o senhor contratou no 
a encontrou em Pedra Rosada. Com exceo do vov Teodoro e do tio Fausto, ningum sabia que ela estava grvida e ningum ficou sabendo onde ela foi se esconder. 
Quase dois anos depois de fugir, ela deu notcias para o vov Teodoro informando sobre o meu nascimento e sobre a vida dela em Trancoso.
 medida que Rosemeire falava, Denise identificou mais um motivo para ter tamanha afinidade com ela, pois ambas haviam passado pelo mesmo drama quando estavam no 
tero de suas mes: escaparam por pouco do aborto. O sentimento de rejeio ficou marcado nas duas.
Jos Antnio continuava curioso para saber o desenrolar da histria, sobretudo o comportamento do antigo sogro com relao  neta indesejada.
- Qual foi  reao do coronel Teodoro, quando sua me o avisou sobre o seu nascimento?
- Ele no quis me conhecer. Influenciado pelo tio Fausto, ele fez um testamento excluindo a mame da herana, tendo inventado umas mentiras, ao dizer que ela havia 
cometido injria contra ele por diversas vezes. Pouco depois, ele morreu vtima de ataque cardaco. Como ele era vivo, o tio Fausto herdou metade da herana, ficando 
a outra metade para a Letcia, filha do tio Silvio. Por ironia do destino, quando o tio Fausto estava caminhando em uma das fazendas herdadas, levou uma picada de 
cobra e morreu. Ele estava sozinho, distante da sede da fazenda, e ningum ouviu os seus gritos de socorro. As ms lnguas falam que a cobra foi encontrada morta, 
ao seu lado, porque ele era mais venenoso do que ela.
Jos Antnio guardou as duas perguntas, cujas respostas mais desejava saber, para o fim. Suspirou fundo e fez a primeira delas.
- A sua me voltou a se casar?
Rosemeire olhou para o pai, pensando no amor que sua me sempre nutriu por ele e na esperana que ela um dia teve de que ele voltasse para busc-la.
- Ela nunca mais se casou. Teve alguns relacionamentos, mas nunca esqueceu o senhor e isso acabou atrapalhando a vida afetiva dela. At hoje, ela pensa no senhor 
todos os dias.
Sem que Jos Antnio perguntasse, Rosemeire acabou por responder a outra pergunta que ele faria.
- Quer dizer que ela est viva?
Rosemeire sorriu, imaginando ter sido o dedo de Deus que conduziu sua me de volta a Trancoso algumas horas antes, pois a emoo seria muito forte para o corao 
dela.
- Ela est viva, sim. Esteve conosco at agorinha, mas retornou no final da tarde para Trancoso. No sei qual seria a reao dela, se estivesse aqui. Tambm no 
sei como ns iremos dar esta notcia para ela.
- Eu conheo a sua me e sei como fazer - disse Jos Antnio.
- O senhor no a conhece mais - tornou Rosemeire. - Passaram-se quarenta e oito anos; ela  outra mulher.
- Eu quero reencontr-la o mais breve possvel para explicar o que aconteceu. Por favor, me ajude.
Rosemeire olhou para o pai e sentiu sinceridade em seu olhar. A expresso dele era a de quem clama por misericrdia.
- Est bem, eu vou ajud-lo, mas ser  minha maneira. No colocarei em risco a sade de minha me.
Jos Antnio sorriu, aliviado por contar com o apoio da filha, cuja existncia acabara de descobrir.
- Ela est morando em Trancoso?
- Est sim. Ela tem uma pousada dentro do Quadrado, o lugar mais nobre de Trancoso.
- Como chama a pousada?
- Pouso das Borboletas. 
Jos Antnio sorriu.
- Ela ainda gosta de borboletas?
- Cada vez mais. Parece que elas sentem isso; o senhor precisa ver o jardim da pousada, como  cheio de borboletas.
Rosemeire fitou carinhosamente o pai. A ficha ainda no havia cado.
- Eu nunca esquecerei este aniversrio. No dia anterior, recebo a notcia de que no houve metstase do cncer.  meia-noite, em ponto, sou acordada por uma serenata 
organizada pelo meu marido, ocasio em que reatamos o casamento depois de quase um ano de separao. Por fim, venho a conhecer o meu pai, o qual eu pensava ter morrido 
antes mesmo do meu nascimento.  muita alegria para um dia apenas.  O senhor me desculpe, mas eu preciso me acostumar com a idia de que tenho um pai.
- No seja por isso; eu preciso me acostumar com a idia de que tenho uma filha com a Maria. Parece que estou vivendo um sonho.
Jos Antnio lembrou-se da finada Rosa. A morte dela havia sido um baque duro para ele.
- Tanto eu, quanto a Beatriz, ainda sofremos com a morte da Rosa, minha companheira durante mais de quarenta anos. Foi um golpe terrvel para mim, porque um acidente 
de carro  um fato inesperado. Posso estar enganado, mas acho que ela ficou em minha companhia o tempo certo.
Confesso que o meu corao est batendo diferente s de pensar que vou reencontrar a Maria. Como ficaria a minha situao, se a Rosa estivesse viva? Sinceramente, 
acho que eu ficaria dividido. Bom... Besteira ficar falando nisso! Sequer sei qual ser a reao da Maria quando me vir.
Voltando-se para Rosemeire, Jos Antnio perguntou:
- Posso abra-la?
Rosemeire comeou a chorar e no respondeu. Jos Antnio levantou-se e caminhou at a cadeira onde ela estava sentada, abraando-a. Mais um pouco e todos comearam 
a chorar. Em seguida, Rosemeire levantou-se e tambm abraou o seu pai. O seu gesto foi seguido pelos demais, que comearam a se abraar entre si.
Quando os abraos terminaram, Rosemeire enxugou as lgrimas e pediu licena para esquentar a comida, que j estava pronta. Beatriz acompanhou-a at a cozinha, sendo 
seguida por Denise e Renata. As mulheres ficaram na cozinha, fazendo companhia para Rosemeire, enquanto os homens conversavam na sala, comentando que apenas a interveno 
divina poderia orquestrar uma situao como aquela.
Poucos minutos depois, a mesa estava posta e os convidados foram atrados pelo cheiro. Apesar da comida apetitosa, Jos Antnio no estava com apetite para jantar. 
A imagem de Maria no saa de sua mente. Para no fazer desfeita com Rosemeire, ele colocou no prato um pouquinho de frango ao molho champanhe, acompanhado de uma 
colher de arroz e uma pequena poro de batata palha. Depois, aguardou os convidados terminarem de comer para fazer mais uma pergunta a Rosemeire.
- Por acaso, voc tem alguma fotografia mais recente da sua me para me mostrar?
- Tenho, sim. Aguarde um momento, que vou busc-la.
Rosemeire se levantou e caminhou em direo aos quartos. Instantes aps, voltou com a fotografia, entregando-a para Jos Antnio. Este, assim que a viu, abriu um 
sorriso por constatar que ela continuava bonita, apesar das marcas do tempo.
- Para quando ser possvel marcarmos um encontro e, assim, esclarecer todo o ocorrido? Estou muito ansioso para rev-la.
- O senhor dever ter um pouquinho de pacincia. Para quem esperou quarenta e oito anos, esperar alguns dias a mais no ser to penoso, ela acabou de retornar para 
Trancoso. Vou tentar convenc-la a voltar a Belo Horizonte na prxima semana, pois at l no pensarei em outra coisa que no seja encontrar a melhor forma de dar 
a notcia.
Jos Antnio no ficou satisfeito com o prazo de uma semana pedido por Rosemeire. Ele se conhecia o suficiente para saber que no teria apetite nem sono durante 
aquele perodo, mas percebeu que no conseguiria convenc-la a abreviar o prazo mencionado.
Depois do jantar, Rosemeire serviu trufas de sobremesa. Logo depois, os convidados comearam a se retirar.
Ao se despedir da anfitri, Jos Antnio encarou-a no fundo de seus olhos, segurou suas mos e disse:
- Acho que voc est to area quanto eu, porque a ficha vai demorar um tempo para cair, mas, quando ela cair, sentirei por voc o mesmo amor que sinto pela Beatriz. 
Saiba que estou muito feliz com tudo que descobri hoje e jamais esquecerei esta data.
Com lgrimas nos olhos, Rosemeire confessou:
- A sua presena foi o melhor presente de aniversrio que j recebi em toda minha vida. De fato, estou muito area, mas sei que vou am-lo como uma filha ama um 
pai. Fique tranquilo, porque, naquilo que depender de mim, muito em breve o senhor estar frente a frente com a mame.
Em seguida, abraaram-se carinhosamente. Depois, foi  vez de Beatriz abraar a irm recm-descoberta.
No trajeto para casa, Jos Antnio se manteve calado, pensando na idia que lhe veio  mente.
Denise, assim que chegou a casa, encontrou seu pai acordado, assistindo televiso. Ele pediu que ela se sentasse e contou sobre o encontro com Beatriz. Denise no 
ops qualquer resistncia  realizao do exame de DNA.
Imediatamente, Lenidas telefonou para Beatriz e marcaram de ir ao laboratrio no dia seguinte.
 


CAPTULO 
XXXIV
 

Durante toda a noite, com o pensamento fixo em Maria, Jos Antnio no conseguiu dormir. Os pssaros comearam a cantar e ele percebeu que o dia j estava amanhecendo. 
Jos Antnio levantou-se da cama, colocou algumas mudas de roupa na mala e saiu em direo do aeroporto de Confins.
Durante o trajeto, ficou imaginando a melhor forma de fazer a abordagem  ex-esposa. Sabia que a sua atitude era arriscada, mas no podia esperar o prazo sugerido 
por Rosemeire.
Assim que chegou ao aeroporto, Jos Antnio correu para o balco de informao.
- Por favor, a que horas sai o prximo vo para Porto Seguro?
- s dez horas - respondeu a simptica atendente. - O senhor pode dirigir-se ao balco daquela companhia area.
- Muitssimo obrigado.
Jos Antnio virou-se e saiu apressado na direo indicada. Para sua sorte, o vo no estava lotado.
Aps comprar a passagem, ele foi para a sala de embarque, onde ficou andando de um lado para o outro, esperando a hora de partir.
Quando, enfim, o servio de alto falante do aeroporto chamou os passageiros para se apresentarem no porto quatro, Jos Antnio usou da prerrogativa de embarcar 
antes dos demais, em face da sua idade.
- Que loucura estou fazendo! - disse ele em baixo tom.
Aps cumprimentar o comandante e os comissrios, ele caminhou para a sua poltrona, que ficava na janela, do lado direito do Boeing. Aqueles minutos que antecediam 
ao vo pareciam uma eternidade para ele.
Com dez minutos de atraso, o avio partiu rumo ao litoral sul da Bahia. Alguns trechos de forte turbulncia deixaram-no mais apreensivo ainda. Jos Antnio somente 
relaxou quando viu o mar se abrindo  sua frente. O cenrio de guas verdes, cristalinas, tocando a areia da praia junto s falsias, era ideal para um reencontro 
to aguardado por ele.
Quando sobrevoaram um pequeno povoado, o comandante anunciou que estavam sobre Carava. Pouco depois, ao passarem por uma praia cheia de coqueiros, com as guas 
ainda mais transparentes, o comandante anunciou que aquela era a praia do Espelho, uma das mais caras do Brasil, com condomnios luxuosos, onde magnatas do Rio e 
de So Paulo tinham suas casas de praia. Logo em seguida, o comandante voltou a chamar a ateno dos passageiros para a vila de Trancoso, com a famosa igrejinha 
do Quadrado. Nesse momento, Jos Antnio sentiu as batidas do corao ficarem mais fortes. Pouco depois, passaram por Arraial d'Ajuda e chegaram a Porto Seguro.
Assim que pegou sua mala, ele caminhou em direo aos txis que estavam estacionados  sua frente.
- Quanto est uma corrida para Trancoso, companheiro?
- Cento e cinquenta reais.
- Vamos fechar em cento e vinte reais?
- Negcio fechado. Vamos rpido, porque estou com pressa.
- Quanto tempo leva a viagem daqui a Trancoso?
- Entre cinquenta minutos e uma hora.  a primeira vez que o senhor vai l?
-  sim. Ouvi dizer que  um local muito bonito.
- Paradisaco - corrigiu o motorista.
A estrada cortava vrias fazendas enormes, sendo possvel observar o gado pastando e as plantaes de mamo e eucalipto.  medida que o txi se aproximava de Trancoso, 
Jos Antnio sentia a ansiedade aumentar. Assim que o motorista virou  esquerda em um trevo e as primeiras casas, surgiu  frente deles, Jos Antnio sentiu a ansiedade 
aumentar.
- Ponto final - disse o motorista, apontando para a cerca de tocos de madeira. - Ali comea o Quadrado.
Jos Antnio agradeceu, pagou ao motorista e saiu.
Quando entrou no Quadrado, viu uma iogurteria  sua direita e caminhou para l. A ansiedade aumentava em velocidade espantosa, fazendo com que ele, trmulo, suasse 
frio.
- A senhora poderia me informar onde fica a Pousada das Borboletas? - perguntou ele  balconista.
-  ali naquele beco - respondeu a moa. - O senhor caminhar uns vinte metros e ver o porto da pousada  sua direita.
- Obrigado, depois eu retorno para tomar um iogurte.
Jos Antnio deu alguns passos em direo  pousada e parou bem no meio do Quadrado. De repente, sentiu-se sem coragem para prosseguir, com medo de uma reao indesejada 
da mulher que mais amou em sua vida. Ali, ele permaneceu esttico por algum tempo, sem saber o que fazer. Olhou para a sua direita e viu uma pequena lojinha. Decidiu 
caminhar at l para comprar um bon e culos. Caso no tivesse coragem de falar a verdade para Maria, passaria por um mero turista, pois dificilmente ela o reconheceria.
Assim ele fez. Saiu da loja com bon e culos escuros. Daquele jeito, at sua filha teria dificuldade em reconhec-lo.
A distncia que separava a loja da pousada era apenas de poucos metros.  medida que caminhava, Jos Antnio ficava mais tenso e sentia a respirao ficar mais difcil. 
De repente, ele se viu em frente  pousada. Sobre o porto, uma linda placa de madeira, com o entalho de uma borboleta vermelha e amarela, seguida por outras trs 
menores e o nome: "Pousada O Pouso das Borboletas".
Jos Antnio fechou os olhos, suspirou fundo e adentrou o local. O terreno era grande, com uma rea gramada, onde havia uma piscina no centro.  sua esquerda, uma 
linda casa de dois andares;  sua direita estavam os cinco apartamentos para os hspedes, cada qual com sua varanda e rede;  sua frente, a rea onde era servido 
o caf da manh.
Exatamente ali, uma menina lavava os pratos e talheres. Assim que o viu, ela lhe perguntou:
- Posso ajud-lo?
- Pode, sim. Tem algum apartamento vago?
- Tem, sim. Aguarde um momento, que vou chamar a dona da pousada.
A moa saiu em direo a casa e Jos Antnio sentiu os lbios tremerem, indicando a vontade de chorar. Rapidamente, ele tirou os culos e enxugou uma lgrima que 
escorreu pela sua face.
Pouco depois, ouviu a voz da menina conversando com uma mulher. Ele estava de costas e ficou sem coragem para se virar, mas percebeu que estavam vindos em sua direo. 
Naquele momento, o seu batimento cardaco disparou.
- Bom dia, senhor, tudo bem? - perguntou  senhora assim que se aproximou dele.
Jos Antnio criou coragem e virou-se. Sentiu faltar-lhe o ar. Com esforo tremendo, respondeu:        
- Tudo bem.        
- O senhor deseja um quarto, certo? 
Jos Antnio fez um sinal de positivo com a cabea.
- O senhor deseja conhecer o quarto? 
Novamente, ele acenou com a cabea. Maria percebeu que havia algo de estranho com aquele hspede.
- Vamos l, acompanhe-me.
Maria seguiu na frente e no viu os lbios dele tremendo. Os culos escuros escondiam a lgrima que descia.
- Este  o nosso quarto - disse Maria, aps abrir a porta. - Temos ar-condicionado, frigobar e televiso. A cama  de casal e o colcho  muito confortvel. O banheiro 
 amplo e tem gua quente. O preo da diria em baixa temporada  sessenta reais.
- Tudo bem, eu vou ficar.
- O senhor pode deixar sua mala a e vir comigo para preencher uma ficha com os seus dados. Est pensando em ficar quantos dias?
- Talvez uns cinco dias.
Maria e Jos Antnio retornaram  rea onde o caf era servido. Anexo a ela, havia uma pequena sala de televiso, onde funcionava a recepo.
Maria entregou a ficha ao hspede e pegou um caderno de anotaes para relembrar os seus compromissos naquele dia.
Jos Antnio, assim que recebeu a ficha, ficou sem saber se escrevia os dados corretos. Certamente, Maria iria reconhec-lo assim que lesse a sua qualificao. Por 
outro lado, estava sem coragem para tocar no assunto que o havia levado a Trancoso. Com as mos trmulas, ele comeou a escrever o seu nome verdadeiro. Depois, preencheu 
os espaos destinados  data e local de nascimento, ocupao e residncia. Aps, deixou a caneta em cima do balco, sobre a ficha.
Displicentemente, Maria pegou a ficha e comeou a l-la. Pouco depois, a expresso tranquila sumiu e ela demonstrou o espanto que tomou conta de sua fisionomia ao 
olhar para Jos Antnio. Este, por sua vez, percebeu que ela havia descoberto a sua identidade. Com o corao quase saindo pela sua boca, ele levantou a mo direita 
e tirou o bon da cabea. Em seguida, tirou os culos escuros.
Ao ver diante de si o marido que julgava estar morto h mais de quarenta e oito anos, Maria sentiu a presso abaixar e desmaiou. Jos Antnio, com a agilidade de 
sua mocidade, antecipou-se  queda dela, segurando-a em seus braos.
- Socorro! - gritou ele. - Ajude-me, pelo amor de Deus!
Imediatamente, a moa que o recepcionou quando ele chegou  pousada veio correndo.
- O que aconteceu?
- Acho que ela teve uma forte emoo e acabou desmaiando. Onde podemos encontrar um mdico?
- Vamos coloc-la aqui no sof. Eu j vou telefonar para o doutor.
Com a ajuda da funcionria, Jos Antnio colocou Maria deitada no sof. Logo depois, a moa pegou um copo de gua, molhou a ponta dos dedos e comeou a dar leves 
tapas na face da patroa.
- Dona Maria, acorde. Por favor, volte.
- Chame logo o mdico - ordenou Jos Antnio.
Assustada, a moa levantou-se e caminhou em direo ao telefone, quando comeou a discar, viu a patroa se mexendo, levando a mo  testa.
- Ela est acordando - disse a funcionria, aliviada com a recuperao de Maria.
Jos Antnio estava junto  ex-mulher, rezando para ela recuperar-se completamente, pois, do contrrio, nunca se perdoaria, haja vista ter sido alertado por Rosemeire 
de que o corao de sua me no suportaria tamanha emoo.
Maria abriu os olhos e ficou olhando para Jos Antnio. Estava area, sem entender o que estava se passando.
- Quem  voc? Por que est fazendo esta brincadeira comigo?
- Isso no  uma brincadeira. Eu sou o seu Zez, lembra-se?
Maria voltou a fechar os olhos. Por um segundo, pensou que tivesse morrido, tendo encontrado o finado marido.
- Onde estou?
- Voc est na sua pousada.
Maria abriu os olhos novamente e olhou ao seu redor, vendo a funcionria Diana e todos os mveis que guarneciam a sala de televiso. Tornou a olhar para Jos Antnio. 
Indubitavelmente, era ele mesmo. Diante dela, o marido que no via h quarenta e oito anos. Apesar das marcas do tempo, poderia reconhec-lo em qualquer lugar do 
mundo.  
- O que est fazendo aqui? Voc est morto.
Jos Antnio balanou a cabea, fazendo gesto de negativo.
- Toque em mim e veja que estou vivo, em carne e osso. Maria seguiu a sugesto dele, apertando a sua mo.
- Apesar das rugas,  a mesma mo que tantos carinhos lhe fez - disse ele.
Maria comeou a entender o que estava se passando e os seus olhos encheram-se de lgrimas.
- Eu vim para lhe explicar tudo o que aconteceu.
- Por que voc demorou tanto? - perguntou ela, enquanto limpava as lgrimas que rolavam pela sua face.
- Esta  uma longa histria. Contratei um detetive particular para busc-la em Pedra Rosada, alguns meses aps eu sair fugido de l, mas voc tinha desaparecido. 
Ningum na cidade tinha qualquer informao a seu respeito. Por que voc no me disse que estava grvida?
Maria ficou ainda mais surpresa com aquela pergunta.
- Como voc descobriu que tenho uma filha com voc?        
- Eu a conheci ontem, no jantar de aniversrio dela. Por muito pouco, no nos encontramos na casa da Rosemeire.
Maria no estava entendendo nada. Como ele descobriu que Rosemeire era filha deles?
- Zez, por favor, explique-me o que est se passando. Como voc chegou at a Rosemeire? Como voc conseguiu se salvar daquele acidente? O que voc fez da sua vida?        
- Vamos ter uma longa conversa. Eu fiquei ensopado de suor, tamanha a preocupao quando voc desmaiou. Seria possvel tomar um banho primeiro?        
- Claro! Eu vou preparar um suco enquanto voc toma banho.     
Jos Antnio levantou-se e caminhou at seu quarto. Antes de entrar no banheiro o seu telefone celular tocou. Era Beatriz.        
- Filha, tudo bem com voc?        
- Onde o senhor est papai?
Jos Antnio ficou em dvida sobre qual resposta daria. Como estava a mil quilmetros de distncia, decidiu falar a verdade, pois a bronca pelo telefone era menos 
ruim do que pessoalmente.
- Eu estou em Trancoso, na pousada da Maria.
- Eu no acredito que o senhor fez isso! - disse Beatriz, enquanto levava as mos  cabea.
- Papai, o senhor est ficando velho e perdendo o juzo. O senhor no poderia ter agido sozinho. Ns havamos combinado que a Rosemeire daria um jeito de trazer 
a me dela aqui a Belo Horizonte. Ela j descobriu quem  o senhor?
- Acabou de descobrir.
- Qual foi  reao dela?
- Ficou um pouco assustada, mas j passou. No precisa se preocupar, pois est tudo bem. Eu preciso desligar, porque vou tomar um banho para ter uma longa conversa 
com ela.
- Espere papai...
Antes que acabasse de falar, Beatriz ouviu o sinal de telefone desligado, o que a deixou ainda mais irritada.
Jos Antnio desligou o celular e entrou no banho, satisfeito por ter superado a primeira etapa.
 

 
CAPTULO 
XXXV


Maria fez o suco de abacaxi e ficou aguardando Zez retornar do banho. Aqueles poucos minutos custaram a passar. Em sua mente, ela pensava na poca em que teve a 
certeza de que ele havia escapado do acidente. Durante alguns anos, ela carregou esta certeza consigo. Com o passar do tempo, mudou de idia, convencendo-se da morte 
do marido. Agora, a presena dele ali provou que a sua primeira intuio estava correta.
Pouco depois, Jos Antnio retornou para a sala de televiso. Estava usando calo, camiseta e sandlia. 
- Tome um pouco de suco.
- Eu aceito, muito obrigado.
Maria serviu-lhe um copo de suco. Suas mos ainda estavam trmulas.
- Como voc conseguiu escapar do acidente? Os jagunos se espalharam na beira do rio para no deixar voc fugir.
- Eu pulei da caminhonete alguns metros antes da ponte. Como foi em uma curva e o mato ao redor da estrada estava alto, ningum me viu pular. Logo depois, eu ouvi 
o barulho da caminhonete caindo no rio. Por isso, eles no me acharam.
- Voc teve muita sorte.
Jos Antnio estava em dvida se falava ou no o motivo que o levou a pular da carroceria da caminhonete. Aps breve reflexo, decidiu no omitir nada.
- No foi bem sorte. Eu ouvi o Slvio falar para eu pular da caminhonete.
- Como isso pode ter ocorrido, se o meu irmo estava morto? - perguntou Maria, com a expresso de quem no tinha acreditado naquela afirmao.
- Depois daquele dia, eu passei a ter certeza de que a vida continua aps a morte. Eu estou lhe dizendo: ouvi o Slvio falar para eu pular e foi somente este o motivo 
que me levou a pular da carroceria. Do contrrio, eu no teria escapado.
Apesar do longo tempo sem se verem, Maria conhecia bem o ex-mari do e sabia pela expresso de seu olhar, que ele estava falando a verdade.
- No meu corao, eu carregava a certeza de que voc estava vivo.
Noite aps noite, eu esperei voc vir me buscar, at que, certo dia, eu me convenci de que voc havia morrido.
Olhando nos olhos dela, ele falou:
- H quarenta e oito anos eu aguardo por este momento.
Maria deu um sorriso, demonstrando no acreditar nas suas palavras.
- Voc tornou a me procurar depois que o detetive no conseguiu me localizar?
Jos Antnio ficou pensativo.
- No. Eu fiz uma forte amizade com o Oscar, meu colega de trabalho em So Paulo. Certo dia, ns fomos demitidos e ele me convidou para passear na terra dele, que 
fica no norte do Paran. L, conheci a irm dele, Rosa, com a qual me casei.
Maria sentiu a face ficar corada de raiva quando o ouviu falar sobre o novo casamento, o que foi logo captado por Jos Antnio.
- Eu ainda amava voc quando me casei com ela, mas eu no tinha alternativa. O detetive me falou que o seu pai no estava totalmente convencido da minha morte e 
que pagava caro por qualquer informao a meu respeito, inclusive para quem achasse o meu cadver. Ele queria ter a certeza da minha morte. Por outro lado, o Fausto 
acabou sendo eleito prefeito e estava com muito prestgio junto ao governador, o qual deu ordem para que eu fosse localizado, vivo ou morto.
No havia a menor possibilidade de eu voltar a Minas. Por outro lado, voc havia desaparecido. O detetive falou que era perigoso continuar procurando por voc, pois 
poderia levantar suspeita maior de que eu estivesse vivo. Da, cheguei  concluso de que o melhor era eu ficar escondido na zona rural de Indianpolis, no Paran. 
Quando a Rosa se apaixonou por mim, eu vi que era a oportunidade para seguir a minha vida de uma forma segura, sem coloc-la em risco.
- Voc ainda est casado com ela?
- No. Ela morreu h um ano.
A resposta deixou Maria ainda mais enciumada, pois constatou que ele permaneceu casado por longo tempo. Por outro lado, sentiu-se aliviada por ele no estar comprometido, 
pelo menos era o que demonstrava  primeira vista.
- Vocs tiveram filhos?
- Tivemos duas filhas gmeas. Uma delas morreu de cncer, h vinte anos, e a outra ainda est viva.
- Eu ainda no estou entendendo como voc descobriu que a Rosemeire  nossa filha. Voc sequer sabia que tinha uma filha comigo.
- Esta  uma longa histria, mas vou tentar resumir. A minha filha Imelda saiu de casa brigada comigo, h vinte e trs anos, e foi morar em uma fazenda no sul de 
Minas, sem que eu soubesse onde ela estava. Acabou tendo um caso com o patro, que era casado, e ficou grvida. Como no tinha condies de criar a menina, deixou-a 
com o patro. Passado um tempo, ns fizemos as pazes, mas ela no me falou nada sobre a filha. Aps a morte da irm, que se chamava Beatriz, a Imelda decidiu homenage-la 
e mudou o seu nome para Beatriz. Depois, formou-se em medicina e veio morar em Belo Horizonte. A Denise cumpre a pena de prestao de servios no mesmo local em 
que a Beatriz trabalha. Foi ela que indicou a Beatriz para cuidar da doena da Rosemeire.
Maria ficou abismada com tamanha coincidncia.
- A Denise a que voc se refere  a namorada do meu neto Artur.
- Exatamente. A Rosemeire convidou a mim e a minha filha para o aniversrio dela, para que ns estreitssemos mais o relacionamento com a Denise. Foi l que eu vi 
uma fotografia nossa e descobri que a Rosemeire  nossa filha.
- Desculpe-me, mas ela  minha filha. Voc no  o pai dela, porque pai  quem cria.
Jos Antnio percebeu que a ex-mulher estava mais chateada do que ele imaginou que fosse ficar.
- Eu fiquei sem ningum - prosseguiu ela, em tom de desabafo. - No me casei novamente, e olha que propostas no faltaram. Alguns homens quiseram muito fazer o papel 
de pai da Rosemeire.
- Por que voc no se casou?
Com lgrimas nos olhos, Maria respondeu:        
- Eu no me casei porque nunca deixei de amar voc.
Jos Antnio sentiu uma energia diferente vibrar em seu interior, quando ouviu a confisso de Maria.
- Eu passei por muitos momentos marcantes, nos ltimos quarenta e oito anos, tendo vivido coisas boas e ruins, mas nunca me esqueci de voc. No posso reclamar da 
minha falecida esposa e seria falso se falasse que no a amei, mas quero que voc acredite que eu sempre sonhei com este momento e jamais deixei de acreditar que 
algum dia, em algum lugar, ns nos reencontraramos.
Por alguns segundos, ambos ficaram calados, apenas se olhando. O silncio foi interrompido por Maria.
- Durante um bom tempo, eu fiquei revoltada com a nossa separao. Eu no estava casada, porque no tinha a sua companhia, mas tambm no me considerava uma mulher 
viva, apesar de as pessoas dizerem que voc estava morto, pois s aceitaria este fato se visse o seu corpo. A incerteza sobre a sua morte corroa a minha alma. 
Vendo voc, agora, fico pensando em qual teria sido o propsito de Deus para nossas vidas ao permitir que tudo isso acontecesse.
Jos Antnio olhou para o cu, coberto por algumas nuvens, como se procurasse ver Deus.
- Certamente, Deus teve um propsito para nossas vidas, ao submeter-nos a uma prova to difcil quanto esta. Nada nesta vida acontece por acaso - completou Jos 
Antnio.
- Que erro ns cometemos para sermos afastados um do outro durante quarenta e oito anos? Veja bem, acho que tive uma atitude nobre ao fugir de Pedra Rosada para 
salvar a vida da Rosemeire. Caso tivesse ficado, teria sido forada por meu pai a me submeter a um aborto, mas pelo menos, o detetive que voc contratou teria a 
chance de me encontrar e ns no teramos nos separado.  isso que no entendo, pois sinto que fui punida, com a nossa separao, exatamente por praticar uma boa 
ao, que foi preservar uma vida, a vida da minha filha. Sou temente a Deus e sei que Ele  justo, mas, por algumas vezes, eu no entendo a Sua justia.
- Talvez os nossos erros tenham sua origem em vidas passadas. Certamente, voc no foi punida por fugir de Pedra Rosada para salvar a vida da nossa filha. Caso no 
tivesse agido assim, acredito que o preo que ns pagaramos seria maior, ainda que o detetive levasse voc para junto de mim.
Voc tem alguma dvida de que Deus nos guiou para este reencontro?
- No.
- Pois, ento, acho que o melhor  acreditarmos que Ele guiou os nossos passos durante todos esses anos, tendo feito o melhor para ns. Talvez o nosso reencontro 
permita-nos entender qual foi o propsito d'Ele para que tudo isso tenha ocorrido.
Maria balanou a cabea, concordando com aquelas ponderaes. Jos Antnio levantou-se da cadeira e deu dois passos para frente, ficando prximo a ela. Por alguns 
segundos, ficaram apenas se olhando. Desta feita, ele quebrou o silncio.
- Maria, d-me um abrao.
Maria sentiu as pernas ficarem pesada demais para se levantar. Jos Antnio estendeu as mos para ajud-la. Ela limpou uma lgrima e lhe deu as mos, sendo erguida 
por ele. Novamente se encararam, enquanto um desejo irresistvel tomava conta deles, levando-os ao abrao to aguardado.
Aps o longo e apertado abrao, eles se beijaram com a mesma paixo do ltimo beijo, como se nada tivesse acontecido nos quarenta e oito anos de separao. Os batimentos 
cardacos deles estavam acelerados e a respirao ofegante. A paixo demonstrada no escondeu certo nervosismo que ambos estavam sentindo.
Aps o beijo, Jos Antnio levou a mo ao bolso e pegou um pequeno porta-jias, entregando-o para Maria.        
- O que tem aqui dentro?
- Abra e veja.
Cuidadosamente, Maria abriu o porta-jias. Para sua surpresa, ali estava  aliana do casamento deles.
- Voc guardou a aliana!
Jos Antnio deu um leve sorriso. A alegria estampada na face de Maria deixou-o ainda mais emocionado.
- Venha at minha casa, eu tambm tenho uma surpresa para voc.
Maria segurou a mo de Jos Antnio e eles caminharam at a casa, que ficava no fundo do lote, atrs da piscina. Subiram as escadas de madeira e chegaram ao andar 
superior, onde havia uma sala, um banheiro, dois quartos e uma suite, com uma linda banheira e uma varanda com rede, de onde se tinha uma bela vista da praia. Ela 
abriu a porta do armrio do seu quarto, depois a gaveta e pegou um objeto que Jos Antnio no conseguiu identificar. Voltando-se para ele, disse:
- Eu tambm guardei a minha aliana.
Jos Antnio pegou a aliana e beijou-a, colocando-a na mo esquerda dela.
Maria, por sua vez, pegou a aliana das mos de Jos Antnio e repetiu o gesto dele. Depois, apontando para o imenso cmodo da casa, ela falou:
- Zez, se for da sua vontade, o seu lugar ser aqui.
O convite de Maria levou Jos Antnio a uma emoo profunda. Ele tentou responder, mas sentiu um n na garganta. Em seguida, as lgrimas rolaram, seus lbios comearam 
a tremer de tal forma que ele apenas respondeu:
- O meu desejo  ficar com voc para o resto das nossas vidas.
- Ento, vamos l embaixo pegar os seus pertences - disse Maria. Deram novo abrao e tornaram a se beijar, como dois adolescentes descobrindo a magia do amor.
Em seguida, desceram de mos dadas para buscar a mala de Jos Antnio.
Aquela tarde parecia ainda mais especial que as outras, pois, alm de ensolarada e colorida, como de costume em Trancoso, at os pssaros e as borboletas pareciam 
felizes com aquele reencontro. Sabis, bem-te-vis e uma infinidade de outros pssaros cantavam na maior altura que podiam, beija-flores voavam de uma flor para outra, 
como se estivessem extasiados de alegria, e as borboletas, das quais Maria tanto gostava, vieram em grande nmero, colorindo os jardins ao redor da piscina.
 

CAPTULO 
XXXVI


At ento, apenas Beatriz estava sabendo da proeza de seu pai. Os demais no desconfiavam do que estava se passando em Trancoso. Estavam todos impressionados com 
o que viram e ouviram durante o jantar comemorativo do aniversrio de Rosemeire e mal conseguiram dormir durante a noite.
No incio da tarde, Denise e Lenidas foram ao laboratrio para realizar o exame de DNA. O resultado ficaria pronto em dez dias.
Quando Denise chegou  sua casa, telefonou para Artur. Somente naquele momento ela se deu conta do parentesco com o namorado.
- Est recuperado das emoes de ontem?
- Ainda no. Estou encabulado, com vontade de encontrar o av que descobri para saber mais da vida dele. Tudo que eu soube, at ento, foi atravs da minha me. 
Os fatos que ele vivenciou so impressionantes.
- Acho que voc no percebeu uma coisa.
- O que foi? - perguntou Artur.
- Voc  sobrinho da Beatriz.
- Eu sei disso. Ela  irm da minha me.
- Artur, voc no percebeu que ns somos primos?
A pergunta da namorada deixou Artur boquiaberto. Ele no havia atentado para o fato de que Imelda era irm de sua me, por parte de pai.
-  verdade. Eu no havia pensado nisso. Voc v algum problema?
- Claro que no! Eu conheo vrios primos que se casaram. Alm do mais, as nossas mes so irms apenas por parte de pai. Estou comeando a achar engraado tudo 
o que est acontecendo.
- Nunca vi, nem ouvi falar de tantas coincidncias na vida de uma pessoa - tornou Artur.
- Quer ver outra coincidncia? - perguntou Denise. - Voc acredita que o doutor Rafael estava procurando indicao de um arquitelo para comear a construir a casa 
dele? Ele combinou de jantar com a Renata. Voc percebeu a forma como ele a tratou?
- Voc est brincando ou est falando srio?
- Estou falando srio. Eles vo sair para jantar e conversar sobre a construo da casa. Do jeito que as coisas esto indo, no vou ficar espantada se ela fizer 
o projeto da prpria casa.
- Isso  profecia - tornou Artur.
- Profecias existem. Quer ver uma incrvel? O escritor Morgan Robertson, autor do livro Vaidade, escrito em 1898, narrou o afundamento de um luxuoso transatlntico, 
chamado Tit. Quatorze anos depois, ocorreu o naufrgio do Titanic. O autor descreveu o nmero de tripulantes, passageiros e botes salva-vidas, alm do ms da tragdia, 
tonelagem do navio e velocidade do impacto com o iceberg.
- J que voc profetizou que a Renata ir se casar com o doutor Rafael, o que acha de profetizar algum fato para as nossas vidas?
Denise pensou, pensou e respondeu: 
- Ns tambm iremos nos casar.
- Isso eu j sei. Faa outra profecia - desafiou Artur.
- Iremos ter um casal de gmeos.
- Gostei da profecia. Poderemos colocar os nomes de Francisco e Clara, tal qual no filme Irmo Sol, Irm Lua, que narra s vidas de Francisco e Clara de Assis.
- Estamos combinados - emendou Denise. - Se tivermos um filho e uma filha, colocaremos os nomes de Francisco e Clara.
Aps desligarem o telefone, ambos comearam a pensar na brincadeira que fizeram. Apesar do pouco tempo de namoro, a afinidade entre eles aumentava a cada dia, tal 
como a atrao. A continuar naquele ritmo em breve estariam conversando seriamente sobre casamento. Antes disso, precisavam encontrar trabalho. Denise decidiu que 
j havia descansado o suficiente aps a formatura. Portanto, comearia a procurar emprego.
Durante o almoo, Denise comentou com Renata sobre a conversa com Artur e recebeu o apoio da irm para levar adiante a idia do casamento. Renata, por sua vez, estava 
entusiasmada com o jantar de logo mais. A imagem de Rafael no lhe saa da mente, pois ela percebeu o jeito galanteador com que ele a tratou. Ansiosa para as horas 
passarem rapidamente, ela almoou apenas um pouco, to somente para no ficar com o estmago vazio.
Depois do almoo, Renata foi ao salo. Queria estar impecvel para o encontro. Quando retornou, experimentou algumas roupas, mas no chegou  concluso sobre qual 
delas usaria. A deciso veio somente quando Denise voltou do banco. Seguindo palpite da irm, Renata separou uma bata vinho, na altura do joelho, e uma bota de cano 
longo, feita de couro cru.
Em seu consultrio, Rafael estava na mesma expectativa. Entre uma consulta e outra, seus pensamentos iam ao encontro de Renata. Na noite anterior, ele saiu da casa 
de Rosemeire com a sensao de ter sido correspondido em seu sentimento. Aps um perodo de aridez afetiva, enfim ele voltava a ficar verdadeiramente interessado 
por uma mulher.
Quando retornou para casa, ele comeou a pensar em qual restaurante poderia lev-la. Aps selecionar mentalmente cinco restaurantes, ele decidiu ir a um restaurante 
de comida francesa, por consider-lo mais romntico do que os outros. No horrio combinado, Rafael chegou  casa de Renata. Quando ela surgiu na portaria, ainda 
mais bonita do que das outras vezes em que se viram, ele sentiu o corao disparar.
Cumprimentaram-se com um beijo na face. Apesar da ansiedade, ambos estavam confiantes em que aquela noite seria marcante. At a temperatura amena estava contribuindo. 
No caminho, conversaram sobre os cantores de que mais gostavam. Em menos de dez minutos, chegaram ao restaurante. Coube a Renata iniciar o assunto que os levou ali.
- Como  o tipo de casa que voc pretende construir?
- Uma casa para uma famlia de quatro ou cinco pessoas. Quero me casar e ter filhos.
Renata ficou com a face corada. Ela no sabia se a resposta havia sido uma indireta. Para seu alvio o garom aproximou-se trazendo o cardpio. Como entradas decidiram 
pedir carpaccio de carne. Assim que o garom saiu, Renata retomou o assunto:
- Onde fica o seu lote?
- Em um condomnio, localizado em Nova Lima.
- O lote  muito inclinado?        
- No tanto. Acho que dar para fazer uma linda conspio.
- Quantos metros?
- Novecentos metros quadrados.
Antes que Renata fizesse nova pergunta, foi surpreendida pela presena de Adriano.
- Voc vai pagar muito caro pelo que est fazendo. Eu no vou perdo-la jamais. Voc no sabe do que sou capaz.
Rafael levantou-se e ficou entre os dois, a fim de defender a sua acompanhante de uma eventual agresso.
Renata ficou em pnico, com medo do escndalo que se desenhava. Com a voz trmula, dirigiu-se ao ex-namorado.
- Eu no tenho mais nada com voc. Alm disso, estou aqui a trabalho. Ele vai construir uma casa e estamos discutindo o projeto. Apenas isso.
- Voc est de caso com ele. Eu sei muito bem o tipinho de mulher que voc .
Em seguida, Adriano fez meno de partir para cima de Renata, mas foi contido pelo segurana do restaurante. Logo, um garom aproximou-se para ajudar o segurana 
a retir-lo do recinto.
Adriano tentou se desvencilhar dos dois, chegando, inclusive, a dar uma mordida no brao do segurana.
Renata tremia como vara verde. A cena histrica proporcionada por Adriano serviu para reforar nela a convico de que havia tomado a deciso correta ao terminar 
o namoro. Ao tentar beber um gole de gua, deixou a bebida entornar em sua bata.
Rafael, percebendo o estado emocional alterado dela, segurou carinhosamente a sua mo e procurou confort-la.
- Fique calma. Ele j se foi. Est tudo bem.
Naquele momento, por um instante, Renata temeu que o escndalo feito por Adriano pudesse interferir em um eventual interesse de Rafael por ela.
- Desculpe-me, Rafael. Eu terminei o namoro com o Adriano recentemente, mas ele no aceitou a minha deciso.
- De fato, perder uma namorada atraente como voc mexe com a cabea de um homem. Vocs namoraram muito tempo?
Renata voltou a sentir a face corar. Aps um tmido sorriso, ela respondeu:
- Pouco mais de dois anos. A insegurana e o cime dele minaram o amor que eu sentia. Cansei de ser acusada por algo que no havia feito. Para voc ter uma idia, 
eu e o Artur apenas trabalhvamos na mesma construtora, mas o Adriano achava que eu dava em cima dele.
Renata, aos poucos, tranquilizou-se. Tomou um gole de gua, j no tremia tanto. A presena de Rafael trazia-lhe segurana, uma segurana que ela nunca sentiu durante 
o perodo de namoro com Adriano.
- Ele disse que faria terapia, mas pelo visto no procurou nenhum terapeuta.
- A vida se incumbir de dar alguns ensinamentos a ele. Agora, vamos voltar ao projeto da casa. Quero saber quanto custa o seu trabalho.
Renata ficou em dvida sobre o preo que cobraria. No queria perder o servio por causa de dinheiro, mesmo porque ela se sentiu atrada pelo mdico. Aps refletir 
por alguns segundos, deu a resposta:
- Eu no tenho condies de falar sobre o preo agora. Vou lhe passar umas revistas de arquitetura para voc analisar diferentes estilos de construo. Quero que 
separe aquelas de que mais gostar e que me diga tudo quilo que voc faz questo que tenha na casa. Alm disso, preciso verificar o seu terreno para saber o que 
pode ser feito em termos de construo. A partir da, comearei a elaborar o projeto. Para que voc tenha uma idia, o preo do meu servio deve girar em torno de 
vinte e cinco mil reais. Talvez, um pouco mais ou um pouco menos. Posso facilitar o pagamento da forma que ficar melhor para voc.
Rafael sentiu nas palavras de Renata o desejo de pegar o servio. O olhar dela transmitia uma carncia que ele desejava suprir. Ele percebeu, ainda, que havia certo 
interesse dela em conhec-lo melhor. Ficou feliz ao sentir o corao bater mais forte.
- O preo est bom. Quero lev-la ao lote o mais rpido possvel. No vejo a hora de comear a construir.
- Tudo bem. Voc j tem engenheiro?
- Ainda, no - respondeu Rafael.
- O Artur  um excelente engenheiro. Como disse, trabalhamos juntos em uma construtora e pude verificar o quanto ele  competente.
- timo. Vou conversar com ele tambm. Como vocs j tm entrosamento, ser muito bom se ele for o engenheiro responsvel pela obra.
Rafael e Renata conversaram sobre mais alguns detalhes da construo e depois jantaram. Quando saram do restaurante, ele teve o cuidado de olhar para os lados, 
a fim de no ser surpreendido por um ataque repentino de Adriano.        
Gentilmente, abriu a porta do carro para ela entrar. Durante o trajeto, pouco conversaram. Renata estava com receio de que Adriano estivesse esperando por ela em 
frente  portaria de seu prdio, como aconteceu na noite em que foi  delegacia com Artur.
Assim que chegaram, ela quis despedir-se rapidamente de Rafael, evitando um provvel ataque de cimes de Adriano.
- Calma! No precisa ter pressa.
- Estou com medo de que o Adriano aparea - justificou-se ela, olhando para os lados.
Rafael segurou a mo de Renata, acariciando-a, momento em que percebeu que estava fria e um pouco trmula. Ela sentiu o corao disparar e abaixou a cabea, demonstrando 
timidez. Rafael abraou-a e falou baixinho:
- Desculpe-me, mas j tem certo tempo que eu no conheo uma mulher to interessante.
Quando os seus olhares se cruzaram, Rafael no resistiu ao desejo, beijando-a. Em princpio, Renata achou estranho beijar outro homem que no fosse Adriano, fato 
que nunca aconteceu no perodo de namoro. Em um segundo momento, ela gostou do beijo de Rafael, entregando-se em seus braos.
- Estou achando estranho. Est tudo acontecendo muito rpido. Tem pouco tempo que eu terminei o namoro. Pensei que no ficaria a fim de outro homem to cedo. De 
repente, ns nos conhecemos e eu me senti atrada por voc. No esperava por isso.
- Quando voc disse que era arquiteta, eu tive certeza de que era um sinal.
Renata abraou Rafael e acariciou seus cabelos. Trocaram mais alguns beijos antes de se despedir.
- Estou adorando ficar aqui com voc, mas  perigoso. Eu vou subir. O jantar estava timo. Farei o melhor para que voc goste do meu trabalho.
- Tenho certeza de que vou gostar, assim como estou gostando de voc.
Antes de Renata sair do carro, eles deram mais um longo beijo. Desta vez, Adriano no estava  espreita.
Assim que abriu a porta do apartamento, Renata comeou a separar as revistas de arquitetura para mostrar a Rafael. Denise aproximou-se para saber como havia sido 
o encontro e pulou de alegria quando Renata contou que havia indicado Artur para ser o engenheiro da obra. Imediatamente, telefonou para ele, contando a boa nova.
- Artur tem uma tima notcia para voc.
- Ento, fale logo; fiquei curioso.
- A Renata foi contratada pelo doutor Rafael para fazer o projeto arquitetnico da casa dele e indicou voc para ser o engenheiro.
A notcia deixou Artur extasiado de alegria, pois sentia como estava difcil conseguir emprego.
Pouco depois, o telefone tocou novamente e Rosemeire atendeu a chamada. Ficou ansiosa quando ouviu a voz de sua me, pois no sabia como fazer para lhe falar sobre 
seu pai.
- Minha filha, eu estou no Quadrado observando as estrelas, mas estou sentindo falta de uma delas.
- Como assim, mame? A senhora conta o nmero de estrelas?
- Somente as mais bonitas. Estou dando falta da mais bonita de todas, exatamente aquela que eu imaginava ser o seu pai.
Rosemeire pensou que sua me poderia estar sabendo de tudo.
- O que a senhora quer dizer com isso?
- Voc sabe minha filha, voc sabe. Um momentinho s... Rosemeire percebeu pelo tom de voz de sua me que ela estava sentindo uma felicidade incomum.
- Desculpe-me, Rosemeire, mas eu no tive como cumprir o trato que fizemos. Eu no poderia esperar mais um dia sequer para encontrar o grande amor da minha vida. 
Por favor, espero que compreenda a minha situao e no se aborrea comigo.
Rosemeire ficou abobada com o que acabara de ouvir. Ento, sua me no apenas estava sabendo de tudo, como tambm estava ao lado de seu pai.
- O senhor foi para Trancoso?
- Eu no pude evitar, o desejo do meu corao falou mais alto.
- Como a mame recebeu a notcia? Eu estava preocupadssima com a reao dela.
- Ela levou um susto muito grande, mas j passou e agora estamos muito felizes. Depois desse tempo todo, tudo o que queremos e ficar juntos e curtirmos um ao outro. 
Amanh, ns iremos para Belo Horizonte, porque tambm queremos reunir toda a famlia para celebrar este reencontro.
Aps desligar o telefone, Rosemeire contou a boa nova para o marido e o filho.
Enquanto isso, em Trancoso, Maria e Jos Antnio passeavam de mos dadas pelo Quadrado, fato este que chamou a ateno dos demais moradores da vila, pois Maria era 
muito popular e h muito tempo ningum ali a via namorando. A todos que paravam para cumpriment-la ela fazia questo de apresentar Jos Antnio, explicando, resumidamente, 
que aquele era seu ex-marido, pai de Rosemeire. A reao dos moradores era unnime, demonstrando espanto com a srie de coincidncias que possibilitaram aquele reencontro.
Depois de caminharem por alguns minutos, decidiram jantar. Maria indicou o restaurante Victria, que ficava no incio do Quadrado. As mesas ficavam embaixo de um 
imenso p de jaca. Como no havia luz eltrica no local, o jantar era servido  luz de velas. Difcil encontrar lugar mais romntico para jantarem juntos pela primeira 
vez, aps tanto tempo de separao.
Seguindo sugesto de Maria, decidiram pedir bob de camaro. Enquanto o prato era preparado, pediram suco de gravida. Era o primeiro brinde que fariam aps o reencontro.
- Ao nosso reencontro - disse Maria, levantando o copo.
- Ao nosso reencontro,  nossa filha e ao nosso amor, sobretudo ao nosso amor, porque venceu todos os obstculos, mostrando ser mais forte do que a dor e o sofrimento 
causados pela separao involuntria.
Ao olhar para o alto, Jos Antnio viu vrias jacas enormes sobre a sua cabea.
- No tem perigo das jacas carem nas cabeas dos clientes?
- Nunca aconteceu. Todas as semanas uma pessoa passa recolhendo aquelas que j esto maduras.
O bob no demorou a ser servido. Para alegria de Maria, Jos Antnio adorou a comida.
Pouco depois, retornaram para a pousada. Assim que Maria abriu a porta de seu quarto, viu um pequeno inseto, uma esperana, na janela.
- Olha Zez!  uma esperana que veio nos abenoar!
- Esperana?
- Sim. Sempre que aparece uma esperana para algum significa que a pessoa ter boas chances de ser bem sucedida no seu projeto de vida mais imediato. Tudo est 
conspirando ao nosso favor.
- Meu amor, depois de tudo que passamos, ns merecemos est bno - disse Jos Antnio, tomando-a em seus braos.
Maria deixou-se envolver pelos braos do seu grande amor. Enfim,  noite to sonhada por ela havia se tornado realidade. Testemunhando aquele momento, as estrelas 
e a brisa do mar que entrava pela varanda do quarto.
Abraados, eles adormeceram observados pela esperana.
 

 
CAPTULO 
XXXVII


No dia seguinte, por volta das nove horas da manh, Rosemeire pegou um txi em direo  clnica onde Beatriz trabalhava para realizar a primeira sesso de quimioterapia. 
Artur no acompanhou a me, tendo ficado em casa para recepcionar os avs que chegariam de Trancoso.
Os recentes fatos ocorridos em sua vida deram nimo novo a Rosemeire para fazer o tratamento e vencer o cncer. Durante o trajeto para a clnica, pensou no tanto 
que a sua vida mudou no ltimo ano. Primeiro, a separao do marido, ocasionando uma depresso profunda, que culminou com a descoberta do cncer; depois, em um espao 
curtssimo de tempo, a reconciliao com Alexandre e o aparecimento do pai, que ela julgava ter morrido antes mesmo do seu nascimento. Junto a isso, a descoberta 
de uma irm viva e outra morta, sendo aquela a me biolgica da namorada de seu filho. Diante de todos esses fatos, Rosemeire concluiu que, de fato, o mundo dava 
muitas voltas, assim como a vida das pessoas.
Logo que chegou  clnica, foi atendida por Beatriz.
- Ol, Rosemeire, como passou estes ltimos dois dias?
- Feliz, por tantas bnos recebidas em to pouco tempo. No paro de pensar em todas estas coincidncias. E com voc, est tudo bem?
- Graas a Deus, apesar de estar um pouco chateada com o papai por ele ter descumprido o trato que fez com voc. Ele no poderia ter ido a Trancoso sem nos avisar. 
Ele no me falou nada e, quando eu descobri, ele j estava com a sua me. Peo-lhe desculpas pela conduta dele.
- Voc no tem que me pedir desculpas, afinal ele  meu pai tambm. No fiquei chateada, eu compreendo a situao dele. Acho que eu poderia esperar esse tipo de 
comportamento, pois a mame sempre me falou que, quando ele queria uma coisa, no tinha nada que o fizesse mudar de ideia, ele sempre ia atrs daquilo que queria 
e agia da forma dele, ignorando o conselho dos outros.
- Ele  exatamente desse jeito - concordou Beatriz. - A mame sempre reclamava dessa forma de ser dele. Que Deus a tenha! Pelo corao bondoso que ela tinha, acredito 
que, onde ela estiver, est feliz por ver a felicidade do papai. Ele ficou muito abatido depois da morte dela.
- E voc? J conseguiu superar essa perda?
- Aos poucos eu vou reconstruindo a minha vida. Ainda sinto muita falta dela, mas estou mais conformada, sobretudo agora que reencontrei a nica filha que tive e 
descobri que tenho uma irm.
- Eu tambm estou muito feliz por saber da sua existncia. Tenho certeza de que nos daremos muito bem.
Beatriz sorriu e acenou positivamente com a cabea, concordando com a previso de Rosemeire.
- Voc est preparada para comear o tratamento?
- Estou sim. Quero ficar curada o mais rpido possvel.
- Pois bem, a sesso de quimioterapia dura em torno de duas horas. O coquetel de drogas  administrado por via endovenosa e, como j lhe adiantei, voc pode ter 
nuseas e outros desconfortos durante e aps a aplicao do medicamento; por isso, concomitantemente ao tratamento, ns iremos cuidar para que as reaes adversas 
 medicao sejam minimizadas. Podemos comear?
- Vamos l.
O tratamento teve incio e Rosemeire sentia fortes nuseas  medida que o medicamento era aplicado. O mal-estar, entretanto, no era suficiente para abalar a paz 
que ela comeou a resgatar a partir do momento em que deixou a mgoa sentida pelo marido esvair-se de seu corao.
Enquanto Rosemeire submetia-se ao tratamento, Jos Antnio e Maria chegavam ao apartamento dela, sendo recepcionados por Artur, o qual jamais havia visto a av com 
a fisionomia demonstrando tanta felicidade.
- Vamos entrar. A mame est na clnica fazendo a quimioterapia.
- Como ela est? - indagou Maria.
- Em toda a minha vida, nunca vi minha me to feliz. Agora, a senhora  que est com a felicidade estampada na face. Parabns, vocs merecem o que esto vivendo.        
Voltando-se para Jos Antnio, Artur perguntou:        
- Posso lhe chamar de vov?
- Claro, meu filho! Eu sou o seu av e sempre sonhei em ter um neto como voc. Alis, sempre sonhei em ter netos como voc e a Denise. Por favor, telefone para ela 
e diga para no marcar compromisso. Eu e Maria queremos reunir toda a famlia ainda hoje. Queremos curtir a presena de todos at o prximo final de semana, quando 
faremos uma viagem.
- Vocs nem chegaram e j querem viajar novamente? Com todo respeito, eu nunca vi tamanha disposio em duas pessoas com a idade de vocs.
-  o amor - tornou Jos Antnio. - Voc conhece Pedra Rosada?
- No. Quando eu era mais novo, tinha vontade de conhecer, mas, com o tempo, essa vontade passou. O senhor ainda tem parentes por l?
- No. A minha famlia era pequenssima. Eu sou filho nico. Mame morreu logo aps o parto e o papai faleceu quando eu ainda morava em Pedra Rosada. As famlias 
deles eram de Gois, mas nunca mantivemos contato, mesmo porque fui criado no patronato da cidade. At antes de ontem, a minha famlia resumia-se a mim e a Beatriz. 
Agora, descobri que tenho dois netos, outra filha e um genro. Iremos a Pedra Rosada por outro motivo.
- Qual motivo?
Jos Antnio fixou o olhar em Artur, mas os seus pensamentos voltaram no tempo. Aps alguns instantes, respondeu:
- Eu gostava muito da Conceio, esposa do Slvio. Quando ocorreu o incidente, eles tinham uma filhinha, a Letcia, que tinha apenas dois anos de idade. Imagino 
a dor que eles sentiram com a morte do Slvio. Eu no tive oportunidade de explicar o ocorrido, muito menos de pedir desculpas pelo transtorno que causei  vida 
delas.
- O senhor no teve culpa.
Jos Antnio deu um sorriso amargo, balanou a cabea e respondeu:
- Eu tive culpa pela morte do Slvio, apesar de no ter tido a inteno de mat-lo. Eu no deveria estar armado naquele bar. Um homem fica muito valente com uma 
arma na mo e costuma fazer besteira.
Percebendo que o marido ficou abatido com a lembrana da morte de Slvio, Maria cuidou de mudar de assunto.
- Quem sabe voc se anima a viajar conosco? Chame a Denise. Ser um prazer enorme ter a companhia de vocs nesta viagem.
Artur no esperava o convite da av e ficou pensativo, mas gostou da idia.
- Estou procurando emprego e no posso me ausentar de Belo Horizonte por muito tempo, mas, acho que no haver problema se eu ficar fora apenas o final de semana. 
Eu vou telefonar agora para
Denise; caso ela aceite, ns iremos com vocs. Por algum motivo desconhecido, penso que todas as pessoas deveriam conhecer as origens de suas famlias.
Jos Antnio e Maria ficaram animados com a possibilidade de ter a companhia dos dois na viagem.
Em seguida, Artur telefonou para Denise. Ela no pensou duas vezes para aceitar o convite.
- Ser a primeira de muitas viagens que faremos juntos - profetizou Denise. - Por ser a primeira, jamais esqueceremos.  justo que comecemos as nossas viagens por 
Pedra Rosada, afinal, foi l que tudo comeou. Depois, quero ir  Venda do Bispo, em Indianpolis, no Paran, para conhecer a terra de Beatriz. Voc vai comigo?
- Claro, meu amor! Vamos conhecer a terra da sua me biolgica, o lugar que acolheu o nosso av depois que ele foi obrigado a fugir de Minas.
Jos Antnio e Maria vibraram com a confirmao dos dois novos companheiros de viagem. Ele, sobretudo, queria desfrutar ao mximo da presena dos netos, especialmente 
por t-los conhecido recentemente.
Pouco depois, Rosemeire chegou, com a aparncia um pouco abatida em funo da quimioterapia, mas logo seu humor melhorou, ao ver a alegria da sua me ao lado do 
grande amor da sua vida.
 noite, Denise e Beatriz foram  casa de Rosemeire para a reunio de famlia pedida por Jos Antnio e Maria. At ento, Jos Antnio no tinha se encontrado com 
Beatriz, com receio que estava de ouvir o sermo dela pela sua desobedincia em ir a Trancoso.
Quando viu o seu pai, Beatriz lanou um olhar de reprovao pela sua atitude, mas logo depois o beijou, felicitando-o pelo reeu contro com a ex-esposa.
Logo que todos se sentaram, Jos Antnio pediu a palavra para explicar a razo pela qual havia pedido a reunio. Antes de comear a falar, concentrou-se para segurar 
a emoo, a fim de evitar as lgrimas.
- Acho que todos j imaginam o motivo de estarmos reunidos. Eu e Maria quisemos falar pessoalmente para vocs que decidimos viver juntos novamente. Por um motivo 
desconhecido, fomos separados um do outro na nossa juventude e seguimos cada qual o seu caminho. Eu fui muito feliz na companhia da saudosa Rosa e ela tambm teve 
seus bons momentos com alguns pretendentes, mas, uma vez solteiros, quis a bondade e misericrdia de Deus que nos unssemos novamente, e aqui estamos. Eu sempre 
quis morar em uma cidade litornea. Agora, vou realizar o meu desejo, de forma esplendorosa. Moraremos em Trancoso e ser um prazer imenso receber vocs em nossa 
casa.
Uma salva de palmas interrompeu o discurso de Jos Antnio. Percebendo a emoo de seu pai, Beatriz mudou de assunto. Pouco depois, comearam a falar sobre a viagem 
para Pedra Rosada.
Rosemeire serviu o lanche e todos permaneceram conversando por mais algum tempo.
Em determinado momento, Artur sentou-se ao lado de seu av para acertar detalhes da viagem.
- Vov Zez, o que o senhor acha da idia de irmos de carro para Pedra Rosada? A viagem de trem levar nove horas, enquanto de carro, pelos meus clculos, ns gastaremos 
em torno de seis horas. Ser muito desgastante para o senhor e a vov fazerem esta viagem de trem.
- Ah, meu neto, eu quero tanto fazer esta viagem de trem...
- Vov, pense melhor na minha sugesto, pois, alm da viagem de carro ser menos cansativa do que a de trem, ns poderemos parar onde desejarmos e teremos o carro 
 disposio para passearmos em Pedra Rosada. Alm do mais, o senhor precisa conhecer uma lanchonete,  beira da estrada, em So Gonalo. Caso o senhor aceite ir 
de carro, ns sairemos cedinho e tomaremos o caf da manh l. O senhor ir comer a melhor empada, o melhor po de queijo e o melhor pastelzinho portugus da sua 
vida, eu prometo.
Percebendo a vontade do neto em fazer a viagem de carro, Jos Antnio cedeu aos seus argumentos.
Beatriz, que ouvia atentamente a conversa, ficou admirada com a facilidade com que Artur convenceu o pai dela, tido como teimoso por todos. Ela via a mudana de 
temperamento do pai, sempre acostumado a dar a ltima palavra, como um dos primeiros sintomas da doura e flexibilidade de que o ser humano  tomado ao tornar-se 
av ou av. Provavelmente, aquele seria o primeiro sinal de vrias mudanas que aquela convivncia promoveria.
 

 
CAPTULO 
XXXVIII  

   
No transcorrer da semana, dia aps dia, aumentou em Artur a convico de que Denise era a mulher de sua vida. Apesar do pouco tempo de namoro, tudo que havia acontecido 
entre eles e entre as pessoas que os cercavam levava-o  certeza de que o amor que sentia por ela e o que ela sentia por ele era o suficiente para se casarem. Diante 
da convico que sentia em seu ntimo, Artur no estava disposto a esperar para fazer o pedido de casamento. Essa idia no saa de sua mente, at mesmo quando estava 
deitado preparando-se para dormir. Apesar disso, cuidou para que Denise no suspeitasse de nada. Ela, Lenidas e Beatriz estavam ansiosos com o resultado do exame, 
que ficaria pronto na sexta-feira, no final da tarde. A ansiedade maior era de Beatriz, pois no estava convicta de que Denise e Lenidas acreditaram cem por cento 
em sua afirmao de que ele era o pai. Beatriz no via a hora de exibir o resultado do exame para Lenidas.
Na quinta-feira cedo, Artur telefonou para Denise e convidou-a para sair.
- Estou com muitas saudades. Nem parece que nos encontramos ontem. Vamos dar uma volta?
Denise estranhou o convite do namorado. Afinal, nos dias de semana eles sempre se encontravam apenas  noite.
- Fico feliz que sinta saudades de mim, porque eu sinto muita saudade sua tambm. Mas,  a primeira vez que voc me chama para sair de manh. Aconteceu alguma coisa?
Artur sentiu o corao disparar, pois no sabia o que responder.
- Est tudo bem. S estou com muitas saudades - despistou.
- A que horas voc passa aqui?
- Em trinta minutos.
Aps desligar o telefone Artur percebeu que suas mos estavam molhadas de suor. Estava decidido a fazer o pedido de casamento, mas tinha receio de que Denise o julgasse 
precipitado. No tinha idia tambm de onde lev-la para conversar, j que no havia bar ou restaurante aberto s dez horas da manh.
Enquanto se aprontava Denise sentiu um arrepio correr-lhe por todo corpo. Suspeitava que Artur tivesse algo importante a lhe falar, mas no fazia idia do que era. 
No horrio marcado ele a pegou.
- Que bom ver voc logo cedinho! Voc est lindo.
Artur tinha a respirao ofegante. Ao olhar para ela, pensou em desistir de tocar no assunto, com medo de que a resposta fosse negativa.
- Voc tambm est linda, como sempre.
- Aonde vamos? - perguntou ela.
- Vamos dar uma volta de carro, sem rumo. Tudo bem?
Ela sorriu e acenou positivamente com a cabea. Artur arrancou o carro, sem saber para onde ir e se teria coragem para tocar no assunto. Ligou o rdio para distrair. 
Estava tocando a msica Dia Branco, de Geraldo Azevedo. Era o sinal que ele precisava. Olhando para Denise, cantou:
- Eu lhe darei o sol, se hoje o sol sair, ou a chuva, se a chuva cair. Se voc vier at onde a gente chegar, numa praa ou beira de mar, num pedao de qualquer lugar. 
Nesse dia branco, se branco ele for, esse tanto esse to grande amor. Se voc vier pro que der e vier comigo.
Os olhos de Denise encheram-se de lgrimas com a declarao sincera do namorado. Com um sorriso de contentamento estampado na face ela respondeu:
- Eu vou com voc para onde voc quiser, quando voc quiser.
Artur suspirou fundo, olhou para frente e viu a alguns metros de distncia um cartrio de registro civil. No hesitou em parar o carro na nica vaga que havia, exatamente 
em frente ao cartrio.
Sem entender nada, mesmo porque no havia visto o cartrio, Denise perguntou:
- Para onde vamos? No conheo nenhum lugar legal aqui perto. Artur sorriu e respondeu:
- Tenho uma surpresa para voc. Desa do carro.
Foi  vez de Denise ficar ansiosa. Qual seria a surpresa que ele havia preparado?
Aps sarem do carro, Artur deu a mo a ela e conduziu-a ao cartrio. At ento, ela no sabia o que estavam fazendo ali.
- Voc veio tirar algum documento aqui?
Artur aproximou o seu rosto do dela, olhou fixamente em seus olhos e respondeu:
- No. Eu vim aqui para olharmos quais so os documentos que precisamos para nos casar. Eu amo voc; quero que se case comigo.
Diante do olhar atnito de sua amada, ele prosseguiu.
- Sei que temos pouco tempo de namoro, mas o tempo importa menos que o sentimento. O amor que sinto por voc  muito forte. Parece que nos conhecemos h vrios anos.
Denise limpou a lgrima que escorria pela sua face. Apesar de ter sido pega de surpresa, no hesitou em responder.
- O amor que sentimos um pelo outro vem de outras vidas. Sinto que voc me conhece o suficiente para fazer este pedido e eu o conheo o suficiente para dar a minha 
resposta:  sim. Eu quero me casar com voc, hoje mesmo se fosse possvel.
Abraaram-se e deram um beijo caloroso. Em seguida, conversaram com o funcionrio do cartrio e decidiram que o casamento se daria dentro de dois meses, tempo suficiente 
para encontrarem um apartamento de dois quartos, mobiliado, para alugar. Decidiram, tambm, que s dariam a notcia do casamento aos familiares quando retornassem 
de Pedra Rosada. Iriam para l no dia seguinte, sexta-feira, e retornariam na segunda-feira.
Envolvidos pela expectativa do casamento, mal conseguiram dormir durante a noite. De igual forma, Jos Antnio e Maria mal conseguiram dormir. Em suas mentes, tentavam 
imaginar como estaria a cidade de Pedra Rosada. Teria se modernizado? Quais seriam os chefes polticos atuais? Teriam a oportunidade de reencontrar velhos amigos? 
E, caso positivo, qual seria a reao deles ao v-los juntos, descobrindo que Jos Antnio no tinha morrido? Um turbilho de perguntas alimentava as mentes dos 
dois.
Exatamente s seis horas da manh, o despertador tocou no quarto de Artur, acordando-o. Quando ele abriu a porta para ir ao quarto dos avs acord-los, surpreendeu-se 
ao v-los sentados na poltrona da sala, com a mala arrumada, prontos para partir.
- Achei que estivessem dormindo. Vou tomar um banho rpido para sairmos.
Artur telefonou para Denise, combinando de busc-la em meia hora. O banho quente, naquela manh friorenta, era tudo de que ele precisava para comear o dia com disposio.
Quando estava lavando os cabelos, de olhos fechados, veio  sua mente a imagem do homem que salvou sua vida ao retir-lo do interior da caminhonete que havia cado 
dentro da lagoa da Pampulha. Nesse momento, lembrou-se do sonho que teve com o mesmo homem, recordando-se perfeitamente dos seus conselhos para ele perdoar o seu 
pai e incentivar a sua me a fazer o mesmo. Quem seria aquele homem?
Passados alguns meses, aps ele e sua me seguirem o conselho daquele desconhecido, tudo tinha melhorado na vida de ambos.
Com dez minutos de atraso, Artur e seus avs passaram na casa de Denise. Fazia uma linda manh de sol, no havendo uma nuvem sequer sobre o cu de Belo Horizonte.
A estrada cortava as montanhas de Minas, em uma sucesso de curvas acentuadas, sendo raros os trechos com pequenas retas. A compensao era o belo visual proporcionado 
pelo desfiladeiro de montanhas, parcialmente coberto pela serrao.
Uma hora aps sarem, chegaram a So Gonalo, local onde ficava a lanchonete preferida de Artur.
Vrias pessoas faziam fila para serem atendidas. Quando chegou a vez deles, pediram empadas de frango e de queijo, pastelzinho portugus de frango e bacalhau, e 
o tradicional po de queijo. Para beber, caf com leite para todos.
Jos Antnio deu o brao a torcer, pois somente aquela parada j compensava a ida de carro para Pedra Rosada. A comida estava to gostosa que at os pssaros aproximavam-se 
dos clientes para comer as migalhas que caam ao cho.
Depois de meia hora, retomaram a viagem e logo subiram uma serra de oito quilmetros. As curvas pareciam no ter fim, fazendo com que Denise comeasse a sentir enjoos. 
Quando a estrada melhorou, ela conseguiu dormir. Aps quatro horas de viagem, Jos Antnio emocionou-se ao rever o rio Bonito, o qual, para muitos, havia levado 
a sua vida. A partir dali, at Pedra Rosada, boa parte da estrada margearia o rio.
Em determinado momento, ao atravessarem uma bela ponte, Jos Antnio viu,  sua direita, a uns cem metros de distncia, uma ponte em runas. Na hora, sentiu o seu 
corao bater mais forte.
- Vejam! Aquela  a ponte de onde a caminhonete caiu no rio.
Assim que acabou de atravessar a ponte, Artur estacionou o veculo no acostamento. Queria observar melhor a ponte de que tanto ouvira falar. Todos aproveitaram para 
esticar as pernas e desceram do carro.
- A estrada passava por ali e no era asfaltada - disse Jos Antnio, apontando com o indicador.
- No estou vendo a curva de onde o senhor pulou da carroceria da caminhonete - comentou Artur.
Ao olhar para a sua frente, Jos Antnio viu, pouco acima, o local da antiga curva e sentiu um arrepio subindo pelo corpo.
- A curva era ali, atrs daquele mato.
Jos Antnio fechou os olhos e viu, como em um filme, a cena de quando se jogou da caminhonete. Apesar do tempo, a imagem veio ntida em sua mente.
Aps alguns minutos, seguiram viagem.  medida que o carro se aproximava de Pedra Rosada, Artur comeava a sentir um frio na barriga, com receio da reao que a 
mulher e a filha de Slvio poderiam ter ao encontrarem seu av.
- O senhor no acha que ser muito arriscado esse encontro?
- O risco que se corre para fazer um pedido de perdo  abenoado por Deus - respondeu Jos Antnio.
Exatamente s treze horas, eles chegaram a Pedra Rosada. Quando Maria segurou a mo de Jos Antnio, ele percebeu que ela estava chorando.
- Fique tranquila, tudo dar certo. O que passou, passou.
As primeiras casas foram aparecendo e Jos Antnio parecia estar anestesiado. Ele percebeu que as ruas estavam caladas, no sendo mais de cho batido. Quando candidato 
a prefeito, a principal promessa dele era calar todas as ruas da cidade.
O frio que fazia no incio da viagem havia ficado para trs; afinal, Pedra Rosada era uma das cidades mais quentes de Minas Gerais.
Logo na entrada da cidade, eles viram a placa de um hotel, simpatizaram com o nome e decidiram ficar hospedados nele.
J na recepo, Artur tomou a iniciativa e pediu trs quartos: um para ele, um para seus avs e o outro para Denise. O quarto de Denise ficava em um andar superior, 
mas todos tinham uma pequena vista do rio. Apesar de pequenos, os quartos eram equipados com televiso, uma pequena geladeira e ar condicionado, item que no poderia 
faltar em funo do calor causticante de Pedra Rosada.
Atendendo ao pedido de Artur, que disse estar cansado, combinaram de descansar e marcaram encontro na portaria do hotel, s dezesseis horas.
No horrio marcado, Denise foi a primeira a descer. Pouco depois, ouviu os passos de seu namorado e, por fim, Maria e Jos Antnio desceram.
Jos Antnio dirigiu-se ao proprietrio do hotel, a fim de obter a informao que procurava.
- Por gentileza, eu morei em Pedra Rosada h muitos anos e gostaria de ter notcias da viva de um amigo. Talvez, o senhor possa me ajudar.
O homem gordo, de bigodes e cabelos fartos e grisalhos, respondeu atenciosamente:
- Eu sou nascido e criado em Pedra Rosada. No h uma pessoa aqui que eu no conhea. Provavelmente, poderei ajud-lo. Qual  o nome da mulher que o senhor procura?
- Conceio, viva do Slvio e nora do coronel Teodoro.
O dono do hotel sorriu, satisfeito por poder ajudar o seu hspede.
- Ela  minha sogra. Eu sou casado com a Letcia, filha dela. Qual  o nome do senhor?
Jos Antnio sentiu o corpo gelar. No imaginava que estava conversando com o genro de Slvio.
- O meu nome  Jos.
- Pois no, senhor Jos. A dona Conceio foi para a fazenda antes de ontem, mas dever retornar amanh  tarde. Eu levarei o senhor a casa dela.
- Obrigado. Como ela est de sade? - Perguntou Jos Antnio, no escondendo o espanto com mais uma coincidncia.
- Ela teve uma forte depresso alguns anos atrs, mas agora est muito bem. Tenho certeza de que ela se lembrar do senhor, pois a memria dela est tima, melhor 
do que a minha. Esqueci de me apresentar. O meu nome  Geraldo Magela.
Jos Antnio estendeu a mo para cumpriment-lo. Em seguida, de mos dadas com Maria, chamou os netos para darem uma volta pela cidade.
Desceram a rua do hotel at a praa da estao e pararam em um bar para tomar sorvete, pois o calor estava castigando. Por ali, ficaram observando o movimento da 
cidade. Jos Antnio e Maria tentavam reconhecer algum amigo antigo, mas no conseguiram. Certamente, assim como eles, os seus amigos deveriam estar muito diferentes 
fisicamente.
Sentados  mesa do bar, pensavam em como seria o encontro com Conceio e Letcia. Maria demonstrava estar mais ansiosa do que Jos Antnio. Ela tinha um carinho 
especial pela ex-cunhada e, sobretudo, por Letcia, a sobrinha.
Quando o sol comeou a se pr, levantaram-se para passear, aproveitando que o dia ainda estava claro. Seguiram pela rua que beirava a linha frrea. Logo  frente, 
havia uma travessia. Eles atravessaram a linha e seguiram em direo  ponte.  medida que se aproximou, Artur comeou a sentir uma sensao diferente e o corpo 
ficou todo arrepiado.
- Artur, voc est bem? - perguntou Denise. Artur apenas balanou a cabea, em sinal positivo.
- Os plos dos seus braos esto todos arrepiados - tornou Denise.
- Eu j estive neste lugar.
Jos Antnio ficou impressionado com a convico do neto ao fazer tal afirmao.
Quando comearam a atravessar a ponte, Artur lembrou-se com nitidez de uma cena marcante de sua vida.
- Foi aqui nesta ponte - disse ele.
- O que tem esta ponte? - perguntou o seu av.
-  esta a ponte do meu sonho. Eu estava encostado no parapeito, conversando com uma pessoa que me deu lies de perdo. No sei quem era. Ele disse que eu precisava 
perdoar o meu pai e ajudar a minha me a perdo-lo tambm. Ao final da conversa, ele seguiu nessa direo, mas eu no consegui acompanh-lo. Quando eu tive o acidente, 
foi ele que salvou a minha vida, retirando-me de dentro da caminhonete. Virando-se para os avs, Artur completou:
- Eu no estou delirando. Tenho certeza absoluta de que tudo isso aconteceu. Agora, s me resta descobrir quem  esse homem.
O sol se punha atrs das montanhas e as primeiras estrelas surgiam. Quando voltaram para o centro da cidade, o telefone de Denise tocou. Era o seu pai.
- O resultado do exame ficou pronto. Exatamente o que espervamos. Eu sou o seu pai biolgico.
A notcia j era esperada e no abalou o equilrio emocional de Denise.
- Fico feliz pela Beatriz; ela deve estar aliviada. Para mim, esta notcia no altera nada o meu sentimento pelo senhor, como j havia dito.
Denise evitou perguntar ao seu pai se ele havia combinado novo encontro com Beatriz. No queria interferir em absolutamente nada na vida dos dois. O papel dela, 
de incentiv-lo a telefonar para Beatriz a fim de marcar o primeiro encontro, ela j havia feito. Agora, cabia aos dois decidir o que fazer de suas vidas.
Foram jantar em um restaurante. O silncio reinou durante a maior parte do tempo. Artur estava visivelmente incomodado por ter identificado o local do sonho, sem 
ter descoberto quem seria a pessoa com a qual sonhou.
Aps o jantar, passearam pelo centro da cidade a fim de fazerem a digesto. Jos Antnio e Maria puderam constatar que a cidade tinha mudado menos do que haviam 
imaginado. Pouco depois, os dois decidiram retornar ao hotel.
Artur e Denise sentaram no banco do jardim, em frente  igreja, prximos a um pipoqueiro, e ficaram observando o movimento das pessoas. Ao lado deles, um casal comia 
pipoca, quando um homem carregando um violo aproximou-se, convidando-os para assistirem ao show que ele faria em um bar que ficava  beira do rio.
Artur e Denise anotaram o nome do bar e seguiram para l pouco depois. Logo que chegaram, ficaram impressionados com o aconchego do local, que ficava a dois quilmetros 
da cidade. Tratava-se de um bar rstico, com mesas no quintal, a alguns metros do rio.
Ao som suave do violo, tendo o rio Bonito como testemunha, eles trocaram promessas de uma vida a dois, permanecendo ali at altas horas da madrugada.
Enquanto isso, no plano espiritual as almas de Slvio e Beatriz, irm de Imelda, preparavam-se para mais uma reencarnao. Com a ajuda de seus mentores, traaram 
um plano para a misso que cada um deveria desempenhar. Beatriz tinha uma ligao forte com Denise, por ter sido me adotiva dela em uma encarnao passada. Chegara 
o momento de Denise retribuir parte de todo carinho e afeto recebido de Beatriz naquela outra vida. Silvio, por sua vez, seria bisneto de Jos Antnio, que havia 
lhe tirado a vida na encarnao passada.
Por serem espritos muito evoludos, Silvio e Beatriz, entre outros espritos, receberam a misso de ajudar a promover as mudanas que estavam por acontecer no planeta 
Terra, j que a era do amor ao prximo, da justia e da espiritualidade estava chegando.
Quando chegaram ao hotel, Artur acompanhou Denise at o quarto. Assim que ela abriu a porta, eles ficaram se olhando, percebendo, ento, que o desejo que sentiam 
era o mesmo. Sem dizer uma nica palavra eles se entregaram nos braos um do outro e, envolvidos por uma paixo incontrolvel e ao mesmo tempo pura, amaram-se de 
maneira sublime.
Atravs de um lao fludico, as almas de Slvio e Beatriz uniram-se ao corpo de Denise, onde permaneceriam nos prximos nove meses. Com a concepo, comeava uma 
nova reencarnao. Nesta nova vida, eles receberiam os nomes de Francisco e Clara.
 
 
CAPTULO 
XXXIX


Maria e Jos Antnio acordaram cedinho e foram caminhar pela cidade. Seguiram at o local onde era a casa deles, mas decepcionaram-se ao ver que a casa havia sido 
destruda, tendo sido erguido um pequeno prdio comercial em seu lugar.
 medida que caminhavam, olhavam para as pessoas na expectativa de reconhecer algum, o que no ocorreu.
Retornaram ao hotel e encontraram Artur e Denise tomando o caf da manh. No havia muito que fazer at a hora do encontro. Atendendo ao pedido de Artur, foi at 
a fazenda onde Jos Antnio ficou escondido do coronel Teodoro.
Encostaram o carro na beira da estrada, nas proximidades da porteira. A casa velha havia dado lugar a uma linda casa, com piscina e rea de churrasqueira. Onde ficava 
o curral, agora havia um lindo gramado, enfeitado com diversas espcies de flores. Nada lembrava o palco do tiroteio ocorrido h quase cinquenta anos atrs.
Jos Antnio narrou, com riqueza de detalhes, a sua aventura naquela fazenda. No fosse pela intercesso divina, teria tombado morto naquele local.
De volta  cidade, foram almoar. Em seguida, retornaram ao hotel, onde dormiram um sono relaxante.
Denise foi acordada com o celular tocando. Novamente era o seu pai.
- Estou ligando apenas para dizer que sa com Beatriz ontem  noite para jantar. Conversamos bastante e tivemos bons momentos.
- Por acaso, vocs j ficaram juntos?
- No, minha filha. Ns apenas conversamos. Sinto que devo agir com cautela. De qualquer forma, a noite foi superagradvel e combinamos de nos encontrar novamente 
no prximo final de semana, j que retornarei para a fazenda hoje. Quero que saiba que estou muito feliz e confiante em viver um grande amor.
A alegria de seu pai foi mais um motivo de felicidade para Denise. Apesar de no querer interferir, ela desejava que seu pai se acertasse com Beatriz.
No horrio aprazado, todos estavam na recepo, esperando por Geraldo. Enquanto aguardavam pelo genro de Conceio, Jos Antnio orava a Deus, pedindo que abenoasse 
aquele encontro.
s dezessete horas e quinze minutos, Geraldo chegou para busc-los, desculpando-se pelo pequeno atraso. Maria procurava acalmar seu marido, que estava visivelmente 
nervoso, no com o atraso em si, mas com o temeroso encontro.
Artur e Denise ajudaram os avs a se acomodarem na caminhonete de cabine dupla, onde entraram em seguida. O carro partiu, virando a primeira rua  esquerda e seguindo 
em linha reta por cerca de cinco quarteires.
A casa era branca, com as janelas pintadas de amarelo e, apesar de simples, chamava a ateno pela beleza e cuidado dos jardins. Junto ao muro, havia um imenso p 
de jambo. Outro detalhe que chamou a ateno, principalmente de Maria e Jos Antnio, foi  presena de grades reforadas em todas as janelas.
-  nesta casa que ela mora; podemos descer - disse Geraldo.
Jos Antnio sentiu um frio na barriga, temeroso pela reao de Conceio quando soubesse que ele estava vivo.
- Na minha poca, ns dormamos com as janelas abertas - disse Maria. - Hoje, apenas fechar as janelas no basta; as pessoas precisam ser aprisionadas por grades 
dentro de sua prpria casa, como se fossem marginais. Isso  um absurdo!
Geraldo abriu o porto e entrou sem tocar campainha. Quando estava de frente para a porta da sala, gritou pelo nome de sua esposa.
A porta foi aberta por uma senhora morena, de cabelos curtos, o que realava a beleza e intensidade do azul de seus olhos. Geraldo a beijou carinhosamente e colocou-se 
a apresentar os visitantes.
- Esses dois casais esto  procura de sua me. O senhor Jos foi amigo do seu pai h muitos anos e gostaria de ter notcias da sua me. Esta  a esposa dele e estes 
so os netos.
- Muito prazer, eu sou a Letcia. Mame ficar muito feliz com a visita. Ela adora rever amigos antigos.
Geraldo despediu-se e retornou para o hotel, onde havia deixado compromissos pendentes.
Letcia fez um gesto para eles entrarem e seguiu na frente, em direo a outra sala.
Conceio estava sentada em uma cadeira de balano, assistindo a um programa de culinria na televiso.
- Temos visita, mame. O senhor Jos foi amigo de papai e gostaria de ter notcias da senhora.
Pela primeira vez, Maria sentiu forte ansiedade, com receio de que Conceio a reconhecesse antes mesmo que os motivos da visita fossem esclarecidos.
Conceio cumprimentou a todos sem desconfiar de nada.
- O meu falecido marido era um homem bom e tinha muitos amigos. Por favor, sentem-se.
Assim que os quatro se acomodaram, Conceio pediu a Letcia que lhes servissem um cafezinho, quando ento, melancolicamente, comeou a recitar uma poesia.
- "Cafezinho" - suspirou Conceio.

"Faa o favor. Entre para tomar um cafezinho.
"Smbolo da hospitalidade. Em torno da xcara do licor negro, desdobra-se toda a vida brasileira.
"Caf, para os brasileiros, quer dizer cortesia, confiana, amor, solidariedade...
"Na xcara de porcelana ou na caneca de lata, o licor negro  sempre um gesto hospitaleiro.
"No caf que oferecem os ricos e pobres a pobres e ricos, os brasileiros no do apenas a bebida saborosa.
"Do a alma."

- Desculpem-me, mas, nestes ltimos dias, tenho estado um pouco nostlgica e esta poesia, de Rui Ribeiro Couto, faz-me lembrar o meu finado marido, que sabia apreciar 
como poucos as particularidades de um bom caf.
Por um breve momento, Jos Antnio sentiu-se acolhido por aquela senhora, talvez, pelo impacto das palavras amor, confiana e solidariedade, que faziam parte da 
linda poesia que ela acabara de recitar.
Denise, que de imediato reconhecera aquela poesia, sussurrou no ouvido de Artur que aquela, por ser a poesia predileta de seu pai, sempre esteve afixada na entrada 
da sede da fazenda, como um amuleto de sorte.
Conceio, dirigindo-se a Jos Antnio, comentou:
- O senhor vai me desculpar, mas, apesar da sua fisionomia ser familiar, no consigo recordar de onde o conheo...
Jos Antnio pigarreou, aproveitando para ganhar tempo e recuperar o flego, escasso em funo da tenso.
- De fato, eu sa de Pedra Rosada h vrios anos.
- Qual era o tipo de relacionamento que voc tinha com o meu finado marido?
Jos Antnio olhou para Conceio com uma vontade enorme de falar logo a verdade. H quase cinquenta anos, ele esperava por aquele momento.
- Ns fizemos alguns negcios, compra e venda de gado, e tambm tnhamos amigos em comum.
- A famlia do senhor  daqui?
- Eu fui criado no patronato, mas considero as pessoas que moravam e trabalhavam l como membros de minha famlia.
Sentada na cadeira de balano, Conceio inclinou o corpo para frente, demonstrando um maior interesse pelo assunto, aps ouvi-lo dizer ter sido criado no patronato.
- O senhor disse que foi criado no orfanato. Provavelmente, deve ter sido contemporneo do homem que matou o meu marido. Este homem morreu alguns dias depois, em 
um acidente de carro, e, se estivesse vivo, teria a idade do senhor, creio eu.
Maria rezava para que Deus guiasse as palavras de seu marido. Este, por sua vez, sentiu o corao disparar, pois era o momento propcio para esclarecer toda a verdade.
Suspirando fundo, Jos Antnio encheu-se de coragem e comeou a falar:
- Este  o motivo que me traz aqui, dona Conceio.
Atrs de Jos Antnio, Letcia trazia uma bandeja, onde um rstico bule de caf, exalando o aroma e o calor daquela bebida, e quatro xcaras de porcelana pintadas 
 mo, com estampa de rosas, repousavam sobre um singelo forro de bandeja.
- O senhor veio falar da morte do Slvio?
Aquela indagao fez Jos Antnio concluir que no teria como voltar atrs. Todas as cenas daquele infeliz episdio de seu passado, que por anos e anos ele havia 
tentado esquecer, deveriam ser passadas a limpo. Ento, olhando fixamente no fundo dos olhos de Conceio, ele respondeu:
- No. Estou aqui para dizer que o Jos Antnio no morreu.
Ao ouvir as palavras que aquele senhor dizia, Letcia deixou a bandeja cair sobre a mesa de centro. Apesar da queda e do barulho, nenhuma das delicadas xcaras se 
quebrou.
Conceio permaneceu com a fisionomia inalterada, como se no estivesse levando a srio as palavras daquele senhor.
- Eu acredito que deve estar havendo algum engano. Depois da tragdia que vitimou meu marido, Jos Antnio escondeu-se em uma fazenda, tendo sido encontrado, pouco 
tempo depois, pelo meu sogro e pelo meu cunhado, que foram at o local com jagunos armados. Houve tiroteio e o Jos Antnio fugiu em uma caminhonete com outro companheiro, 
sendo implacavelmente perseguidos pelo coronel Teodoro, Fausto e seus capangas. Contam que a caminhonete perdeu o controle ao atravessar a velha ponte sobre o rio 
Bonito, caindo no rio e matando seus dois ocupantes.
Nesse momento, Jos Antnio a questionou em tom desafiador:
- Os corpos dos dois ocupantes da caminhonete foram encontrados?
- Apenas o do motorista, que foi encontrado dentro do carro. Ele tinha perfuraes, provocadas por tiros, espalhadas por todo corpo. H quem diga que, por isso, 
ele perdeu o controle da direo, deixando o automvel cair no rio. J o Jos Antnio, por estar na carroceria da caminhonete, teve o corpo arrastado pelas guas 
do rio, que estava com um volume de gua bem acima do normal, pois aquele ano registrou a maior enchente que j vimos por aqui. A intensidade das corredeiras era 
mais do que suficiente para justificar o fato de o corpo nunca ter sido encontrado.
Jos Antnio olhou para Letcia. Ela tinha os olhos azuis, arregalados de espanto, voltados para ele, parecendo adivinhar o que ele diria.
- A senhora est enganada, dona Conceio, pois ele no morreu.
Diante da perplexidade dos olhares de me e filha, Jos Antnio, com a voz trmula, repleta de emoo, completou:
- Eu sou o Jos Antnio.
Letcia sentiu as pernas enfraquecerem e sentou-se para evitar uma queda. Seus pensamentos tomaram formas confusas. Por algum motivo, ela sabia que aquele senhor 
estava falando a verdade.
Conceio ficou esttica com aquela revelao, mas preferiu acreditar que tudo no passava de um trote.
Maria no parava de rezar, enquanto Denise e Artur, calados, observavam o desenrolar dos fatos.
- Eu matei o seu marido - tornou Jos Antnio. - Foi um acidente.
Ele era um ser humano excepcional, por quem eu tinha o maior apreo e admirao. Eu no tinha motivos para mat-lo, e voc sabe disso. Atirei em outro homem, pensando 
estar agindo em legtima defesa. Tinha certeza de que aquele vereador sacaria um revlver, pois ele havia acabado de me ameaar, dizendo que eu receberia o que merecia. 
Quando me virei e o vi pegando algo dentro do embornal, tive certeza de que ele sacaria uma arma. Somente por isso, eu atirei. Infelizmente, um dos tiros, acidentalmente, 
acertou o Slvio.
Jos Antnio abaixou a cabea, fez uma breve pausa e prosseguiu:
- Eu me escondi, pois tive medo do coronel e do Fausto. Por isso, no prestei nenhum auxlio a vocs. Somente agora estou tendo a oportunidade de procur-las e contar 
os fatos como eles realmente aconteceram, pedindo desculpas pela dor que lhes causei. Eu jamais deveria ter ido quele bar armado e muito menos ter aceitado provocaes 
polticas. At hoje, carrego comigo a dor de ter matado no apenas meu cunhado, mas, sobretudo, um grande amigo.
As lgrimas comearam a rolar pelas faces de Letcia e Conceio, a qual, voltando-se para Maria, perguntou:
- Voc  a minha cunhada, que nunca mais deu notcias?
Maria acenou com a cabea, respondendo afirmativamente  pergunta, enquanto as lgrimas caam sobre o seu vestido.
- Sou eu mesma, a Maria, irm do seu finado marido. Conceio estava perplexa diante do que via e ouvia.
- Vocs continuaram juntos esse tempo todo? 
Maria antecipou-se ao marido em responder:
- No. Eu descobri que o Zez est vivo h menos de duas semanas.
Houve um terrvel desencontro em nossas vidas, e ficamos quarenta e oito anos sem termos notcias um do outro. Eu fiquei to chocada quanto voc est agora.
- Vocs ficaram quarenta e oito anos sem se verem? Como isso foi possvel?
- Esta  uma longa histria, melhor deixarmos para contar a vocs em outra ocasio.
- Ento, diga-me como voc conseguiu escapar do acidente. Era impossvel sair com vida daquele rio. O coronel Teodoro e seus companheiros disseram ter visto a caminhonete 
cair da ponte. Eles ficaram ali por algum tempo e correram pelas margens do rio  sua procura. Como voc conseguiu escapar deles?
Jos Antnio retirou um leno do bolso, limpou o suor da testa e comeou a explicar os fatos.
- Antes que a caminhonete entrasse na ponte, eu ouvi a voz do Slvio por trs vezes, dizendo para eu pular. Achei que estava delirando, mas, aps a terceira vez, 
decidi saltar da carroceria. Ele salvou a minha vida. Depois disso, ele me apareceu durante um sonho, dizendo que estava bem e que eu deveria me conformar com o 
acontecido. Vocs podem no acreditar, mas o que eu estou falando  a mais pura e cristalina verdade.
Aps ouvir aquelas palavras, Conceio olhou para a filha, que, imediatamente, entendeu que deveria buscar a mensagem deixada pelo pai.
Letcia, ainda com as pernas trmulas, levantou-se e caminhou em direo ao quarto, de onde retornou trazendo um caderno, em que as folhas, amareladas pelo tempo, 
despertavam grandes expectativas de que novas revelaes estavam por vir.
Conceio olhava com piedade para Jos Antnio. Ela sabia que a morte do seu marido havia sido acidental.
- Eu acredito em voc - tornou Conceio. - O Slvio tambm entrou em contato conosco. Foi h muito tempo atrs, numa poca em que eu estava passando por dificuldades 
financeiras. Eu pensava em voc com muita mgoa, mesmo sabendo que no tinha tido a inteno de matar meu marido. Naquela poca, uma manicure veio aqui em casa fazer 
minhas unhas. De repente, ela pegou um caderno e uma caneta que estavam sobre a mesa e comeou a escrever. Era uma mensagem do Slvio. Ela no chegou a conhec-lo, 
mas a letra era rigorosamente igual  letra dele, inclusive a assinatura, e, alm do mais, a mensagem era endereada  "Zinha", e vocs sabem que apenas o Slvio 
me chamava assim. Estendendo a mo com o caderno em direo a Jos Antnio, ela disse:
- Leia. Servir de consolo para voc tambm.
Aps hesitar por um momento, Jos Antnio pegou o caderno e leu a mensagem em voz alta: 

"Zinha, o que aconteceu foi um acidente. O Zez no teve culpa. No guarde mgoas em seu corao, e eduque a nossa filha segundo os ensinamentos de Nosso Senhor 
Jesus Cristo. Eu estou em paz. No questione o ocorrido. Deus, em Sua suprema sabedoria, sabe o que faz. Estarei zelando por vocs. Nada lhes faltar. Com amor, 
Slvio".

Quando terminou de ler, Jos Antnio sentiu um n na garganta e comeou a chorar.
Maria sentiu uma saudade imensa do irmo e perguntou a Conceio se ela no tinha alguma fotografa de Slvio.
- Claro! Letcia, por favor, volte ao quarto e pegue o porta-retratos sobre a mesinha da cabeceira.
Letcia limpou as lgrimas de sua face e dirigiu-se novamente ao quarto. Ao voltar, entregou o porta-retratos para Maria.
Denise e Artur, que estavam sentados no sof em frente, se aproximaram para ver a foto de Slvio.
Assim que olhou a fotografia, Artur deu um grito de espanto: 
- Minha Nossa Senhora!   
Todos olharam para ele, sem entender o motivo da sua reao. 
- O que foi Artur? Voc est passando mal? - perguntou Denise.
Artur tremia e chorava, sem conseguir responder as perguntas da namorada.     
- Letcia, busque um copo de gua para ele - ordenou Conceio.
Letcia veio correndo da cozinha e entregou o copo ao rapaz. Entre um gole e outro, enquanto boa parte da gua entornava em sua camisa, Artur olhava admirado para 
o retrato de Slvio, aumentando a tenso em todos que ali estavam.
Quando acabou de beber, sentindo-se um pouco mais tranquilo, Artur explicou:
- Foi ele que salvou a minha vida, retirando-me de dentro da caminhonete, depois que capotei na lagoa da Pampulha. O carro estava de cabea para baixo e eu no conseguia 
tirar o cinto de segurana. A gua j tinha tomado o interior da cabine e eu no tinha mais flego no pulmo. Eu o senti puxando o meu brao, retirando-me do carro. 
Eu o vi assim que olhei para o lado. Sei que  o Slvio, porque ele apareceu para mim em sonho, aconselhando-me a perdoar o meu pai e a convencer minha me a fazer 
o mesmo.
- Meu filho, voc pode estar enganado - disse Maria.
Voltando-se para a sua av, Artur completou:
- No estou enganado. Esta mancha vermelha que ele tem embaixo do olho, em forma de ptala de rosa,  inconfundvel. Eu o reconheceria em qualquer lugar do mundo.
- Eu sei que voc est certo - disse Jos Antnio. - Da mesma forma que ele salvou a minha vida naquele acidente, ele salvou a sua em um acidente muito parecido.
Letcia, que at ento estava calada, emitiu sua opinio.
- Desculpe-me, eu acredito que ele tenha aparecido em sonho para voc, mas acho difcil ele ter tirado voc do carro, porque ele precisaria de um corpo para tanto.
- Eu sei que no  fcil acreditar, mas fato semelhante aconteceu na Santa Casa de Misericrdia de Belo Horizonte - insistiu Artur.
- Como foi esse fato? - tornou Letcia.
- Uma jovem senhora estava no corredor da Santa Casa, j em trabalho de parto, mas no havia mdicos para atend-la. A enfermeira, sentindo pena daquela pobre mulher 
desamparada, saiu  procura de algum que pudesse fazer o parto. Alguns minutos depois, quando ela voltou, a criana j havia nascido e a me falou para a enfermeira 
que o parto havia sido realizado por um mdico, mas que, devido ao nervosismo e intensidade das dores que sentia, acabou se esquecendo de perguntar o seu nome. Quando 
eles estavam levando a mulher para o quarto, ela viu a fotografia de um homem na parede e disse: "foi aquele mdico ali que fez o meu parto". Todos ficaram arrepiados, 
porque o mdico que ela apontou, no retrato, era um dos fundadores da Santa Casa e j havia falecido h um bom tempo.
O relato de Artur foi suficiente para convencer Letcia a mudar de opinio.
- A influncia do mundo espiritual sobre o material  muito maior do que imaginamos - disse Denise. - Ns estamos falando de dois exemplos claros disso. Imaginem 
quanta coisa extraordinria acontece  nossa volta e ns no percebemos ou sequer ficamos sabendo.
Maria sentiu uma saudade gigantesca do falecido irmo, como, at ento, nunca havia sentido.        
- Depois de reencontrar o Zez nesta vida, o meu grande desejo  poder reencontrar o Slvio quando falecer - disse ela, sem saber que em breve se tornaria bisav 
do antigo irmo, uma vez que o esprito dele j estava ligado ao embrio no ventre de Denise.
Logo em seguida, todos comearam a sentir um perfume intenso e envolvente de rosas. Hipnotizados pelo cheiro, todos se dirigiram para o jardim.  medida que caminhava, 
o cheiro ia se tornando mais acentuado, at que eles conseguiram detectar as flores que exalavam aquele magnfico perfume. Eram duas flores, uma vermelha e outra 
branca, isoladas em um canteiro.
A mesma brisa que espalhou o perfume das rosas, trazendo-os at o jardim, arrancou uma nica ptala de cada rosa, depositando-as sobre as mos de Denise, que as 
amparou com doura e encantamento diante da beleza e do contraste das cores.
Todos ficaram admirados com a magia daquele fenmeno. Naquele momento, os sinos da igreja soaram seis badaladas e eles ouviram o rdio tocar a msica Ave Maria. 
Era  hora dos anjos.
 
FIM
